Oferecer-te-ei pérolas de chuva, vindas de um país onde nunca chove (Do sublime ao típico, do desespero ao amor e de Paris à Flandres em quatro canções)
Imaginemos um hino de amor e de desespero, em que alguém implora a outrem que não o abandone, oferecendo-lhe para tal, mundos, riquezas e até a submissão total, “Deixa-me ser sombra da tua sombra. A sombra da tua mão. A sombra do teu cão. Mas não me deixes (Laisse-moi devenir L'ombre de ton ombre. L'ombre de ta main L'ombre de ton chien. Mais Ne me quitte pas)”.
Esse hino de amor e de desespero é a canção de Jacques Brel “Ne me quitte pas”. Ao longo da cantiga todos os mais fortes argumentos vão sendo invocados, por exemplo, se por um lado é certo que não raras vezes o amor arrefece com o passar do tempo, e que provavelmente foi isso o que terá sucedido neste caso, por outro lado, Brel contra-argumenta que não é impossível “O fogo irromper de novo de um velho vulcão que há muito se julgava extinto (On a vu souvent rejaillir le feu de l'ancien volcan qu’on croyait trop vieux)”.
Mas a contra-argumentação da canção em desfavor do abandono vai ainda mais longe, pois o abandonado faz promessas irrecusáveis: “Não me deixes e eu inventar-te-ei palavras insensatas que tu compreenderás (Ne me quitte pas, je t'inventerai des mots insensés que tu comprendras)”.
Todavia, e a nosso ver, a mais grandiosa promessa feita é aquela que se expressa na passagem que inspira o título deste nosso texto: “Não me deixes e oferecer-te-ei pérolas de chuva, vindas de um país onde nunca chove (Ne me quitte pas, moi , je t'offrirai des perles de pluie venues de pays oú il ne pleut pas).”
A letra de “Ne me quitte pas” é de um desalento imenso, a melodia é de uma enorme agonia, e como se tal já não fosse bastante, junta-se a tudo isso a teatralidade da interpretação de Jacques Brel, que com as suas intensas expressões e inusitadas entoações, consegue dar voz a um desespero de amor, como nunca ninguém, nem antes nem depois, alguma vez o fez.
Mas se Brel conseguia dar voz e rosto aos maiores desconsolos, também o conseguia fazer relativamente às mais exultantes alegrias, o mesmo é dizer, àqueles contentamentos que raiam, ou vão mesmo muito para lá, da euforia.
Pensemos na formosa Mathilde que entretanto partiu. Está longe, no entanto, o tempo quente vai esmorecendo, o estio passa, Setembro retorna, e com ele também ela regressa. Pensemos na graciosa Mathilde que volta e ainda mais bela do que antes do Verão ("Qu'elle est plus belle qu'avant l'été").
Jacques, aquele que ansiosamente aguardava pelo retorno de Mathilde, rejubila de contentamento. Dirige-se a sua mãe e ordena-lhe que ponha fim às preces, pois que ele finalmente volta ao inferno, uma vez que a Mathilde é regressada ("Ma mère arrête tes prières, ton Jacques retourne en enfer, Mathilde m'est revenue").
Sim, o tempo é de festa, o momento é épico, Mathilde está de volta, que se sirva portanto o melhor vinho, esse que estava guardado para casamentos e festins ("Apporte-nous du vin, celui des noces et des festins, Mathilde m'est revenue").
Bem sabemos que a linda Mathilde nem sempre é de trato fácil, não é de esquecer que já por vezes nos despedaçou a alma, essa que regressa ("Souviens-toi qu'elle t'a déchiré la Mathilde, qui est revenue").
Ah essa maldita Mathilde, só de pensar no seu regresso, já as mãos nos tremem ("Maudite Mathilde, puisque te v`là, et vous, mes mains, restez tranquilles").
Vós minhas mãos não tremam mais ("Et vous, mes mains, ne tremblez plus"), vós meus braços não se estendam já ("Vous, mes bras, ne vous tendez pas"), e tu meu coração não te deixes levar, faz antes como se não soubesses que a Mathilde está de volta ("Mon cœur, mon cœur, ne t'emballe pas, fais comme si tu ne savais pas que la Mathilde est revenue").
Tu meu coração pára de repetir que ela está mais bela do que antes do Verão. Meu coração, pára de bater tão descompassadamente, lembra-te de como ela antes te despedaçou ("Mon cœur, arrête de répéter qu’elle est plus belle qu'avant l'été la Mathilde, qui est revenue. Mon cœur, arrête de bringuebaler, souviens-toi qu'elle t'a déchiré").
Em síntese, o facto é que Jacques já anteriormente tinha sofrido às mãos da esbelta mas instável e caprichosa Mathilde, contudo, o que lhe importava agora isso? O momento é de deleite, de tremenda expectativa e de eufórico entusiasmo. Contada a história, resta vermos o que Brel faz dela.
Deixemos a bela Mathilde e detenhamo-nos sobre coisas diferentes, menos instáveis e caprichosas, como por exemplo, Paris, a cidade que nunca se acaba.
Tristes os deste tempo, que já não têm oportunidade de ir até à cidade-luz no velho Sud-Express. Eram mais de vinte e quatro horas de comboio desde a Estação de Santa Apolónia em Lisboa, até à Gare de Austerlitz em Paris. O que todos os viajantes desse lendário comboio sabiam, é que não importava a demora, pois que cada hora Paris estava mais próxima.
Mas os comboios não chegavam a Paris e à Gare de Austerlitz apenas vindos de Lisboa, na Gare du Nord, na Gare de Lyon, na Gare de l’Est, na Gare Montparnasse e na Gare Saint-Lazare, compareciam passageiros oriundos de todos os sítios da Europa e não só.
Viessem as gentes no comboio de Lisboa, de Istambul, de Bucareste, de Berlim ou de Bruxelas, ao atravessarem os campos, aldeias e vilas que encontravam pelo caminho, certamente que lhes ecoava na mente a letra de uma canção de Brel: “Des villes et des villages, les roues tremblent de chance, C'est Paris en chemin…Et c'est Paris, je reviens.”
Brel via Paris como uma valsa, não uma valsa a um ou a dois tempos, mas sim a mil, imagine-se.
Num primeiro tempo, ainda sozinho mas já avistando Paris e o seu ritmo ("Au premier temps de la valse, je suis seul, mais je t'aperçois, et Paris qui bat la mesure"). Depois há mais que tempo, para que o compasso toque agora a três tempos ("Une valse à trois temps qui s'offre encore le temps"). Mais à frente, uma valsa a quatro tempos, que é bem menos dançante, mas igualmente encantadora ("Une valse à quatre temps, c’est beaucoup moins dansant, mais tout aussi charmant").
Depois é ir por aí adiante ("Une valse à vingt ans, une valse à cent temps…une valse à mille temps offre seule aux amants, trois cent trente-trois fois le temps…"). Em resumo, tudo roda e baila e “savoir que demain sera comme aujourd'hui, c’est Paris merveilleux”.
Jacques Brel cantava em francês e andava por Paris como se andasse por casa, porém, o homem era belga, com origens familiares na Flandres. Dito isto, os flamengos representavam para ele a gente rústica do seu país.
Que não haja mal-entendidos, Brel nunca negou as suas origens flamengas, de facto, não raras vezes até as ostentava, no entanto, a Flandres era a província, uma terra de gente simples, despretensiosa e típica.
Brel cantou muitas vezes Paris, que em muitos sentidos era para ele o oposto da Flandres, porém, também dedicou canções ao povo flamengo. Na canção “Les Flamandes”, Brel faz um retrato desse povo, que atravessa diversas gerações de mulheres.
As moças flamengas dançam em silêncio, pois não são de muitas palavras. Se dançam, é porque têm vinte anos e é preciso ficar noiva, para se poderem casar. E casar-se para ter filhos. Foi isso que seus pais lhes disseram ("Les Flamandes dansent sans rien dire. Les Flamandes, ça n'est pas causant. Si elles dansent, c'est parce qu'elles ont vingt ans. Et qu'à vingt ans il faut se fiancer. Se fiancer pour pouvoir se marier. Et se marier pour avoir des enfants. C'est ce que leur ont dit leurs parents").
As senhoras flamengas uma vez já casadas e mães de filhos, continuam a dançar. Se dançam, é porque têm agora trinta anos e convém mostrar que tudo vai bem e que os filhos crescem ("Si elles dansent, c'est parce qu'elles ont trente ans, et qu'à trente ans il est bon de montrer que tout va bien, que poussent les enfants").
Mais tarde na vida, as velhas flamengas dançam sem sorrir. Se dançam, é porque têm setenta anos e aos setenta, é bom mostrar que está tudo bem, que os netos estão a crescer ("Les Flamandes dansent sans sourire. Les Flamandes, ça n'est pas souriant. Si elles dansent, c'est qu'elles ont septante ans, qu’à septante ans il est bon de montrer que tout va bien, que poussent les petits-enfants").
Mesmo já muito velhas, as mulheres flamengas continuam a dançar, incansáveis, não esmorecem. Se dançam, é porque têm cem anos e, aos cem, é bom mostrar que tudo vai bem, que ainda se aguentam em pé ("Si elles dansent, c'est parce qu'elles ont cent ans et qu’à cent ans il est bon de montrer, que tout va bien, qu'on a toujours bon pied").


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