Nós neste blog, temos muita pena de não sermos uma estação de rádio, ou pelo menos, mais que não fosse, um programa radiofónico, que se transmitisse pelas ondas hertzianas.
A nós tanto nos fazia irmos por Onda Média ou por FM, o que verdadeiramente queríamos, era que as nossas palavras fossem etéreas e não tivessem sequer de ser lidas, ou seja, que entrassem pela mente de quem nos lê adentro intimamente, assim pura e simplesmente como que quase sussurradas a quem as ouvisse.
A Onda Média funciona entre os 530 kHz e 1700 kHz, já a frequência modulada, o FM, opera entre os 88 MHz a 108 MHz. Mas tudo isto, é coisa que nada nos interessa, pois que este blog move-se unicamente entre o silêncio das mudas palavras escritas e de uns quantos vídeos recolhidos no YouTube.
Poderíamos ser um Podcast, mas isso é lá coisa que tenha alguma graça? Claro que não, falta-lhe a intensidade do directo, é uma mera gravação. Na verdade, é uma espécie de prato requentado, sempre pronto a ser aquecido, reaquecido e assim sucessivamente de cada vez que alguém o queira ouvir.
A rádio quer-se em directo, fresca e sem rede, com todo o risco de se saber, que o que ‘tá dito, ‘tá dito, e não há mais nada a fazer, que não seja ou enchermo-nos de contentamento por o dito nos ter saído bem, ou encolhermo-nos de vergonha pelo dito ser uma barbaridade ou tolice, que inadvertidamente nos saiu pela boca afora.
Em resumo, feitas as contas somos um blog, e por isso carregamos connosco o silêncio das palavras escritas, a impessoalidade dos vídeos do YouTube e tudo mais que advém de não sermos uma rádio e não irmos directamente ao encontro dos nossos leitores através do éter e das ondas hertzianas que nele se expandem.
A rádio desempenhou um papel imenso na carreira de Ella Fitzgerald, servindo como o veículo que a impulsionou para não ser tão-somente uma estrela local do Harlem, e ser sim uma artista consagrada e amplamente reconhecida por toda a América.
Nas décadas de 30 e 40 do século XX, as transmissões de rádio ao vivo permitiram que milhões de americanos ouvissem a sua lendária voz, ajudando-a também a ultrapassar muitas barreiras raciais e geográficas, que caso assim não tivesse sido, seriam praticamente intransponíveis.
Nós gostamos da Ella e por isso a mencionámos no banner de topo deste blog, glosando uma sua canção: “Como na canção de Ella Fitzgerald, nos Guiões de Aprendizagem que por aqui vamos publicando, queremos ser multidisciplinares, interdisciplinares e transdisciplinares. Mas também falamos de pássaros, de abelhas e até de pulgas. Viajamos desde a vizinha Espanha à longínqua Lituânia. Desde a gélida Finlândia até à ardente Argentina. Let's do it!”
Ella inspirou-nos desde o primeiro momento, como Ella também gostamos de falar de muita coisa diferente ao mesmo tempo e misturar tudo, como por exemplo, “educated fleas, Lithuanians, Letts, Finns e Argentines, e ainda Oysters, jellyfishe sponges, e por fim, inclusivamente Electric eels”.
Aqui fica uma magnífica versão de “Let’s do It” na voz de Ella Fitzgerald, acompanhada pela The London Symphony Orchestra. Os desenhos animados que ilustram a canção também são bem giros!
Ontem, dia 4 de Julho, comemoram-se os 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, mas o que seria a América, se porventura as enormes vozes de umas quantas mulheres negras não tivessem ecoado por toda a nação?
Seria certamente uma coisa diferente, ou seja, mais pobre, menos intensa e apaixonada. Se Ella foi decisiva para a América, e também para nós, há que dizê-lo, menos não o terá sido Aretha Franklin.
A relação de Aretha Franklin com a rádio é absolutamente determinante. Nas décadas de 60 e 70, Aretha Franklin quebrou de vez as tradicionais barreiras da rádio norte-americana. Canções como "Respect" (1967) e "Think" (1968) cruzaram a linha radiofónica divisória existente à época, pois deixaram de ser tocadas apenas nas rádios focadas no R&B (frequentemente chamadas black radios) e passaram a dominar as grandes rádios Pop, cujas audiências eram sobretudo constituídas por gente de cor branca.
Aretha Franklin é uma das artistas mais tocadas na história da rádio e é tema exclusivo de inúmeras estações, canais e transmissões especiais a ela dedicados. Ao dia de hoje, há estações radiofónicas por toda a América, que tocam o seu repertório 24 horas por dia, sete dias por semana, e nada mais do que isso.
Aretha é um marco histórico, não sendo por isso de estranhar, que de vez em quando, seja convidada para actuar nas mais altas cerimónias oficiais em Washington. Um desses momentos aconteceu em 2015 no Kennedy Center, durante a presidência de Barack Obama.
O Kennedy Center foi ao longo das últimas seis décadas um local privilegiado para o teatro, para o ballet, para a dança moderna, para a música clássica, o jazz e o pop.
Era a sede da Orquestra Sinfónica Nacional e da Ópera Nacional de Washigton, todavia, em 2025, o presidente Trump destituiu todo o conselho de curadores do centro e nomeou novos membros, que prontamente o elegeram Presidente do Conselho. A primeira decisão tomada foi mudar o nome da instituição para Trump Center.
Uma decisão judicial de Maio de 2026 reverteu essa alteração do nome, no entanto, Trump anunciou que o centro fecharia para reformas, estando o espaço agora envolto em andaimes e lonas protectoras, sem que se entreveja que futuro terá.
Em síntese, nas actuais circunstâncias, nem sequer a bela arquitectura brutalista do Kennedy Center está à vista, restam-nos as fotografias de outros tempos.
Dizíamos que foi precisamente no Kennedy Center, que em 2015 Aretha actuou num evento oficial. Do alto dos seus 73 anos de idade, Aretha entrou no palco de surpresa, usava um longo casaco de pele e sentou-se ao piano, coisa que ninguém esperava que ela fizesse.
Cantou de um modo íntimo. A meio da canção levantou-se, caminhou até à frente do palco, despiu o casaco e deixou-o cair pelo chão. Nesse mesmo momento, soltou a sua poderosa voz, levando toda a sala ao rubro.
Aretha cantou o tema “Natural Woman” no qual se diz coisas tão tristes e melancólicas como “I used to feel so uninspired, And when I knew I had to face another day, Lord, it made me feel so tired” ou “When my soul was in the lost and found”.
Logo no início da actuação, as câmaras de televisão captaram o então presidente Barack Obama a limpar discretamente uma furtiva lágrima. Emocionou-se, pois então.
Ah… o que há em Chicago! Sim, Chicago tem a sua mundialmente célebre universidade e tem um dos mais belos museus da América, The Art Institute of Chicago, sítio onde podemos contemplar a mais norte-americana de todas as obras de arte, “The Nighthawks” de Edward Hopper.
Chicago é uma das três grandes metrópoles dos Estados Unidos, sendo que é a mais tipicamente norte-americana. Nova Iorque é culta, vibrante, sofisticada e elegante e por vezes dá-se ares de quase ser europeia. Los Angeles é mais praia, sol, surf e Hollywood. Chicago é fundamentalmente uma cidade de gente de trabalho, de seres simples e familiares que vivem como sabem e não aspiram a ser estrelas como o pessoal de Los Angeles, nem têm também as refinadas ambições culturais e intelectuais dos nova-iorquinos.
Frank Sinatra, numa canção dedicada a Chicago, dizia que nessa cidade viu “a man and he danced with his wife”. Coisa espantosa para Sinatra, pois sendo ele um rapaz nado e criado em Nova Iorque e tendo-se depois tornado num residente de Hollywood, jamais lhe ocorreria a ideia que um homem se pudesse pôr a dançar com a sua própria esposa.
Chicago é a capital da música negra norte-americana. A grande migração teve início no princípio do século XX e prolongou-se por várias décadas, tendo sido largos milhões, os afro-americanos que fugiram do sul segregado e desembarcaram em Chicago. Consigo trouxeram os seus estilos e instrumentos musicais para a grande urbe.
Barack Obama, que não era músico, é um rapaz de Chicago. O famoso Louis Armstrong veio do sul para se fazer músico em Chicago. Foi precisamente em Chicago, que Aretha Franklin foi coroada como “The Queen of Soul”.
Em 1964, durante uma memorável actuação no lendário Regal Theather no South Side de Chicago, o influente locutor de rádio Pervis Spann subiu ao palco e colocou-lhe uma tiara na cabeça, declarando-a publicamente como a “Rainha do Soul”. O título acompanhou-a pelo resto da vida.
Provavelmente por Chicago ser uma cidade de gente simples e de trabalho, a música negra não apenas foi bem recebida, como também transformou a cidade numa capital global da inovação musical.
Após o fluxo de afro-americanos durante a Grande Migração, géneros musicais criados e refinados por artistas negros integraram-se profundamente no tecido social de Chicago. A verdade é que gente de cor branca da cidade tomou a música composta pelos artistas afro-americanos como se fosse sua, e na verdade tanto era sua como era dos negros, era de todos.
Pensemos no filme “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, uma película de 1997, cuja ação decorre em Chicago. Estamos perante uma típica e inocente comédia romântica, protagonizada pelas grandes estrelas de Hollywood da época: Julia Roberts, Dermon Mulroney, Cameron Diaz e Rupert Everett.
O filme foi um enorme sucesso de bilheteira, tendo rendido milhões aos estúdios que o produziram. Não estranha que assim tenha sido, pois tudo no filme foi concebido para agradar às plateias dos centro comerciais, constituídas por gentes simples e trabalhadoras que só quer divertir-se e passar um bom bocado, e não tem nem exibe quaisquer pretensões culturais ou intelectuais.
No fundo, o filme era um puro divertimento, contudo, certos analistas assinalaram que o elenco era predominantemente branco e a narrativa era centrada exclusivamente em tópicos românticos e sociais específicos desse grupo demográfico.
Nós não sabemos se os ditos analistas teriam ou não razão, sabemos sim que numa cena dessa película, durante uma refeição familiar num restaurante da típica classe média branca e trabalhadora de Chicago, todos entoam um clássico absoluto da música afro-americana, “I say little prayer for you” de Aretha Franklin:
É um exercício muito interessante comparar a versão de “I say little prayer for you” interpretada pelo elenco branco do filme, ou seja, uma versão doce, “clean”, alegre e divertida, com uma versão da mesma canção interpretada por Aretha Franklin, onde tudo é aguerrido, insinuante, visceral, intenso e negro. É ver e ouvir:
Como dissemos no início deste nosso texto, nós bem que gostávamos de ser uma rádio em que as palavras fossem ditas e não meramente escritas, e em que anunciássemos músicas e não nos limitássemos a fazer copy paste de links para vídeos do YouTube. No entanto, não somos, paciência.
Chicago é uma das cidades do mundo que mais estações de rádio tem, sendo que uma delas ficou para a história devido a uns grandes desacatos ocorridos no ano de 1979.
Steve Dahl era à época um famoso locutor de rádio, no entanto, foi despedido. Mudou-se para a estação rival daquela em que antes trabalha. O motivo do seu despedimento tinha a ver com o facto de ele só passar rock, e recusar-se a passar a música da moda à época o Disco-Sound.
A partir dos estúdios da WLUP, a estação radiofónica para a qual começou a trabalhar, Steve Dahl lança um movimento cujo mote era “Disco Sucks”. Em Chicago a coisa pegou, pois para gente trabalhadora e simples dessa cidade, o Disco-Sound era algo vindo da hedonista, pretensiosa e decadente Nova Iorque.
Chicago era a terra do Jazz, do Blues, do Soul e também do bom e duro Rock. Disco? Eles não queriam lá nada disso.
O momento culminante do movimento Disco Sucks deu-se em 12 de Julho de 1979. Em Chicago o estádio estava cheio, no intervalo do jogo de baseball que se jogava nessa noite, 20 mil álbuns de vinil, álbuns de música disco, foram lançados para o relvado levando a multidão à loucura.
Muitos não tinham vindo para o jogo, mas para sim assistir ao que a seguir se passou. Aproveitando uma incrível falha de segurança, Steve Dahl, o locutor e promotor do evento, entrou no campo e fez explodir os discos, acabando a explosão por causar um enorme buraco no relvado.
A multidão correu para o campo, alguns treparam pelos postes e outros atearam fogo aos discos que restaram, do relvado nada sobrou, o caos foi total. A devastação só parou com a intervenção da polícia de choque. O acontecido ficou para a história como a Disco Demolition Night.
E pronto, por aqui nos ficamos, mas antes de fecharmos a emissão, e para terminarmos num tom mais tranquilo e pacífico, temos Duke Ellington.
Duke Ellington é uma das mais influentes personagens da história do jazz. Manteve uma ligação profunda e duradoura com Chicago, essa cidade foi onde gravou muitos dos seus discos, foi o palco onde actuou inúmeras vezes e foi uma constante fonte de inspiração.
Ellington foi um grande inovador, pois foi o primeiro a compor melodias de modo a tirar partido das especificidades próprias dos microfones radiofónicos. A rádio inspirou-o a criar arranjos característicos no estilo "mike-tone", concebidos especificamente para a audição via microfone.
Para obter o efeito de "timbre de microfone", ele posicionou o clarinete nas notas mais graves e o trombone com surdina nas mais agudas, o exacto oposto do que todas as bandas faziam. Com isso inventou um efeito sonoro que dava a impressão de que um outro instrumento oculto estava também presente, criando assim sons e tons inéditos.
Finalizamos então com Duke Ellington e “Sophisticated Lady”:







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