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Uma ode à intrépida América


Hoje assinala-se um aniversário redondo, comemoram-se os 250 anos da independência dos Estados Unidos da América. 
“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: todos os homens são criados iguais, são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, e que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade”. Foi com estas palavras aprovadas pelos representantes do povo a 4 de Julho de 1776, que se fundou a grande nação norte-americana.


Uma coisa é certa, por muito que isso possa irritar uns quantos ou até mesmo bastantes: os bons USA são a maior e a melhor nação que alguma vez existiu ao longo de toda a história da humanidade, à face da Terra.

Há muito quem desdenhe ou odeie os EUA, mas quanto a isso não há nada a fazer, é como tudo, também há quem pense que a Terra é plana, quem adore Tony Carreira, quem aprecie comer delícias do mar e que creia que o Ronaldo com mais de quarenta anos ainda joga bem, enfim, o melhor a fazer é deixá-los a todos estar, desde que não chateiem, tudo fixe.

Nós bem sabemos que os Estados Unidos não são perfeitos, longe disso, porém, comparados com todos os outros são muito melhores. Poderíamos enumerar tudo aquilo em que são melhores, mas a lista seria exaustiva, preferimos ao invés centrarmo-nos em apenas duas ou três coisas.

A primeira delas é que nenhuma outra nação inscreveu na sua constituição “a procura da Felicidade” como sendo um direito inalienável. Para os norte-americanos, paz, pão, habitação, saúde e educação não chegam, pois que há também “the pursuit of happiness".

Repare-se que não está dito que todas as pessoas têm direito a ser felizes, isso seria uma parvoíce, ainda que actualmente esse suposto direito à felicidade sirva para vender muito livros de auto-ajuda. O que está sim dito, é que todos têm direito a procurar a sua felicidade e que têm autonomia e liberdade para o fazerem como muito bem o entenderem, nem que seja irem assistir a um concerto de Tony Carreira e a seguir dirigirem-se à tasca mais próxima para ingerirem uma tachada de delícias do mar.


Em boa verdade, legislar que a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade são direitos inalienáveis, foi coisa que ao longo da história da humanidade, nunca a  ninguém tinha ocorrido.

Essa originalidade norte-americana foi um momento inaugural, que uns poucos anos mais tarde haveria de servir de inspiração à Revolução Francesa e à elaboração do seu documento fundador, “A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” de 1789.

Esta é uma das razões, por que os EUA são a melhor nação de sempre, mas há outras, como por exemplo, esta expressa nas palavras do grande poeta Walt Whitman: “The Americans of all nations at any time upon the earth have probably the fullest poetical nature. The United States themselves are essentially the greatest poem.”

É mais ou menos consensual, que Walt Whitman (1819-1892) é o grande poeta norte-americano e um dos maiores do mundo inteiro. A poesia de Fernando Pessoa provavelmente nunca teria existido, se previamente não tivesse havido a de Walt Whitman.

Pessoa descrevia o seu heterónimo Álvaro de Campos como sendo essencialmente "um Walt Whitman com um poeta grego lá dentro". O poeta português dedicou inclusivamente um longo poema ao norte-americano, vejamos uns quantos versos soltos:

De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso…

Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma…

Meu velho Walt, meu grande Camarada, evoé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora...

Abaixo uma foto do velho Walt, o poeta da América.


Feita esta deambulação por Pessoa, voltemos à frase de Whitman, “The Americans of all nations at any time upon the earth have probably the fullest poetical nature. The United States themselves are essentially the greatest poem.”

Sim, não há efectivamente sítio mais poético do que os Estados Unidos da América e isso é também uma outra razão, pela qual os USA são a maior e melhor nação de sempre.

Para além do Whitman, poderíamos citar outros grandes poetas norte-americanos, de modo a provar a natureza essencialmente poética da América. 
A esse propósito, poderíamos também falar dos seus grandes artistas, do seu cinema, das suas paisagens infinitas, dos seus extensos lagos, dos seus enormes desertos e desfiladeiros, das suas grandiosas montanhas rochosas e das suas cidades a perder de vista, todavia, vamos antes falar de umas quantas canções, que a nosso ver, expressam exemplarmente a poética alma norte-americana, essa nação conhecida por ser “the land of the free and the home of the brave”.

Abaixo uma pintura de Jasper Johns, homem nascido em 1930 e que ainda é vivo. A pintura é de 1961, faz parte da coleção do MoMa de Nova Iorque e representa um mapa dos Estados Unidos, um concebido de um modo tão livre e destemido como a própria América.


Vamos então às quantas canções que expressam a alma poética da América, e para começarmos, nada melhor do que “Johnny B. Goode”. O tema foi escrito em 1958 por Chuck Berry e conta-nos a história de um rapaz do campo (a country boy) que, mesmo sem saber ler ou escrever correctamente, tinha o sonho e também o talento para acreditar poder vir a ser uma estrela do rock and roll.

Johnny B. Goode não nasceu e cresceu num sítio privilegiado, nem sequer num tranquilo local típico da classe média, o rapaz vinha lá de “Deep down in Louisiana close to New Orleans”.

Chuck Berry, o autor do tema “Johnny B. Goode”, frequentou a Summer High School, uma das primeiras escolas públicas para negros a oeste do Mississippi. Apesar de tal e qual como o protagonista da sua canção, “never ever learned to read or write so well”, foi aí que teve os seus primeiros contactos com a música.

Na escola Berry teve acesso a instrumentos musicais e ao ambiente próprio das performances públicas, uma vez que na Summer High School havia frequentes apresentações para encarregados de educação e para a demais comunidade. Ambas as coisas foram fundamentais para a sua formação.

Berry inventou algo de original, que haveria de fazer dele um dos pioneiros do rock and roll, a saber, a guitarra como motor narrativo, a letra como crónica do quotidiano juvenil e uma presença em palco que unia humor, dança, virtuosismo e teatralidade quanto baste.

A história de Johnny B. Goode, que não é muito distante da do próprio Chuck Berry, mostra ao mundo que na América, mesmo quem provenha das mais humildes famílias e venha dos lugares mais inusitados, desde que tenha talento, crença e força, poderá chegar a ser uma estrela.

A história de Chuck Berry prova igualmente que se nas escolas norte-americanas, não se conseguir aprender “to read or write so well”, ainda assim, há espaço e disponibilidade para se desenvolverem outros talentos, sendo esta uma outra razão pela qual os EUA são a mais poética e a melhor nação de sempre.

A América é feita de gente que não se deixa ficar, pelo contrário faz e avança: “Go, go, Go Johnny, go, go, Go Johnny, go, go, Johnny B. Goode…”


Vamos a uma segunda canção. A banda californiana Beach Boys aparentava ser o modelo perfeito para a juventude norte-americana. A sua imagem “clean” remetia-nos para os dias de sol, para a praia, para o surf e para “cars and girls”.

Os Beach Boys pareciam ser a encarnação do “American Dream”, ou seja, viviam uma existência confortável e sem grandes preocupações, e dedicavam o tempo aos múltiplos e lúdicos prazeres próprios da Califórnia. Pareciam, mas não eram, os rapazes eram na verdade uma espécie de génios atormentados.


A frase inicial do tema dos Beach Boys “God Only Knows”, é considerada uma das aberturas mais ousadas da história da música pop. Em vez de anunciar o amor eterno como era habitual em todas as canções românticas, a letra começa com a seguinte declaração: “I may not always love you”.

O eu lírico reconhece assim a volatilidade da vida e do amor, todavia, reconhece simultaneamente a sua extrema dependência e o quanto a sua identidade está ligada à pessoa amada. É de tal forma, que perder esse amor resultaria num vazio completo, onde a própria vida perderia o seu sentido (If you should ever leave me / Well, life would still go on, believe me / The world could show nothing to me /So what good would living do me?).

De facto, também não era absolutamente nada comum, para não dizer que era mesmo completamente inédito, que numa canção pop se falasse de um desespero existencial tão fundo.

Mas as inovações dos Beach Boys e muito em concreto as de “God Only Knows”, não foram somente verbais, pois também se insubordinaram contra as convenções melódicas próprias do pop.

“God Only Knows” é uma canção de amor em estilo barroco, que se destaca pela inovação e complexidade harmónica, pela instrumentação incomum e pela subversão dos preceitos típicos da música pop. São utilizados instrumentos eruditos como a trompa francesa e o cravo, e a melodia é construída de forma a nunca se fixar totalmente numa tonalidade. Esta "instabilidade" musical espelha perfeitamente os sentimentos expressos na letra, como por exemplo, o medo da perda e a incerteza quanto ao futuro.

Em resumo, “God Only Knows” é um poema, uma demonstração do carácter lírico da América, sobretudo daquela que a um olhar mais desatento, aparenta remeter-nos apenas para dias de sol, para a praia, para o surf e para “cars and girls”.

Brian Wilson, a principal figura da banda californiana, viveu a sua vida inteira acossado por tremendos problemas psicológicos e psiquiátricos, nunca tendo encontrado uma verdadeira paz. No entanto, e apesar de todo esse seu constante caos interior, conseguiu compor algumas das mais belas, poéticas e complexas canções pop de sempre. Alguém assim, só podia ter surgido na grande nação que é os EUA.

Aqui fica um vídeo com “God Only Knows”. Contrariamente ao que era habitual, nestas imagens os Beach Boys deixam transparecer algo do caos e da instabilidade que os corroía por dentro.


A derradeira canção que propomos é “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan. O autor e intérprete recebeu uma inédita distinção para um músico, o Prémio Nobel da Literatura. Com efeito, nenhum outro Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a um músico, o que só por si prova, caso outras razões não houvesse, a profundidade e complexidade das suas letras. Prova também, e mais uma vez, que para a gente da América tudo é possível.

A expressão “like a rolling stone” refere-se a quem vive sem raízes, estabilidade ou rumo fixo. A letra de Dylan é um acerto de contas com uma rapariga outrora rica e arrogante, que perdeu o seu estatuto e se encontra agora só, sem rumo e forçada a enfrentar o mundo.

“Once upon a time you dressed so fine”, é logo a primeira frase com que Dylan se atira à moça, com efeito, ela vestia bem, mas isso foi antes, agora é só trapos. Mais à frente diz-lhe "Ahh you've gone to the finest schools, alright Miss Lonely”, desdenhando assim da sua educação realizada nas melhores escolas privadas, e desvalorizando de seguida os seus sentimentos, alcunhando-a como Miss Lonely.

Embora o tom de Dylan soe vingativo ("How does it feel, how does it feel?
To be without a home, Like a complete unknown, like a rolling stone), ele disse em entrevistas que a canção não trata apenas de ódio, diz também a alguém uma verdade brutal e inclusivamente filosófica, que em última instância liberta, ou seja, que "Quando nada se tem, nada se tem a perder".

Tendo a rapariga sido despojada da sua artificial e sofisticada identidade de elite, ela é finalmente forçada a tornar-se real. A canção de Dylan teve um enorme impacto cultural. Com mais de seis minutos de duração, o seu tom ousado rompeu com as convenções pop, que privilegiavam temas de amor curtos e leves. A música tornou-se um hino para uma geração jovem e cínica, que aprendeu a ver para além das falsas ilusões da sociedade americana de então, e a procurar a felicidade na sua própria liberdade e independência.

E é tudo isso que a América celebra hoje, a liberdade, a independência e a verdadeira vida, essa em que cada um procura à sua maneira, a sua própria felicidade “Like a Rolling Stone”:

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