Avançar para o conteúdo principal

As mais desastrosas histórias de Verão (O Estrangeiro)

 


Há na época estival quem perca a cabeça e gaste mais de que o que devia em viagens, restaurantes e hotéis. Há também quem perca a cabeça com um amor de Verão, daqueles que estão destinados a acabar mal. Depois há ainda quem perca a cabeça no estio e aproveite para fazer largas noitadas e beber até cair. Todas essas são actividades potencialmente desastrosas, no entanto, o que é realmente desastroso é perder-se literalmente, e não só metaforicamente, a cabeça.

Continuamos hoje com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo segundo texto e penúltimo, centramos-nos no romance “O Estrangeiro, obra de 1942, do escritor Albert Camus (1913-1960).

Camus amava os prazeres terrenos, o sol do Mediterrâneo, o futebol e o teatro, equilibrava a sua filosofia existencialista com uma imensa alegria de viver. Era conhecido pela sua personalidade magnética, pela requintada elegância e pela sua intensa, variada e extensa vida amorosa. Era uma figura muito querida e admirada nos círculos intelectuais e boémios da Paris da sua época.

Embora as suas obras falassem do vazio existencial, do absurdo e da falta de sentido da vida, Camus lidava com tudo isso com uma imensa criatividade, sendo um homem que amava a liberdade e que procurava de uma forma obstinada a felicidade.

“No auge do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível”, é uma bela frase de Camus que demonstra perfeitamente, que o homem era dado a reflexões existencialistas, mas que por outro lado, também apreciava coisas mais terrenas e simples, como por exemplo ir à bola ou apanhar sol.

“O Estrangeiro” é o mais conhecido livro de Camus e logo no seu início ficamos conscientes de que estamos perante um livro algo complexo. Vejamos as primeiras frases: “Hoje morreu a mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi uma mensagem do lar: ‘Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

A propósito desse seu livro, anos após a publicação, Camus escreveu o seguinte: “Eu resumi O Estrangeiro há muito tempo, com uma observação que admito ser altamente paradoxal: na nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral da sua mãe corre o risco de ser condenado à morte. Com isto só quis dizer, que o herói do meu livro é condenado por não jogar o jogo.”


Albert Camus era francês, mas era-o sendo originário da Argélia, de ao tempo em que este país ainda era uma colónia e não uma nação independente. O protagonista de “O Estrangeiro” chama-se Meursault e é um cidadão francês que vive na Argel colonial, a capital do país, porém, isso não significa que seja um livro autobiográfico, longe disso.

Durante o período colonial francês (1830–1962), Argel era conhecida por muitos como a "Paris de África" ou uma "segunda Paris", isto devido a por lá se imitar deliberadamente o urbanismo, a arquitectura e o estilo de vida liberal da capital francesa.

Os colonialistas franceses construíram uma malha urbana neoclássica na zona baixa da cidade de Argel, caracterizada por edifícios brancos com vastas varandas de ferro forjado, alegres teatros, cafés com extensas esplanadas e largos boulevards à beira-mar. Em síntese, ergueram uma espécie de Paris estival.

Já nas colinas de Argel manteve-se a ancestral casbah, uma cidadela medieval em estilo árabe-otomano, com o seu labirinto de ruas estreitas, os vibrantes mercados de rua e as tradicionais habitações islâmicas.

As diferenças e a clara hierarquia entre os colonizadores franceses e a população de origem local, bem como o quente clima mediterrâneo de Argel, desempenham um papel psico-emocional fundamental ao longo de toda a narrativa de “O Estrangeiro”.


O Verão argelino, as tensões raciais e sociais, o calor sufocante e a ofuscante luz solar moldam a apatia e o enorme desconforto existencial de Meursault, o protagonista de “O Estrangeiro”. A intensa temperatura de certos dias funciona quase como uma entidade viva, que esmaga e destrói qualquer espécie de vontade humana.

Voltemos à história. Logo após saber da morte da mãe, Meursault viaja para Marengo, o lugar do lar onde a sua mãe morava, que se situava a oitenta quilómetros de distância de Argel. Ele tira uma folga do trabalho para comparecer ao funeral, mas não mostra nenhum dos sinais de luto que se esperaria observar em alguém na sua situação. No funeral, ele não chora, não quer ver o corpo, fuma e bebe café ao lado do caixão e, genericamente, apresenta-se indiferente.

No dia seguinte ao funeral, Meursault regressa à sua rotina normal. Vai à praia, começa um relacionamento amoroso com Marie, uma antiga colega de trabalho, e vai ao cinema ver uma comédia.

Mesmo sabendo tudo isto, não se pode dizer que Meursault fosse um má pessoa, simplesmente ele não era dado a sentimentalismos e muito menos dado era, a manifestações exteriores efusivas do que lhe ia por dentro. Era assim Meursault, um típico personagem existencialista.


Mas vejamos como Meursault se relaciona com a sua recente amante, Marie. Meursault sente-se atraído pela beleza de Marie, pelo seu riso, pelos seus vestidos e pelo prazer de nadar com ela na praia. Quando um certo tempo depois, Marie lhe pergunta se ele a ama, ele respondeu-lhe directamente que “acha que não”. Quando ela o questiona se porventura quer casar com ela, ele diz-lhe com indiferença e distraidamente que tal questão não tem sequer a mínima importância.

Dito isto, não restam dúvidas, definitivamente Meursault não é mesmo nada dado a demonstrações sentimentais. Ainda assim, ele tem amigos, como por exemplo, um vizinho chamado Raymond Sintès, que é um homem um tanto ou quanto violento e anda envolvido em negócios escuros com redes de prostituição.

Raymond tem um conflito latente com o irmão de uma sua antiga amante árabe, facto que lhe traz alguns sarilhos. Um dia, Raymond convidou Meursault e Marie para a sua casa de praia, e é lá que dão de caras com o irmão da antiga namorada de Raymond, que vem acompanhado por um outro árabe. Raymond informa Meursault e Marie que ultimamente o têm seguido.

Neste entretanto, há um confronto entre todos, que envolve facas e golpes, mas ainda assim sem danos de maior para a saúde de nenhum deles. Mais tarde, Meursault caminha sozinho pela praia sob um calor sufocante. Ele reencontra então um dos árabes. Desorientado pelo reflexo do sol a embater na lâmina da faca do homem e pelo calor opressivo, Meursault que por um mero acaso tinha nesse momento consigo uma pistola, dispara primeiro um tiro, e depois outros quatro, contra o árabe, matando-o.

Ficamos sem saber se Mersault tinha alguma razão profunda para agir com tal violência, ou se a sua reação foi meramente um acto aleatório sem qualquer objectivo preciso. Desconfiamos que a última hipótese é a certa. Termina assim a primeira parte de “O Estrangeiro”.


Meursault está agora preso. A sua indiferença perante a sua vida e destino, permite-lhe adaptar-se a qualquer circunstância externa, por consequência disso, tolera perfeitamente a existência na prisão.

Durante um ano, ele apenas dorme, espreita pela pequena janela da sua cela, faz listas mentais enumerando os objectos do seu antigo apartamento e espera com indolência pelo dia em que irá ser levado a tribunal.

Em tribunal, Meursault não nega que matou o árabe, porém, o advogado de acusação, por motivos estratégicos, concentra-se mais no facto de ele não chorar no funeral de sua mãe, do que nos detalhes do assassinato.

Mersault é assim retratado como sendo um ser sem sentimentos, um monstro sem alma que merece morrer pelo seu crime. Meursault é então condenado a ser decapitado publicamente.

Mersault é colocado numa nova cela, o capelão da prisão acredita que ele pode escapar à sua pena e está disposto a ajudá-lo. Meursault diz-lhe que não acredita em Deus e nem sequer se interessa pelo assunto e reflecte sobre a “indiferença benigna do universo".

Há modos muito complexos e metafísicos de interpretar “O Estrangeiro”, contudo, nós preferimos interpretá-lo de um modo mais simples, assim como se fosse uma história infantil, com uma moral no fim.

De modo oposto ao seu personagem Mersault que era assim para o macambúzio é indiferente a tudo, Albert Camus, o autor, era uma pessoa alegre e bem-disposta e nada indiferente ao que se passava em seu redor, assim sendo, a moral da história é esta: se querem ser existencialistas e não perderem a cabeça e terem um Verão desastroso, mais vale serem como Camus ao invés de como o Mersault.

E pronto, assim terminamos este décimo segundo e penúltimo texto desta nossa série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, o último, é aguardar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Os professores vão fazer greve em 2023? Mas porquê? Pois se levam uma vida de bilionários e gozam à grande

  Aproxima-se a Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. A esse propósito, lembrámo-nos que serão pouquíssimos, os que, como os professores, gozam do privilégio de festejarem mais do que uma vez num mesmo ano civil, o Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. Com efeito, a larguíssima maioria da população, comemora o Fim de Ano exclusivamente a 31 de dezembro e o Ano Novo unicamente a 1 de janeiro. Contudo, a classe docente, goza também de um fim de ano algures no final do mês de julho, e de um Ano Novo para aí nos princípios de setembro.   Para os nossos leitores cuja agilidade mental eventualmente esteja toldada pelos tantos comes e bebes ingeridos na época natalícia, explicitamos que o fim do ano letivo é em julho e o início em setembro. É disso que aqui falamos, esclarecemos nós, para o caso dessa subtil alusão ter escapado a alguém.   Para além da classe docente, são poucos os que têm esta oportunidade, ou seja, a de ter múltiplas passagens de ano num só e mesmo ano...

Que bela vida a de professor

  Quem sendo professor já não ouviu a frase “Os professores estão sempre de férias”. É uma expressão recorrente e todos a dizem, seja o marido, o filho, a vizinha, o merceeiro ou a modista. Um professor inexperiente e em início de carreira, dar-se-á ao trabalho de explicar pacientemente aos seus interlocutores a diferença conceptual entre “férias” e “interrupção letiva”. Explicará que nas interrupções letivas há todo um outro trabalho, para além de dar aulas, que tem de ser feito: exames para vigiar e corrigir, elaborar relatórios, planear o ano seguinte, reuniões, avaliações e por aí afora. Se o professor for mais experiente, já sabe que toda e qualquer argumentação sobre este tema é inútil, pois que inevitavelmente o seu interlocutor tirará a seguinte conclusão : “Interrupção letiva?! Chamem-lhe o quiserem, são férias”. Não nos vamos agora dedicar a essa infrutífera polémica, o que queremos afirmar é o seguinte: os professores não necessitam de mais tempo desocupado, necessitam s...

Se a escola não mostrar imagens reais aos alunos, quem lhas mostrará?

  Que imagem é esta? O que nos diz? Num mundo em que incessantemente nos deparamos com milhares de imagens desnecessárias e irrelevantes, sejam as selfies da vizinha do segundo direito, sejam as da promoção do Black Friday de um espetacular berbequim, sejam as do Ronaldo a tirar uma pastilha elástica dos calções, o que podem ainda imagens como esta dizer-nos de relevante? Segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, no pré-escolar a idade média dos docentes é de 54 anos, no 1.º ciclo de 49 anos, no 2.º ciclo de 52 anos e no 3.º ciclo e secundário situa-se nos 51 anos. Feitas as contas, é quase tudo gente da mesma criação, vinda ao mundo ali entre os finais da década de 60 e os princípios da de 70. Por assim ser, é tudo gente que viveu a juventude entre os anos 80 e os 90 e assistiu a uma revolução no mundo da música. Foi precisamente nessa época que surgiu a MTV, acrónimo de Music Television. Com o aparecimento da MTV, a música deixou de ser apenas ouvida e pa...

Chove na alma de Portugal - Capítulo III

Continuamos hoje esta nossa série de textos dedicados à alma portuguesa, sendo que nos dias que correm, só há uma certeza, a de que chove, e muito. A lusitana nação pode ser tudo ou não ser nada, mas o que é certo, é o que nos últimos tempos está constantemente toda encharcada. Não é comum vivermos desta forma, nesta espécie de contínuo dilúvio, mas ainda assim, é possível entrevermos a alma portuguesa, mesmo com tanta e tão intensa chuva. Para tal, nada melhor do que falarmos da poesia nacional. Vejamos para começarmos, este breve poema de Nuno Júdice (1949-2024): Chove como sempre. E, sempre que chove, as pessoas abrigam-se (as que não estavam à espera que chovesse); ou abrem, simplesmente, o chapéu-de-chuva - de preferência com fecho automático. Porque, quando chove, todos temos de fazer alguma coisa: até nós, que estamos dentro de casa. Vão, uns, até à janela, comentando: "Que Inverno!" sentam-se, outros, com um papel à frente: e escrevem um poema, como este. Diga-se de p...

A alma de Portugal cheira a peixe - Capítulo IV e final

  Para terminarmos esta nossa série de textos dedicados à alma de Portugal, vamos ser simultaneamente peixeiros, poéticos e populares. Todavia, não o seremos necessariamente por esta ordem, ou seja, iremos efabular acerca desta tríade de assuntos, peixes, poemas e uma música popular, mas sem estabelecermos qualquer hierarquia entre esses três temas. Poder-se-ia bem dizer que temos um triângulo de temáticas, ou seja, uma figura geométrica com três lados iguais e os respectivos vértices onde cada uma das linhas se encontra com as restantes. Significa isto, entre outras coisas, que hoje nos vamos concentrar na poesia nacional, no peixe fresco e numa canção popular, uma trindade que a nosso ver, reflecte plenamente a alma portuguesa. Comecemos por um dos vértices do dito triângulo temático, a saber, o que une peixe e poesia. Bem sabemos que nesta nossa amada pátria, há quem seja muito intelectual e que, por consequência disso, não goste de misturar poesia com peixe. Para a fina intelec...

American Friends

  Há muito quem por cá, e também pelo resto da Europa, sofra de um complexo de superioridade relativamente aos Estados Unidos da América. É certo que nos últimos tempos se têm verificado na grande nação norte-americana, alguns acontecimentos mais inusitados, contudo, e ainda assim, há poucas razões para alguém no chamado velho continente, se sentir superior às gentes dos bons USA.   São muitos os exemplos que se poderiam apresentar, de como os EUA´s são superiores à Europa em quase tudo o que fazem, todavia, nós escolhemos ao dia de hoje, centrar a nossa atenção em apenas um desses aspectos, a saber, na estreita e íntima relação existente entre universidades e arte.   Só para iniciarmos a conversa, veja-se a imagem abaixo do   Weisman Art Museum, pertencente à Universidade do Minnesota.                     O edifício do museu da Universidade do Minnesota foi...

A propósito de “rankings”, lembram-se dos ABBA? Estavam sempre no Top One.

Os ABBA eram suecos e hoje vamos falar-vos da Suécia. Apetecia-nos tanto falar de “rankings” e de como e para quê a comunicação social os inventou há uma boa dúzia de anos. Apetecia-nos tanto comentar comentadores cujos títulos dos seus comentários são “Ranking das escolas reflete o fracasso total no ensino público”. Apetecia-nos tanto, mas mesmo tanto, dizer o quão tendenciosos são e a quem servem tais comentários e o tão equivocados que estão quem os faz. Apetecia-nos tanto, tanto, mas no entanto, não. Os “rankings” são um jogo a que não queremos jogar. É um jogo cujo resultado já está decidido à partida, muito antes sequer da primeira jogada. Os dados estão viciados e sabemos bem o quanto não vale a pena dizer nada sobre esse assunto, uma vez que desde há muito, que está tudo dito: “Les jeux sont faits”.   Na época em que a Inglaterra era repetidamente derrotada pela Alemanha, numa entrevista, pediram ao antigo jogador inglês Gary Lineker que desse uma definição de futebol...

Avaliação de Desempenho Docente: serão os professores uns eternos adolescentes?

  Há já algum tempo que os professores são uma das classes profissionais que mais recorre aos serviços de psicólogos e psiquiatras. Parece que agora, os adolescentes lhes fazem companhia. Aparentemente, uns por umas razões, outros por outras completamente diferentes, tanto os professores como os adolescentes, são atualmente dos melhores e mais assíduos clientes de psicólogos e psiquiatras.   Se quiserem saber o que pensam os técnicos e especialistas sobre o que se passa com os adolescentes, abaixo deixamos-vos dois links, um do jornal Público e outro do Expresso. Ambos nos parecem ser um bom ponto de partida para aprofundar o conhecimento sobre esse tema.   Quem porventura quiser antes saber o que pensamos nós, que não somos técnicos nem especialistas, nem nada que vagamente se assemelhe, pode ignorar os links e continuar a ler-nos. Não irão certamente aprender nada que se aproveite, mas pronto, a escolha é vossa. https://www.publico.pt/2022/09/29/p3/noticia/est...

Aos professores, exige-se o impossível: que tomem conta do elevador

Independentemente de todas as outras razões, estamos em crer que muito do mal-estar que presentemente assola a classe docente tem origem numa falácia. Uma falácia é como se designa um conjunto de argumentos e raciocínios que parecem válidos, mas que não o são.   De há uns anos para cá, instalou-se neste país uma falácia que tarda em desfazer-se. Esse nefasto equivoco nasceu quando alguém falaciosamente quis que se confundisse a escola pública com um elevador, mais concretamente, com um “elevador social”.   Aos professores da escola pública exige-se-lhes que sejam ascensoristas, quando não é essa a sua vocação, nem a sua missão. Eventualmente, os docentes podem até conseguir que alguns alunos levantem voo e se elevem até às altas esferas do conhecimento, mas fazê-los voar é uma coisa, fazê-los subir de elevador é outra.   É muito natural, que sinta um grande mal-estar, quem foi chamado a ensinar a voar e constate agora que se lhe pede outra coisa, ou seja, que faça...

Luzes, câmara, ação!

  Aqui vos deixamos algumas atividades desenvolvidas com alunos de 2° ano no sentido de promover uma educação cinematográfica. Queremos que aprendam a ver imagens e não tão-somente as consumam. https://padlet.com/asofiacvieira/q8unvcd74lsmbaag