Vamos hoje para o quarto texto desta nossa série estival, dedicada a estios catastróficos. Desta vez vamos até 1816, data que ficou para a história como o “Ano sem Verão”, pois os céus permaneceram cinzentos, o frio intenso e as chuvas fortes.
O Ano sem Verão foi resultado de um colapso climático global que eliminou a estação quente no Hemisfério Norte. O fenómeno foi causado pela erupção do Monte Tambora na Indonésia, em abril de 1815. A erupção lançou toneladas de poeiras, cinzas e dióxido de enxofre para a atmosfera, o que reduziu a temperatura global e criou uma névoa que bloqueou a luz solar.
Abaixo uma pintura de Caspar David Friedrich, que retrata esse desastroso Verão de 1816.
O célebre poeta inglês Lord Byron (1788-1824) andou uns dias por Sintra e ficou profundamente deslumbrado pela sua beleza mística. Baptizou-a como o “Éden Glorioso” e considerou-a “a mais bela vila do mundo”. Esta breve passagem marcou o início do Romantismo na literatura inglesa e imortalizou a região na cultura europeia.
A vinda de Byron a Sintra deu-se em 1809, esperar-se-ia que lá voltasse em anos posteriores, mas não, nunca mais lá pôs os pés. Ainda assim, Sintra deve-lhe a fama romântica que tem, pois caso Byron não tivesse passado por lá e escritos uns versos, certamente que muitos alimentícios e poéticos negócios locais nunca teriam existido.
Em 1816 Lord Byron convidou uns amigos para passar férias na sua casa de verão, que por acaso não era em Sintra, mas sim junto ao lago de Genebra, na Suíça, mesmo à beira dos Alpes.
Entre os ditos amigos, encontrava-se a escritora Mary Shelley (1797-1851) e o também escritor e igualmente médico, John William Polidori (1795-1821). Ao contrário do que eles previam, o Verão não foi solarengo nem propício a longos passeios pelas verdejantes montanhas em redor do lago. Muito pelo contrário, esteve sempre a chover, os dias foram cinzentos e o frio cortante. Foi efectivamente um Verão desastroso.
Obrigados a permanecer dentro de casa, os convidados de Byron decidiram então escrever contos de terror para se entreterem e passarem o tempo. Mary Shelley inventou nessa ocasião um personagem que ainda hoje conhecemos: Victor Frankenstein. Também nessa mesma ocasião, John William Polidori escreveu uma história na qual criou um ser fictício que viria a ter um grande futuro: o vampiro.
Sim, sem John William Polidori nunca saberíamos o que era um vampiro nem o Drácula teria existido, e sem Mary Shelley desconheceríamos o Frankenstein e todas as suas réplicas posteriores. Em síntese, o clima frio desse Verão teve uma influência decisiva na cultura e na invenção da literatura de terror.
Se porventura tem feito bom tempo nesse Verão de 1816 e nem o Frankenstein, nem os vampiros, tivessem sido inventados, muitos filmes não se teriam realizado, muitos livros ficariam por escrever e muitos sustos não teriam sido apanhados. Isto já para não falar das máscaras de carnaval, pois que sem vampiros nem Frankensteins, só havia matrafonas, cabeçudos e Homens-Aranha, o que não seria bem a mesma coisa.
Nós gostamos muito de vampiros e especialmente do Drácula que é uma criatura elegante e ainda para mais tem um belo castelo na Transilvânia, que a bem dizer, nos parece bem melhor do que o de Sintra, porém, vamos antes dedicarmo-nos ao Frankenstein.
Em boa verdade, Victor Frankenstein era o personagem principal do romance de terror escrito por Mary Shelley e publicado em 1818, só que ele não era um monstro, mas sim um cientista brilhante que descobriu o segredo para dar vida à matéria inanimada. Aparentemente usava a electricidade, que à época era uma descoberta recente e assustava muita gente.
Nesse tempo, os receios perante a electricidade, eram mais ou menos os mesmos que os de hoje perante a Inteligência Artificial.
Com o passar do tempo, as gentes acabaram por atribuir o nome do criador à criatura. Actualmente, quando a maioria das pessoas diz "Frankenstein", refere-se ao monstro gigante, com parafusos no pescoço e pele esverdeada, e não ao seu criador.
O ser que o cientista Victor Frankenstein construiu a partir de pedaços de cadáveres não tem nome no livro. É referido apenas como "a criatura", "o monstro" ou o “demónio”.
O verdadeiro significado da obra de Mary Shelley vai além do terror. O livro discute os perigos da ambição científica desmedida e as consequências da rejeição social. A criatura nasceu boa e inteligente, mas tornou-se um "monstro" vingativo após ser abandonada pelo seu criador e cruelmente rejeitada pela humanidade devido à sua inusitada aparência.
O facto é que a criatura à partida era um ser sensível e delicado, os outros é que o rejeitaram e assim o tornaram mau.
O título completo de livro de Mary Shelley é “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”. Prometeu é um antigo mito grego criado pelo poeta grego Hesíodo, que conta como foi dada por Zeus, a tarefa de criar homens e animais aos irmãos Prometeu e Epitemeu.
Epitemeu concedeu a força e robustez a animais de grande porte (como o urso ou o elefante) para a sua própria defesa. A velocidade e agilidade foram atribuídas a criaturas velozes (como o leopardo) para caçarem ou fugirem. Asas foram dadas a animais pequenos e vulneráveis para que pudessem escapar rapidamente aos predadores voando. Garras, presas e chifres foram fornecidas como armas físicas de proteção e ataque. Peles densas e carapaças foram entregues a certos animais para estes protegerem os seus corpos contra o frio intenso, o calor do sol e contra ataques de outras criaturas. Capacidades para viver em sítios subterrâneos foram outorgadas a espécies menores para conseguirem esconder-se debaixo da terra.
Posto isto, no momento da criação do homem, Epimeteu tinha gasto todos os dons, então o homem foi criado apenas com barro. O homem seria portanto um ser incompleto, nem teria asas, nem garras, nem carapaças, nem nada.
Compadecido com a fragilidade dos humanos, Prometeu, o irmão de Epimeteu, decidiu subir ao Monte Olimpo para roubar uma chama do fogo sagrado. Ele escondeu-a no caule oco de uma planta e entregou-a depois aos homens.
Tendo o fogo, os homens conseguiram superiorizar-se a todos os outros animais. No fundo, o fogo representa também a inteligência e o labor humano. Zeus, o rei dos deuses, ficou furioso ao ver que os homens tinham agora um poder que antes era exclusivo das divindades. Como punição pela sua insolência, Zeus ordenou que Prometeu fosse eternamente acorrentado a um rochedo no Monte Cáucaso.
Todavia, o castigo não se ficou por aí, todos os dias, uma grande águia voava até ao Monte Cáucaso para devorar o fígado de Prometeu. Como ele era um imortal, o seu fígado regenerava-se completamente durante a noite, fazendo com que o ciclo de tortura se repetisse infinitamente a cada novo dia.
O suplício de Prometeu durou centenas de anos (ou até 30 mil anos, dependendo da versão) até à chegada de Hércules. Durante a realização dos seus famosos doze trabalhos, o herói viajou até ao Cáucaso, matou a águia com uma flecha e quebrou as correntes que prendiam Prometeu.
Na mitologia grega, Prometeu molda os seres humanos a partir do barro e rouba o fogo dos deuses para lhes dar o conhecimento. Paralelamente, o cientista Victor Frankenstein junta pedaços de cadáveres e usa a eletricidade para dar vida à sua criatura.
Prometeu é acorrentado ao monte Cáucaso por Zeus, onde a águia devora o seu fígado todos os dias. Victor Frankenstein é condenado a um tormento psicológico e físico eterno, sendo perseguido pela sua própria criação e perdendo todos os que ama. Ambas as figuras representam o perigo da ambição desmedida, e os riscos de se tentar ultrapassar os limites impostos à humanidade.
Contudo, se existem efectivamente riscos e perigos, o facto é que na pesquisa e no progresso existem igualmente alegrias, descobertas e avanços, citemos Prometeu: “Ouvi, somente, quais eram os males humanos, e como de estúpidos que eram, eu os tornei inventivos e engenhosos.”
Sim, Prometeu não se resignou a que humanos fossem apenas aquilo que eram e não almejassem mais, sendo o mesmo o que se sucedeu com Victor Frankenstein, que fez a seguinte reflexão: “Quão perigosa é a aquisição do conhecimento e quão mais feliz é o homem que crê que a sua vila natal é o mundo, do que aquele que aspira tornar-se maior do que sua natureza permite.”
E pronto, assim terminamos este quarto texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.







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