Continuamos com a nossa série estival, dedicada a Verões desastrosos. Hoje, para este oitavo texto, o assunto é o livro “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena.
Estamos no Verão de 1936, o sítio é a Figueira da Foz, local à época surpreendido pela chegada de inúmeros refugiados fugidos da Guerra Civil de Espanha, que vieram agitar a apatia dessa tranquila cidade e confrontar as gentes com a realidade política da ditadura salazarista.
“Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando uma pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente comprimindo-se nas bilheteiras."
A história acompanha o jovem Jorge, um estudante lisboeta de boas famílias, que depois desse vertiginoso Verão nunca mais foi o mesmo. O que era para ser apenas um plácido período de férias, transformou-se numa tormentosa e agitada transição da juventude para a vida adulta, marcada por descobertas íntimas e por tensões externas.
Jorge, o protagonista, vive intensamente a irrupção da sua sexualidade adulta. O livro aborda abertamente experiências de sedução, de adultério e a quebra de tabus morais da época, contudo, não é só isso o que aqui nos vai interessar, mas sim e também a poesia. Abaixo uma foto do autor de “Sinais de Fogo”, Jorge de Sena.
Jorge fica de férias na casa do seu tio Justino, um "bon-vivant", que gosta de jogar às cartas no casino da Figueira. O tio queria ter seguido a carreira militar, mas não conseguiu. Algures no tempo teve um caso amoroso rocambolesco, coisa que o impediu de concretizar as suas ambições e que, mais do que isso, lhe deixou cicatrizes emocionais para o resto da vida.
Provavelmente por isso, o tio e a tia dormiam em quartos separados e Justino, quando lhe apetecia, ia de caminho até ao quarto da criada mais apetitosa ou mais disponível, para se entreter durante um bocado.
Como é evidente, a descoberta da sexualidade adulta pode causar algumas perplexidades, chatices, transtornos psico-emocionais e não só, e foi tudo isso que Jorge sentiu e descobriu. No entanto, muito mais perturbante do que isso, é uma pessoa assim de repente e como que vindo do nada, chegar ali à primeira adultícia e descobrir-se poeta.
Foi tal o que sucedeu a Jorge. Repare-se, o rapaz era estudante de Matemáticas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e lá andava muito sossegado da sua vida a fazer contas em pé, a debitar as tabuadas, a tirar a prova dos nove e a aprender fórmulas e equações, quando nisto, e subitamente, lhe surge um poema:
“Acendi um cigarro. Onde iria jantar? Não me apetecia comer. Apetecia-me fugir. Para onde e porquê? E, de repente, ouvi dentro da minha cabeça uma frase: «Sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas frias». Olhei em volta. De onde viera aquilo? Quem me dissera aquilo? Que sentido tinha aquela frase? Tentei repeti-la para mim mesmo: Sinais de fogo... Mas esquecera-me do resto. Com esforço, reconstituía a sequência: Sinais de fogo os homens se despedem, exaustos e espantados, quando a noite da morte desce fria sobre o mar. Não tinha sido aquilo. Não era aquilo. E que significava? Seriam versos? Repeti mentalmente: «Sinais de cinza os homens se despedem, lançando ao mar os barcos desta vida». Novamente as palavras eram outras, ou quase as mesmas mas diversamente.”
Abaixo mais uma foto de Jorge de Sena.
Não é de descrer que a súbita irrupção da poesia em Jorge, tenha algo a ver com uma moça que também andava pela Figueira da Foz durante esse Verão. Mercedes está prestes a casar-se com outro homem, de seu nome Ramos Almeida, todavia, isso não impede que Jorge desenvolva uma paixão avassaladora e nada platónica pela rapariga.
Jorge sente um desejo intenso e violento de possuir Mercedes fisicamente. Jorge não a vê como uma pessoa real, mas sim como uma imagem idealizada que lhe serve de espelho para as suas próprias inquietações e crises de identidade. Mercedes é descrita por Jorge como o arquétipo da “mulher fatal”, inacessível e destrutiva.
Através desta obsessiva paixão, Jorge transita da apatia adolescente para a agitada descoberta da sexualidade crua e das paixões adultas, uma passagem nada pacífica, mas que também faz com que o jovem descubra a sua veia poética.
Se a tranquila Figueira da Foz foi agitada pela vinda dos refugiados espanhóis, Jorge, o calmo estudante de Matemáticas, foi agitado pela visão de Mercedes.
A segunda vez que a poesia visita Jorge, aconteceu quando já ele estava a atravessar as suas inúmeras aventuras, nesse seu Verão na Figueira da Foz. A verdade é que Jorge não é nem jamais poderá vir a ser o mesmo rapaz que estudava Matemáticas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Como a crisálida que se metamorfoseia em borboleta, também ele passou a um diferente estado do seu desenvolvimento. Nesta segunda vez em que a poesia lhe aparece, já não a sente como uma enorme estranheza, mas sim como qualquer coisa de íntimo, como algo que lhe é compreensível e intrínseco.
“Foi quando li palavras que não sentira ter escrito, num papel que não sabia
ter procurado. «Sinais de fogo os homens se despedem, exaustos e
tranquilos, destas cinzas frias, lançando ao mar os barcos de outra vida».
Fiquei olhando para o papel em que as linhas ondulavam de precipitadamente escritas. Mas não me demorava a lê-las, na intenção de compreendê-las. Para mim eram perfeitamente compreensíveis, independentemente do que diziam.”
Na terceira vez, já é Jorge quem visita a poesia: “Procurei no bolso o papel que não encontrei. Queria escrever, tinha de escrever. Mas, ao enfiar a mão no bolso da caneta, senti humidade. Estava quebrada, e os dedos voltaram-me cheios de tinta. Nada tinha importância: rasgado, sujo de tinta, eu tinha de arranjar com que escrever. Enquanto não escrevesse, não saberia que escrever, e portanto não podia escrever
apenas mentalmente. Dando voltas ao papel que se me furava contra a carteira, escrevi: Sinais de fogo, os homens se despedem/ exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.”
Apesar de Jorge ter criado na sua mente uma imagem de Mercedes como sendo ela uma “mulher fatal” e inacessível, ele alcança-a, mas só para mais tarde definitivamente a perder.
Da quarta vez que lhe surge um poema, Jorge escreve-o sentindo “a serenidade de quem está seguro de que as vozes lhe falam e não vão calar-se”, sendo que esse poema nos fala da perda de Mercedes para sempre, e simultaneamente de como ela eternamente permanecerá com ele:
“Quanto de ti amor. Me possui no abraço
Em que de penetrar-te me senti perdido
No ter-te para sempre-
Quanto de Ter-te me possui em tudo
O que eu deseje ou veja não pensando em ti
No abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
Sem olhos e sem boca, só expressão dorida
De quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
Na pura perda de possuir-te em vão
De amor que nos traiu-
Quanta traição existe de possuir-se a gente
Sem conhecer que o corpo não conhece
Mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
Senão o encontro eterno que nenhuma imagem
Jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
Esse momento que nos mata para
Quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
Como na ausência indestrutível que
Nos faz ser um no outro-
Quanto de vida consumimos pura
No horror e na miséria de, possuindo, sermos
A terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti,
por ti, e para ti,
Recebo gratamente como se recebe
Não a morte ou a vida, mas a descoberta
De nada haver onde um de nós não esteja”
Uma vez o Verão acabado, Mercedes parte para o Porto e Jorge diz-lhe: "Sabes... a gente conheceu-se cedo de mais, ou tarde de mais". Regressado a Lisboa, Jorge já não sabe bem onde está: "Depois, deitado na cama, sentia-me a arder. Não me sentia, porém, doente, nem sabia que estava vivo ou morto, nem isso tinha importância. Mesmo o dizer que eu 'estava' não é exacto, porque na suspensão de ser, que era a minha, o 'estar' não tinha sentido algum."
O final da história funciona como um "irónico fim de férias", onde a inocência juvenil foi desfeita. O jovem Jorge despediu-se da Figueira da Foz plenamente transformado e consciente que o seu destino era o de ser poeta, que como se sabe, é uma actividade fatalmente desastrosa, tal como o terá sido esse Verão.
E pronto, assim terminamos este oitavo texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.





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