Vamos hoje para o quinto texto desta nossa série estival, dedicada a Verões malfadados. The French Riviera, o luminoso Mediterrâneo pela frente, um tempo quente por diante, cocktails ao entardecer, luxo, sofisticação e festas com gente bela e interessante, e no entanto, tudo acaba de forma completamente desastrosa.
Dick Diver era um jovem brilhante e um muito promissor psiquiatra norte-americano. Trabalhava numa clínica na Suíça e foi aí que conheceu Nicole Warren, rapariga oriunda de uma abastada família de capitalistas norte-americanos. Nicole tem severos problemas psicológicos e devido aos seus recorrentes colapsos mentais, foi internada na clínica psiquiátrica de elite na Suíça, onde Dick Diver exercia.
Nicole desenvolve uma forte fixação romântica por Dick, vendo nele o seu salvador. Apesar de todos os avisos e conselhos que lhe são dados, Dick apaixona-se por Nicole, ele quer mesmo salvá-la. Casam-se e Dick assume o duplo papel de marido e de médico.
O casal muda-se para a luxuosa Riviera Francesa, onde lidera um círculo social vibrante, magnético e invejável, constituído sobretudo por norte-americanos com abundantes fortunas e muito tempo livre.
É este o início da história de “Terna é a noite”, romance de 1934 da autoria F. Scott Fitzgerald.
Foi assim, que numa clínica suíça nasceu uma paixão entre um médico e a sua paciente, e que mesmo não tendo os personagens consciência disso, estava desde o início condenada a ser uma eterna relação nesses mesmos exactos termos, ou seja, um homem que cuida da sua esposa.
Muitas vezes Dick não sabe como agir e vive num constante dilema entre a sua função de médico e o seu papel enquanto marido. Deixando de se saber definir perante Nicole, deixa também de se saber definir a si próprio, Dick olha-se ao espelho e acaba por já não saber quem é.
Dick era um homem que acreditava poder ter tudo, mas rapidamente descobre que não se sente feliz com nada do que efectivamente tem. É um insatisfeito e acaba por se consolar com vagos romances e breves paixonetas e, sobretudo, com o álcool.
O fracasso emocional é acompanhado pelo insucesso profissional, e nós, os leitores de “Terna é a noite”, sentimos a decadência de Nick como uma inevitabilidade, como se ao ter casado com Nicole, a sua vida só pudesse estar destinada a tomar um nefasto rumo.
Tudo se precipita quando o casal conhece Rosemary Hoyt, uma jovem e promissora atriz norte-americana, de férias de Verão com a mãe na French Riviera. Rosemary apaixona-se profundamente por Dick, abalando assim a já de si frágil estabilidade conjunta de Nick e Nicole.
Rosemary apaixona-se por Dick, mas é igualmente uma amiga sincera de Nicole. Dick primeiramente brinca com a ideia de ter um affair com Rosemary, porém, tal nunca chega a acontecer, ou melhor, sucede apenas anos depois e na América, num tempo em que Dick e Nicole já há muito se tinham separado.
Apesar das festas e do glamour, Rosemary sabe que há algo de errado com o casal. A história complica-se ainda mais quando um outro personagem, Jules Peterson, é assassinado e aparece morto na cama de hotel de Rosemary.
Tal situação poderia destruir a reputação e a carreira da jovem atriz, por isso Dick envolve-se no assunto e remove o cadáver da cama de Rosemary para encobrir qualquer especulação jornalística ou outra, que a relacionasse com Peterson.
Com tudo isto Dick entra em conflitos com a polícia, provoca inúmeros incidentes e escândalos e mergulha ainda mais no alcoolismo, perdendo totalmente qualquer foco.
Assim se consumou o declínio de Dick Diver, o brilhante psiquiatra que sacrificou a sua identidade, carreira e sanidade em prol da rica herdeira Nicole Warren. A trajectória descendente de Dick reflete com perfeição a luz que se esvai ao pôr do sol, uma vitalidade brilhante e magnética vai-se lentamente transformando numa completa obscuridade.
F. Scott Fitzgerald estruturou o seu romance “Terna é a noite”, usando as transições da luz solar para metaforicamente assinalar a lenta decadência de Dick. No início do romance, Dick é um personagem semelhante a um deus.
À medida que Dick mergulha no álcool e na contínua transgressão dos limites, inicia-se também o seu pôr do sol, o crepúsculo de um deus. A luz vibrante e dourada que ele personificava começa a esvair-se, dando então lugar a profundas e severas sombras e a uma crescente escuridão.
"Tu costumavas criar e agora só destróis" é o que Nicole diz a Dick. Enquanto Dick se foi afundando na decadência, Nicole encontrou a sua força. Ela absorveu a vitalidade de Dick e curou-se do seu trauma original, deixando de precisar dele como seu médico e marido.
Nicole liberta-se do vínculo de dependência com Dick e inicia um romance com Tommy Barban, um rapaz rico das redondezas. Consciente de que cumpriu o seu papel e de que foi consumido pela relação, Dick concede-lhe o divórcio e regressa às pequenas cidades da América onde tenta humildemente ganhar a vida.
Baby Warren, o multimilionário pai de Nicole, ao saber do triste destino de Dick, afirma que sempre o viu como um parasita, e observa que ao cuidar e curar a sua filha não fez nada de especial pois “foi para isso que ele foi educado."
F. Scott Fitzgerald disse um dia o seguinte “I like France, where everybody thinks he’s Napoleon — down here everybody thinks he’s Christ.”
Fitzgerald usa a analogia para diferenciar a Europa e especificamente a França, da América. Em França as pessoas são movidas pela ambição, pelo ego e pelos seus delírios de grandeza, na América há muito quem tenha o complexo de salvador e o desejo de carregar às costas as dores dos outros e do mundo.
Dick Divers era um desses personagens com o complexo de Salvador, e como tal assim cumpriu o seu destino e carregou pela vida fora a sua cruz, não salvou nem redimiu a humanidade nem sequer uma mínima parte dela, salvou sim uma rica herdeira, que daí para a frente viveu feliz e contente.
E pronto, assim terminamos este quinto texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.





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