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As mais desastrosas histórias de Verão (O Inverno em Lisboa)

 

Terminamos hoje esta nossa série de Agosto dedicada a Verões desastrosos. É certo que a larga maioria das pessoas gosta de passar pelo menos uns quinze dias de férias, numa qualquer estância balnear, a banhos de sol e mar.


Porém, por vezes, uma mera quinzena é mais do que o suficiente para dar cabo da vida de uma pessoa e a transformar num autêntico desastre. Foi isso o que sucedeu com Santiago Biralbo, que para que tal lhe acontecesse, nem sequer precisou de sair da sua terra natal, a sofisticada San Sebastían, uma das mais elegantes cidades balneares de Espanha inteira e até da Europa. Já lá iremos a esse assunto.


Neste décimo terceiro texto e último texto, centramos-nos no romance “O Inverno em Lisboa (1987) do excelente escritor espanhol, Antonio Muñoz Molina.


Sendo esta nossa série dedicada ao Verão, nada melhor que findarmos de forma coerente, com uma história cujo Inverno consta logo no título. Mais do que isso, o título refere também Lisboa, que é um sítio donde os locais fogem durante a época estival, mais não seja para se irem refrescar e banhar às praias da Linha, de Sintra ou da Caparica e onde por consequência disso, nada sucede durante o mês de Agosto.


Em resumo, “O Inverno em Lisboa” é o título perfeito para encerrarmos este nosso conjunto de textos de Agosto, “As mais desastrosas histórias de Verão”.



O Verão em “O Inverno em Lisboa” funciona como um intróito dourado e nostálgico onde surge a chama da paixão, isto antes de a trama mergulhar numa perigosa perseguição e na escuridão do Inverno lisboeta.


É na cidade de San Sebastián, no norte de Espanha, no País Basco, durante o Verão, que nasce um romance entre o pianista de jazz Santiago Biralbo e Lucrecia. Tudo se inicia no bar Lady Bird.


O narrador e os próprios personagens, recordam ao longo da narrativa esse Verão como um tempo quente de indolentes entardeceres, de céus de cores cálidas e de longas e tranquilas noites. Tudo perfeito.


Santiago Biralbo é de facto um talentoso pianista de jazz, no entanto, descuida-se e apaixona-se por Lucrecia, uma frequentadora regular do bar Lady Bird, onde o homem toca piano.


Tudo estaria muito bem, não se desse o caso de Lucrecia ser casada com Bruce Malcolm, um perigoso traficante de arte de nacionalidade norte-americana. Ainda assim, Biralbo e Lucrecia apaixonam-se profundamente e vivem um romance clandestino pleno de sentimento e paixão, e claro, de sol, praia e música jazz.


Todavia, em dado momento, dá-se um misterioso desaparecimento, a saber, um valioso quadro de Paul Cézanne. Em boa verdade, a explicação para o sumiço do Cézanne é simples.


Bruce Malcolm, o traficante de arte, percebeu que Lucrecia o traia. Movido pelos ciúmes e bastante enfurecido, de forma violenta, Bruce arranca Lucrecia dos braços de Biralbo e leva-a à força para Berlim.


Lucrecia fica muito contrariada e decide vingar-se, estragando os negócios do marido e roubando uma valiosa tela do pintor Cézanne, que estava na posse de Bruce e dos seus criminosos sócios.


Lucrecia consegue regressar a San Sebastián e entrega a dita tela de Cézanne aos cuidados do Bilardo. Ao ver-se perseguido e envolvido no perigoso submundo do contrabando, Biralbo para se proteger é obrigado a adoptar uma identidade falsa, passando então a chamar-se Giacomo Dolphin.


Assim sendo, e dado o perigo iminente, Biralbo e Lucrecia são constrangidos a fugir e a separar-se. É um Biralbo melancólico e abstido, o que se refugia em Lisboa, onde a atmosfera escura e invernosa da cidade, como que espelha a sua separação e o seu triste destino.


Mas antes de irmos para Lisboa, lancemos um último olhar a San Sebastián e ao Verão que ficou para trás. Abaixo aqui fica uma imagem dessa estival cidade basca e da sua linda baía.



A rotina de Biralbo na capital portuguesa divide-se entre hotéis baratos, cigarros, álcool e a atmosfera chuvosa e sombria desse Inverno lisboeta. Uns bons tempos mais tarde, dá-se o reencontro dos dois amantes, que acontece numa Lisboa marcada por uma forte atmosfera de film noir.


“Tinha imaginado uma cidade tão enevoada como San Sebastián ou Paris. Ficou surpreendido com a transparência do ar, a exactidão do cor-de-rosa e do ocre nas fachadas das casas, a uniforme cor avermelhada dos telhados, a estática luz dourada que perdurava nas colinas da cidade com um esplendor de chuva recente. Da janela do seu quarto, num hotel de corredores sombrios onde toda a gente falava em voz baixa, via uma praça de janelas iguais e o perfil da estátua de um rei a cavalo que enfaticamente apontava para o Sul. Comprovou que, quando lhe falavam depressa, o português era tão indecifrável como o sueco. E também que os outros o compreendiam facilmente a ele…”


Enfim, é uma cena clássica, nós, os portugueses, entendemos perfeitamente os espanhóis, eles, pelo contrário, não percebem nada do que dizemos.



É em Lisboa que a paixão fulgurante de um Verão passado é reatada, mas agora rodeada por fantasmas e ameaças bem reais, num cenário de clandestinidade, nostalgia e de grande perigo.


O reencontro dos amantes é bruscamente interrompido pela perseguição de Bruce Malcolm, o perigoso marido de Lucrecia que aporta a Lisboa. Após várias peripécias, a tensão culmina num confronto físico violento dentro de um comboio nocturno, onde Biralbo acaba por matar Bruce, ainda que em legítima defesa.


Mesmo tendo sido em legítima defesa, por portas travessas, esse homicídio acaba por transformar Biralbo num fugitivo da justiça. O homem é forçado pelas circunstâncias a fugir de Lisboa e a refugiar-se em Madrid. Adopta definitivamente o nome de Giacomo Dolphin e com o tempo lá vai tentando reconstruir a sua vida como pianista de jazz, tocando num clube nocturno chamado Metropolitano.


Lucrecia, o grande amor de Santiago Biralbo, desapareceu para sempre da sua vida, sem que ele tenha a menor notícia do seu destino. A paixão obsessiva e o romance clandestino que despertaram a fúria do marido dela, assim como o envolvimento com traficantes de arte, acabaram por ter consequências desastrosas para Biralbo, que ficou completamente sozinho, despojado do amor e longe da sua terra, sendo a música jazz o seu único refúgio.


O que ainda não dissemos, é que o romance clandestino entre Biralbo e Lucrecia decorreu tão-somente numa quinzena, esses simples quinze dias de Verão em San Sebastián, foram suficientes para um desenlace desastroso, que marcou o resto da vida dos envolvidos.


O narrador de toda esta história, é um amigo de Biralbo que ele encontrou anos mais tarde no bar de Madrid, onde ao piano tocava jazz. No livro “O Inverno em Lisboa” é o narrador quem nos relata, a nós leitores, este infeliz destino de Biralbo e Lucrecia, que resultou duma mera quinzena de veraneio.


E pronto, assim terminamos este décimo terceiro e último texto desta nossa série “As mais desastrosas histórias de Verão”, um outro não haverá, quem quiser que se entretenha com os anteriores...

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