Continuamos hoje com esta nossa série estival dedicada a Verões desastrosos. Neste décimo primeiro texto, centramos-nos no romance “Villa Triste”, obra de 1975, do escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2014, Patrick Modiano.
Há muito quem se ponha a recordar antigas férias de Verão. Há muito quem queira reviver outros tempos estivais e deles se lembre com carinho e saudade. Há também quem no presente, pretenda descobrir um sentido e significado nalgum Verão distante, no entanto, todas essas tarefas são em essência inúteis, pois o passado não pode ser decifrado ou recuperado e dele restam-nos apenas vagas impressões, meras ilusões e incertos reflexos.
Em síntese, a nossa memória, por afinada que seja, é sempre um desastre.
Num poema de Ruy Belo, diz-se a determinado momento o seguinte: “É triste no outono concluir que era o verão a única estação”. Este verso poderia muito bem sintetizar o livro “Villa Triste”, pois nesse romance, o período estival é vivido como se fosse um tempo fora do tempo, ou seja, único, no fundo uma breve temporada envolta numa espécie de cápsula, isolada do transcorrer habitual das horas, dias, meses e anos.
Tudo sucede numa pequena cidade francesa junto a um lago, muito perto da fronteira com a Suíça. Embora a cidade nunca seja efectivamente nomeada, é amplamente reconhecível como sendo Annecy.
O enredo decorre no início dos anos 60, em plena Guerra de Independência da Argélia, que era então uma colónia francesa. Um jovem de 18 anos chamado Victor Chmara foge de Paris para evitar ser mobilizado para a guerra, instala-se em Annecy, pois a Suíça está mesmo ao lado e ser-lhe-á bastante fácil atravessar a fronteira e pôr-se a salvo caso tal seja necessário.
Em boa verdade, o dito jovem não se chama realmente Victor Chmara, esse foi um nome que ele inventou para esconder a sua identidade. O protagonista dá-nos ao longo da narrativa diferentes versões sobre as suas origens e passado, mantendo a sua efectiva identidade oculta ao longo de toda a história.
Victor apresenta-se a todos como sendo conde, coisa que não é, o que dele sabemos é que quer fugir à guerra e que tem posses suficientes para passar confortavelmente a temporada estival em Annecy, tendo os altos Alpes como cenário envolvente.
A história é-nos narrada em modo de analepse (flashback), com Victor a recordar aquele seu Verão em Annecy, cerca de uma década mais tarde.
Victor Chmara isola-se deliberadamente do mundo e não quer ouvir nem ler notícias para fugir à realidade, nomeadamente, à da Guerra da Argélia. Ele decidiu fundir-se com o ambiente circundante e esquecer-se de si e do seu tempo, tem com objectivo explicíto “Ne s’intéresser qu’aux choses anodines: la mode, la littérature, le cinéma, le music-hall.”
Ao fingir ser um conde em férias de Verão numa tranquila cidade francesa perto da fronteira suíça, Victor tenta escapar ao mundo, a si próprio e à sua época, preferindo assim viver numa espécie de bolha intemporal.
No entanto, há um momento em que lhe aparece pela frente uma moça, de seu nome Yvone Jacquet. Trata-se de uma jovem aspirante a actriz, por quem Victor vagamente se apaixona, e que anda sempre acompanhada pelo seu elegante e lânguido cão, um dogue alemão.
Não raras vezes, diz-se no romance que o cão de Yvone sofre de “la mélancolie portugaise”, pois pertence a uma raça dogue, que apesar de garbosa, é frequentemente acossada por uma profunda preguiça, por um eterno cansaço e por agudo um tédio de viver.
O cão passeia a sua despreocupação, desinteresse e o seu ar “nonchalante” por Annency, tal e qual como as gentes já de uma certa idade, que escolhem a tranquila cidade para passarem as suas férias de Verão.
Na verdade, Yvone e Victor são praticamente os únicos jovens das redondezas, pois quase todos os restantes personagens, são seres cujo maior esplendor pertence ao passado.
Yvone tem 22 anos, vive num hotel de luxo chamado “The Hermitage” e adoptou o nome artístico de Yvone Carlton. É ela quem introduz o nosso protagonista, o Victor, no ambiente antigo e decadente de jantares e festas nocturnas da chamada alta sociedade estival de Annecy.
O Verão de Victor e Yvone em “Villa Triste” não é sinónimo de alegria e divertimento, mas sim de um modo de estar antiquado, de isolamento e de uma fuga para a frente. Os personagens vivem numa espécie de cápsula dourada em que o tempo se vai escoando em festas, em passeios à beira do lago e em cafés de hotéis, sem que quase se dê pela sua passagem.
“Que faisais-je à dix-huit ans au bord de ce lac, dans cette station thermale reputée? Rien.” Efectivamente em Annecy, Victor nada faz. Patrick Modiano, o autor do romance, apresenta-nos uma descrição perfeita desse nada, do vazio dessa existência em que o tempo se gasta exclusivamente entre caminhadas por um boulevard fantasmagórico, devaneios diante de um copo de vinho do Porto e em folhear revistas de generalidades numa esplanada.
A única coisa que sucede a Victor em Annecy é encontrar Yvone, todavia, nem isso é realmente um acontecimento. Victor conheceu Yvonne através do Dr. René Meinthe, um outro personagem que anda de veraneio deambulante pela cidade.
A atracção é imediata e Victor acaba por deixar a sua pensão para se mudar para junto de Yvone, para o hotel “The Hermitage”. Juntamente com Meinthe, mergulham num quotidiano de festas, de luxo e, sobretudo, de apatia.
Com o decorrer da história, Victor e Yvone falam em casamento e consideram-se noivos. Porém, a sua relação é superficial e não baseada em qualquer espécie de real densidade emocional. Baseia-se sim mais no silêncio e num contínuo desfilar de actividades de entretenimento.
Tal como começou, a relação desfaz-se subitamente. Yvonne desaparece sem deixar rasto, deixando Victor abandonado com as suas interrogações e memórias. O romance é, na verdade, o olhar nostálgico e melancólico de Victor, doze anos mais tarde, a tentar reconstruir e compreender esse Verão fantasmagórico do seu passado.
O Verão representa em “Villa Triste” um parênteses no tempo, onde as personagens vivem sob identidades teatrais para escapar ao peso da realidade. O narrador, Victor, reconstrói esses eventos estivais mais de uma década depois, contudo, chega à inevitável conclusão de que o seu passado não pode ser decifrado ou recuperado, restam-lhe apenas vagas impressões, meras ilusões e incertos reflexos desses dias de Annecy. Em resumo, conclui que a memória é sempre desastrosa.
E pronto, assim terminamos este décimo primeiro texto desta nossa série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve um outro haverá, é aguardar.





Interessante. Gostei muito.
ResponderEliminar