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A mulher ideal portuguesa, uma perspectiva histórica-cultural



Nós gostámos muito de saber, que na nossa amada pátria, nasceu neste Verão, o movimento Mulheres Conservadoras Portugal. Gostámos tanto, que ontem dedicámos um texto a esse assunto, e vamos dedicar-lhe um outro. No entanto, hoje vamos analisar o tema de um ponto de vista histórico-cultural.

Um entretenimento bastante fascinante é ir verificar o que se queria das mulheres em tempos idos, nuns mais conservadores do que os actuais. Por exemplo, entre 1966 e 1973 houve um concurso intitulado “A Mulher Ideal Portuguesa”, que nos serve muito bem para esse efeito.

O dito concurso não se focava na beleza ou na aparência física das mulheres, não havia cá desfiles em fato de banho e coisas desse género. A iniciativa avaliava sim as competências domésticas, a elegância e as capacidades intelectuais das concorrentes. Neste certame tanto podiam participar senhoras solteiras como casadas, isto desde que fossem portuguesas.

Vendo as quais provas do concurso, percebemos imediatamente as quais características que teria de possuir a mulher ideal portuguesa. A primeira prova consistia em confeccionar um prato tradicional, não uma pizza ou um hambúrguer, mas sim algo como um cozido com enchidos ou uma feijoada à transmontana.

Num segundo momento, as candidatas teriam de elaborar bebidas para eventos sociais, tipo sangrias, sumos, cocktail’s ou isso. Depois, as concorrentes teriam de demonstrar as suas noções de estética, aplicando-as à decoração e à arrumação do lar. Tinham ainda de apresentar trabalhos como bordados, rendilhados, malhas e tricot, tanto feitos à mão como à máquina, e por fim, havia testes de conhecimentos para aferir o nível de instrução das senhoras aspirantes a vencerem o concurso “A Mulher Ideal Portuguesa”.

Abaixo uma foto do chefe de estado da época, no momento em que recebe uma das grandes vencedoras do concurso “A Mulher Ideal Portuguesa”. Veja-se como a campeã cruza castamente as pernas, traja discretamente e denota toda uma pose humilde, sóbria e respeitadora.


Nós não queremos desmerecer “A Mulher Ideal Portuguesa” dessa época, mas quando olhamos para a senhora vencedora e a comparamos com a dama que nesses mesmos tempos para muitos no mundo era considerada a mulher ideal, a saber, a Ava Gardner, ficamos com a sensação de que estamos perante concepções ideais muito distintas.

E não pense quem nos lê, que a Ava Gardner não tinha outras qualidades para além das óbvias, quanto à confecção de um prato típico, e a bordados e rendilhados não sabemos, mas cremos que a moça era muito arrumada, e que certamente passaria com distinção no teste para elaborar cocktail’s, bem como no para aferir os conhecimentos e o nível de instrução das concorrentes no concurso “A Mulher Ideal Portuguesa”.

Com efeito, Ava era uma moça muito dada às artes e letras, por exemplo, o grande escritor norte-americano Ernest Hemingway era bastante seu amigo e admirava-a muito, tendo dela dito que era “a única mulher que conseguia beber mais do que ele e continuar impecável.”


Nesses tempos mais conservadores do que os actuais, a mulher ideal portuguesa era um tema sério e bastante debatido. Para além do já referido concurso, era também frequente que jornais e revistas abordassem o assunto.

Num artigo jornalístico dessa época (imagem abaixo), temos mais umas quantas indicações de como seria a mulher ideal nacional. Por exemplo, a mulher deveria saber confecionar um bom jantar, mas deveria também abster-se de falar com o marido acerca de assuntos tão prosaicos como o preço da carne, do peixe ou das batatas. Deveria igualmente abster-se de chatear o seu homem com conversas a propósito das lides domésticas.

Uma outra característica da mulher ideal nacional, era a de ser capaz de deixar o seu esposo ler o jornal em paz e sossego, e não ficar amuada por ele não lhe dar atenção. Entre outras qualidades, a mulher ideal não devia ser inquisitória, fazendo perguntas do tipo onde estiveste, a que horas e com quem, não devia ser desconfiada, devia ser pontual e não fazer o marido estar à espera, devia ser poupada nos gastos e devia também olhar para a sogra como se esta fosse sua mãe.


Como é evidente, acrescente-se a tudo o que já foi dito, que a mulher ideal portuguesa, deveria inevitavelmente ser mãe. Sem isso poderia ser a melhor cozinheira do mundo, fazer bons cocktail’s, bordar maravilhosamente e ter a casa limpa e arrumada, mas faltava-lhe o essencial.

Por consequência disso, nesses tempos mais conservadores do que os actuais, também havia artigos em jornais e revistas com bons conselhos para as senhoras mães saberem como bem cuidar dos seus rebentos.

Em boa verdade, havia até uma organização oficial, a “Obra das Mães para a Educação Nacional”, que entre muitas outras coisas, se dedicava a publicar uns livrinhos com bons conselhos para todas as mães.


Nós desfolhámos o livrinho e de facto encontrámos lá bons conselhos, excelentes mesmo. Dito isto, encontrámos também uns quantos, dos quais não duvidamos da excelência, mas que nos deixaram algo perplexos.

Por exemplo, nesses tempos mais conservadores do que os actuais, a “Obra das Mães para a Educação Nacional”, aconselhava as mães deste país a não fazerem rir os seus filhos.

Bem sabemos que na lusitana nação há ditados populares como “conhece-se o tolo pelo muito riso" e “muito riso, pouco siso", facto que por si só revela, que os portugueses nunca viram com bons olhos o riso, todavia, sabendo nós agora, que outrora existiu tal prática educativa, não nos admira que ainda ao dia de hoje, haja muito quem ande sempre com cara de caso ou com semblante de que todos lhe devem e ninguém lhe paga.



Um outro bom conselho que encontrámos no livrinho da “Obra das Mães para a Educação Nacional”, mas nos deixou também um pouco perplexos, foi o de evitar festas, romarias e outros ajuntamentos por causa das doenças.

É certo que quanto maior o número de pessoas juntas, maior probabilidade estatística haverá de algum eventual contágio, contudo, daí a desaconselhar-se por completo convívios mais alargados e festas, vai uma grande distância.

Mas feitas as contas, nessa época ainda não havia um Sistema Nacional de Saúde, Portugal registava uma das mais altas taxas de mortalidade infantil da Europa, sendo portanto pouco todo e qualquer cuidado. Assim sendo, talvez a “Obra das Mães para a Educação Nacional” tivesse razão, e o melhor seria as crianças não andarem em folias, pândegas e festanças.


É muito engraçado saber, o que organizações femininas à época tão influentes como a “Obra das Mães para a Educação Nacional”, apoiavam e advogavam. Por exemplo, apoiavam e advogam que em todos os manuais escolares de leitura se lesse a seguinte frase: “Na família, o chefe é o pai; na escola, o chefe é o mestre; na igreja o chefe é o padre: na Nação, o chefe é o governo.”

Muito embora nesses tempos mais conservadores do que os actuais, não se visse com bons olhos que as mulheres tivessem uma actividade profissional ou que opinassem ou se imiscuíssem em questões sociais, ainda assim, abria-se uma excepção relativamente a temas educativos.

Uma mulher que fosse para professora primária era tolerada, porque a escola era vista como uma extensão natural da maternidade e do cuidado doméstico. Ainda assim, o Ministério da Educação da época proibiu as professoras de usarem maquilhagem e indumentária não adequada, e as docentes só podiam casar com autorização expressa do ministro, concedida apenas desde que o noivo demonstrasse ter um bom comportamento moral e civil, um vencimento satisfatório e decentes meios de subsistência.

Aqui chegados, cremos que já temos uma panorâmica histórica-cultural bastante adequada, do que se queria das mulheres portuguesas em tempos mais conservadores do que os actuais. 

Posto isto, damos por findo este nosso recente interesse no movimento Mulheres Conservadoras Portugal, a quem dedicámos os nossos dois últimos textos.

Para terminarmos, aqui fica uma imagem com mulheres de outra época, que não seriam certamente conservadoras, provavelmente não saberiam preparar um prato típico, uma sangria ou uma limonada, nem sequer se dedicariam muito às lides domésticas, a bordados e a rendilhados, tudo razões pelas quais, jamais seriam eleitas vencedoras do concurso “A Mulher Ideal Portuguesa”.


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