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Eles olham para a direita, e PISA, PISA, eles olham para a esquerda, e PISA, PISA…


Ora bem, saíram na passada semana os resultados do PISA 2025 e foram maus, sendo que, os inteligentes cá do burgo vieram imediatamente a terreiro nas televisões e jornais, para nos explicar as causas do sucedido.


Os ditos inteligentes da nossa amada pátria, apesar de debitarem sobre tudo e mais alguma coisa, raramente têm uma visão alargada sobre qualquer assunto. Por consequência disso, os inteligentes de serviço nos diversos órgãos de comunicação social não conseguem ver mais longe do que a sua própria paróquia, sendo sempre nela que procuram as razões para tudo o que acontece ou deixa de acontecer.


Para quem eventualmente não saiba, o PISA é um estudo internacional desenvolvido pela OCDE, cujo objectivo é medir o conhecimento e as competências dos estudantes de 15 anos de idade para resolver desafios do mundo real, avaliando se estão preparados para a vida quotidiana e para uma participação plena na sociedade.


Consoante os anos, e para além das competências na leitura, na matemática e em ciências, o PISA também avalia competências como por exemplo o pensamento criativo, a literacia financeira ou a aprendizagem no mundo digital.


O último estudo, que avaliou o período decorrido entre 2022 e 2025, contou com a participação de 760.000 alunos, oriundos de 90 países distintos. Portugal ocupa a 28.ª posição no ranking global.

Os alunos portugueses situaram-se na média da OCDE, não sendo os resultados nacionais significativamente diferentes dos alcançados pela Bélgica, Lituânia, Alemanha, Países Baixos, Suécia, Eslovénia, França, Itália, Hungria, Dinamarca ou Espanha.


O que o relatório PISA 2025 revela é um declínio geral, no qual tanto as nações no fundo do ranking como várias das maiores potências económicas mundiais registaram os seus piores resultados de sempre.


Vamos a alguns exemplos, a Alemanha teve o seu pior resultado de sempre nas três áreas avaliadas. matemática, leitura e ciências. A França obteve mínimos históricos no desempenho geral dos alunos de 15 anos. A Espanha teve igualmente os piores resultados de sempre. A Dinamarca e a Noruega tiveram das maiores quedas directas de pontuação face a anos anteriores. A Suécia e Croácia também registaram quedas nunca vistas. Portugal registou os seus piores resultados de sempre nas competências de matemática e de leitura.


Perante este cenário, os jornais cá da terra logo se apressaram a publicar títulos sobre a catástrofe educativa nacional e, logo em seguida, vieram então os inevitáveis articulistas e comentadores do costume (os tais inteligentes), explicar-nos o que está mal nos currículos escolares portugueses e o que se deve fazer para que tudo fique bem.


O que nós podemos dizer acerca disso, é que essa inteligente gente não sabe interpretar o que lê, já veremos porquê.


Mas não foram apenas os articulistas e comentadores a apontar baterias contra os actuais currículos escolares, alguns “especialistas” também vieram à praça pública dizer de sua justiça. Por exemplo, um tal Professor João Marôco, que se apresenta no seu currículo como especialista em Estatística e Métodos de Investigação, escreveu um artigo no semanário Expresso intitulado “PISA 2025 - A primeira prova às aprendizagens essenciais”.


Independentemente da eventual correcta análise estatística que o senhor Professor João Marôco faça dos dados resultantes do PISA 2025, o que ele de alguma forma ignora, é que os maus resultados não são exclusivamente portugueses, não são só cá da paróquia. Por assim ser, as principais causas para esses péssimos resultados não serão somente nacionais, mas sim e necessariamente internacionais.


Vejamos a primeira página de um grande jornal francês e europeu, o “Le Monde”. O título chama a atenção para a enorme queda dos resultados dos alunos franceses nos testes PISA 2025, contudo, logo nessa mesma primeira página, na coluna à esquerda, enquadra esses resultados no contexto dos países da OCDE, temos ainda um editorial que nos fala de um alerta global, na coluna da direita anuncia-se um artigo sobre a correlação entre as redes sociais e as aprendizagens escolares, e por fim, mais abaixo, divulga-se um plano de investimento em educação no montante de 4 biliões de euros.

Em Portugal, pelo menos num certo jornalismo e na maior parte do pessoal do comentariado, a visão é sempre parcial, tendenciosa e paroquial. No jornal Observador diz-se assim: “Os piores resultados de sempre a Português e Matemática, uma queda geral nas aprendizagens e competências que não pode ser disfarçada com as quedas também verificadas noutros países.”


O que o jornal Observador quer à força fazer, é encontrar causas exclusivamente nacionais, ou seja, cá da nossa terra, para um problema que é global. E tanto o quer fazer, que logo no início no artigo nos dá a resposta: “Os PISA 2025 trouxeram resultados preocupantes para a comunidade escolar. Isto é consequência das mudanças nas políticas de Educação desde 2016 e dos governos da geringonça. Mas ainda haverá solução?”


Ora bem, a imprensa internacional, e o próprio relatório PISA 2025, indicam-nos claramente algumas das causas para este descalabro educativo global, a saber, o impacto prolongado dos confinamentos e do ensino à distância durante a pandemia, um desinvestimento estrutural na recuperação eficaz das aprendizagens, o efeito da digitalização desenfreada, o uso excessivo de telemóveis e a exposição precoce às redes sociais.


Mas depois de apontar as causas gerais, o relatório PISA 2025 aponta também causas específicas, ainda que não exclusivas, relativas a Portugal. Vejamos quais:


O relatório revela um cenário crítico em Portugal, onde apenas 12,9% das escolas não têm falta de professores. Portugal sofre de forma muito mais severa com a carência de docentes do que a maior parte dos países da OCDE.

O relatório indica que a falta de funcionários e pessoal auxiliar também fragilizou o funcionamento e a organização interna diária das escolas.

A transição digital no ensino e na vida privada dos jovens tem uma forte correlação com a perda de competências cognitivas, especialmente na leitura. Analistas da OCDE apontam uma ligação directa entre a queda acentuada na leitura e o uso massivo e desregulado que em Portugal se faz de ecrãs e redes sociais.

Portugal demonstrou um desinvestimento estrutural nas políticas de recuperação pós-confinamento. O plano de recuperação de aprendizagens não foi suficiente para compensar o tempo de escola perdido.

O relatório aponta um aumento de comportamentos que quebram o ritmo lectivo, expondo um maior número de atrasos dos alunos às aulas e menor pontualidade geral.

Registou-se uma diminuição do suporte e acompanhamento directo dos encarregados de educação no estudo diário dos alunos fora da escola.


Lido o relatório, conhecidas as causas gerais que são transversais a todos os países e também as que são especificamente nacionais, constata-se que em sítio algum se refere as aprendizagens essenciais ou as mudanças nas políticas de Educação desde 2016, como sendo as causas dos maus resultados nos testes PISA 2025.


Dito isto, onde terão jornalistas, especialistas, articulistas e comentadores ido buscar tal ideia?


Sabe-se lá, aquilo é gente tão inteligente, tão sabedora de tudo e mais alguma coisa, que tanta erudição só pode ter origem nalgum fenómeno paranormal. A nossa hipótese é que tenham consultado uma cartomante e que ela tenha entrevisto num baralho de cartas as razões para a queda dos resultados de Portugal nos testes PISA 2025.



Olhemos agora para o nosso país vizinho, Espanha, onde jornalistas, especialistas, articulistas e comentadores estudam seriamente os assuntos, ao invés de como uns quantos portugueses basearem as suas opiniões em iluminações paranormais.


Atentemos no maior e mais lido jornal de Espanha, o El Pais. Ao longo da última semana, após se ter tido conhecimento dos resultados do PISA 2025, o diário espanhol publicou uma série de artigos onde se tenta perceber, as razões pelas quais, os alunos do país vizinho tiveram tão maus resultados.


Vejamos alguns dos títulos e sínteses desses artigos, e percebamos como aqui ao lado se fez uma análise bem mais séria e ampla dos resultados:


“A vertigem do PISA e os limites da escola. O recente relatório evidencia as dificuldades da educação em contrapor-se aos males da sociedade.”


“O PISA e a sociedade pós-letrada. Os relatórios publicados têm algo em comum: não há como resolver os problemas sem o envolvimento de todos.”


“O analista-chefe do Relatório PISA: a IA proporciona aos alunos uma experiência oposta à aprendizagem. Tue Halgreen alerta para o menor apoio que os pais dão aos filhos, para a falta de professores e para a importância de recuperar a competência de leitura após o duro golpe sofrido pela educação em Espanha.”


“O saber já não ocupa lugar. Em Espanha, o avanço da ignorância é marcado pela pontificado de especialistas e políticos.”


“Os chumbados. Não quero eximir os alunos, mas sim ampliar a culpa: eles são filhos do seu tempo, construído e fomentado por adultos.”


“Alunos mais ricos têm uma queda de desempenho duas vezes maior que a dos mais pobres na língua e em matemática. Estudantes de classe alta lideram a perda de desempenho educacional em todo o mundo desenvolvido.”


“As causas do colapso educacional no PISA: os alunos não leem, estão menos dispostos a esforçar-se e crescem com o telemóvel. A OCDE alerta para o aumento da complexidade nas salas de aula, problemas de disciplina e uma baixa persistência diante de tarefas difíceis.”


Aqui chegados, é fácil de perceber que ao contrário de em Portugal, e tal como em França, também em Espanha ninguém se pôs a inventar causas que não existem para explicar os péssimos resultados do PISA 2025, o mesmo é dizer, concentraram-se nas efectivas causas e não noutras que nada explicam.


O facto é que as coisas estão a correr mal por todo o lado, seja na vizinha Espanha, seja na mais longínqua e outrora rígida, eficaz e rigorosa Alemanha.



Mas vejamos mais algumas conclusões do relatório, relativamente a Portugal. Por cá não se verificaram diferenças nos desempenhos médios entre rapazes e raparigas, tal como também não houve diferença entre os resultados dos alunos que frequentam escolas públicas e os que frequentam escolas privadas.


O acompanhamento familiar diminuiu de forma significativa. Em 2025, 53% dos alunos afirmaram que falavam com os pais sobre a escola pelo menos uma vez por semana, uma baixa percentual acentuada face aos 69% que diziam o mesmo em 2022.


Caiu igualmente a percentagem dos alunos que dizem ser questionados pelos pais ao menos uma vez por semana, sobre o que fizeram na escola, tendo passado de 84% para 73%.


Mais de metade dos alunos portugueses, ou seja 56%, diz ter chegado atrasado à escola pelo menos uma vez nas duas semanas anteriores.


Estas conclusões relativas a Portugal, que constam do relatório PISA 2025, são bem elucidativas de que talvez as causas dos problemas educativos nacionais não estejam na verdade nos currículos escolares ou nas políticas educativas, mas sim, e por exemplo, no desinteresse que muitos encarregados de educação têm pelo percurso académico dos seus educandos.


Para terminarmos, queremos ainda informar os inteligentes da nossa praça, esses que pululam por jornais e TV’s, que o PISA não avalia propriamente a memorização e a reprodução dos conhecimentos previamente adquiridos pelos alunos, avalia sim as suas capacidades para aplicar e relacionar conhecimentos e competências em contextos do quotidiano, tanto dentro, como fora do contexto escolar.


O que isto significa, é que os problemas de uma parte significativa dos alunos, quer doutros países, quer de Portugal, não se resolvem com mais memorização e posterior reprodução em testes e exames do que anteriormente decoraram, mas sim com outras práticas pedagógicas mais eficazes e inovadoras. Fica a ideia.

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