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Neste Outono não há só folhas a cair e roupas quentes a sair do armário, há também angústias existenciais, poéticas metafísicas e muito mais


Por todo o Portugal, dantes como agora, há nesta época crianças na escola a redigir textos acerca do Outono. Não é muito difícil saber o que escreverão, tal como outrora as redações não hão de ser muito diferentes disto:

“O outono é a estação do ano que se segue ao verão e que prepara a natureza para a chegada do inverno. Em Portugal, esta estação começa no mês de setembro. É uma época bonita em que a paisagem muda completamente e ganha novas cores.
Com a chegada do outono, os dias começam a ficar mais curtos e as noites mais longas. O calor desaparece e o vento começa a soprar. As árvores de folha caduca perdem o seu manto verde e cobrem-se de tons castanhos, amarelos e dourados. Quando o vento sopra, as folhas soltam-se dos ramos e caem no chão, formando um tapete fofinho e colorido que dá vontade de pisar. 
O tempo torna-se mais fresco e a chuva miudinha volta a aparecer, o que nos obriga a tirar os casacos e os guarda-chuvas do armário. Além disso, o outono é a época de colher frutos como as maçãs, as peras, as romãs e as uvas. A minha tradição favorita é o Magusto no dia de São Martinho, onde comemos castanhas assadas bem quentinhas.”

E pronto, estamos em crer que com esta redação não haverá nenhuma criança, que não obtenha um Excelente pela sua magnífica composição escrita, e que não seja igualmente muito bem avaliada no que se refere à sua criatividade.

Em síntese, outrora como agora, a conversa é sempre a mesma, a única diferença é que actualmente setembro, verão, inverno e outono oficialmente já não se escrevem com letra maiúscula, mas sim com minúscula.

Mas dito isto, neste nosso presente texto, vamos falar de um outro Outono que não o das redações escolares, a saber, o de artistas e poetas. Abaixo “Outono no Sena”, obra de 1873 da autoria do pintor francês Claude Monet.


E eis que uma vez findado o Verão nos chega então um outro Outono, ao qual se seguirá mais um Inverno e depois uma nova Primavera. Assim tem sido desde o início dos tempos e provavelmente assim continuará a ser pelos anos vindouros, mesmo que haja quem muito tema o advento de grandes alterações climáticas.

Já Luís Vaz de Camões nos falava deste contínuo e repetitivo decorrer do tempo, o mesmo é dizer, desta permanente e recorrente sucessão das estações:

Lei é da Natureza
Mudar-se desta sorte o tempo leve:
Suceder à beleza
Da Primavera, o fruto; à calma, a neve;
E tornar outra vez, por certo fio,
Outono, Inverno, Primavera, Estio.

Nós não apreciamos nem calores extremos, nem rigorosos frios, e caso estivesse em nossas mãos regular o universo, seria para sempre Outono e não havia mais conversa. Mas em boa verdade, o que é na realidade o Outono?

Bem sabemos que é a estação do ano que sucede o quente Verão e que antecede o gélido Inverno, mas o que é mesmo o Outono, para além de ser esse ponto intermédio entre o gracioso Estio e o aconchego da invernia?

Em tempos também o poeta Herberto Hélder levantou num verso essa mesma questão, mas deixou-a sem resposta, ou então a resposta já estava dada ainda antes de ter sido feita a pergunta:

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?

Abaixo “Quatro Árvores”, obra de 1917 da autoria do artista austríaco Egon Schiele.


Não será despropositado afirmarmos que o Outono é uma estação do ano envolta numa suave e leve melancolia. Chega uma vez passados os desvairados júbilos, risos e regozijos de Verão, e vem antes da pesada prostração, frieza e tristeza que traz o Inverno.

Significa isto, que de modo oposto ao do Verão e ao do Inverno, onde para o bem e para o mal tudo é muito intenso, o Outono é por definição uma estação dada a sentimentos amenos, delicados e brandos, envoltos numa ténue atmosfera melancólica.

Toda a gente conhecerá a expressão “Amor de Verão”, que se refere a um romance intenso, espontâneo e passageiro que acontece durante a estação quente. Regra geral, o amor de Verão era algo que acontecia na adolescência ou na juventude, e que normalmente tinha data marcada para acabar, sendo essa o final das férias.

Já a expressão “Amor de Outono” não tem nem de perto nem de longe, a mesma popularidade da anterior, isto porque a estação outonal é por definição mais meditativa e pensativa, e portanto nada própria para paixões intensas e impulsivas.

Na realidade, o Outono é uma estação filosófica, pois ao contrário do que sucede noutras épocas do ano, as pessoas são nessa estação mais dadas a porem-se a meditar, a matutar e a pensar.

Pensemos nós num poema de José Miguel Silva, “Part-Time”, que neste preciso contexto é um autêntico poema de Outono.

O sujeito lírico é um rapaz que trabalhava numa loja em part-time e por lá ficava horas na esperança de ver a sua amada. Ele esperava que ela lhe fizesse perguntas profundas e existenciais, contudo, com o passar do tempo, foi-se apercebendo que a moça só se lhe falava de assuntos fúteis, como por exemplo, astrologia e as vestes da moda para o próximo Outono.

Consequentemente, o rapaz pôs-se a meditar, a matutar e a pensar, e fazendo-o logo descobriu que a intensidade dos seus sentimentos diminuiu consideravelmente, tendo ele acabado por concluir que a rapariga afinal era estúpida.

Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.

Abaixo “Autumn Rhythm”, obra de 1950 da autoria de Jackson Pollock.


Sim, apesar do Outono ser uma estação suave e melancólica, ainda assim não deixa de causar algumas exacerbações e arrelias. Com efeito, o Outono provoca por vezes um certo azedume, porque não despe só as árvores, põe também a nu muitas ilusões.

Sim, quando as gentes no Outono se põem a meditar, a matutar e a pensar, há delírios e miragens que se desfazem, e como é evidente, desapontamentos e desencantos originam sempre algum mau humor.

O rapaz do poema “Part-Time” transtornou-se quando de um modo muito outonal se pôs a pensar e a meditar. Fazendo-o, apercebeu-se do contraste entre a sua ilusória expectativa romântica, mais própria de um intenso e impulsivo amor de Verão, e a real superficialidade da rapariga por si amada.

Um outro poeta contemporâneo português, Daniel Jonas, não se decepcionou e arreliou com alguém em específico, irou-se sim, nem mais nem menos, com o próprio Outono.

No seu poema ‘Opacidade”, o Outono é descrito como um tempo que impõe a "sua ferrugem" a tudo. O poeta associa a estação a "dobradiças" e a "parafusos zonzos", transformando o corpo humano e a natureza num "velho armazém de ferragens" em clara deterioração.

As árvores perdem a sua beleza e são comparadas a "furgonetas com seus toldos esvoaçantes". O ranger dos ramos representa a "grande dor da mudança", evidenciando que a passagem do Verão para o Outono é desconfortável e agressiva.

Ao invés de paisagens bucólicas, o poeta evoca imagens urbanas e caóticas, comparando as copas das árvores a um "enleio de fios" (como uma "instalação eléctrica pública de Calcutá") ou a uma "betoneira regurgitando". O céu surge "puído", como se fosse um mero casaco velho e gasto.

O poema termina com o sujeito lírico a perceber o erro de tomar os seus próprios olhos "por um aterro". Significando isso, a sua recusa em acumular passivamente no seu olhar os detritos, a fealdade e o peso da outonal decadência das coisas que o rodeiam.

Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.

E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.

Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.

Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!

Abaixo “Boulevard Montmartre”, obra de 1897” da autoria de Camille Pissarro.


Mas se Daniel Jonas se revolta contra o Outono, o poeta Rui Lage vai mais longe e indigna-se contra todas as estações do ano, e mais concretamente com o facto de elas continuamente se sucederem umas às outras.

No seu poema “Moral da História”, Rui Lage fala-nos da vida humana como uma encenação ingénua diante dos contínuos ciclos da natureza. Os versos iniciais referem que deixamos passar as estações do ano e "fazemos de conta que lhes sobrevivemos". O autor ironiza a crença humana de que o tempo passa por nós, quando de facto somos nós que passamos por ele..

Actividades como "passear de mãos dadas, ter filhos e casar" são apresentadas como vãs tentativas de criar uma sensação de ordem e segurança face ao infinito desconhecido.

Tendemos a encarar a passagem do tempo como uma "inofensiva e reversível sucessão", mas o que Rui Lage faz no seu é poema é colocar-nos diante da ironia de estarmos vivos, confrontando a pequenez das nossas rotinas com a imensidão do cosmos e dos ciclos naturais.

Deixamos passar o outono, o inverno,
a primavera, o verão,
e fazemos de conta que lhes sobrevivemos
como se tudo não passasse
de inofensiva e reversível
sucessão.

Passeamos de mãos dadas,
temos filhos e casamos,
pedimos a reforma,
partilhamos o gelado na praia
junto à rebentação,
apertamos o casaco na gola
quando as folhas se deitam,
pisamos papoilas em caminhos
de aldeias abandonadas,
olhamos a água no tanque
quando levamos o cão à rua
de madrugada,
e dizemos: é isto a vida, é isto
o real
(e assim nos enganamos)
como meninos
livres para brincar junto do poço
enquanto a mãe não está a olhar
ou fala ao telefone,
ou prepara o almoço.

Abaixo “O Jardim do Hospital de São Paulo”, obra de 1888” da autoria de Vincent van Gogh.


Aqui chegados, cremos já estar muito longe do vulgar Outono simplesmente constituído por folhas que caem e roupas quentes que saem dos armários. Mas mesmo assim sendo, não queremos terminar sem apresentarmos mais um poema, este de Ana Luísa Amaral, intitulado “Uma botânica da paz: visitação”.

Este poema é bastante feliz, pois ao contrário dos anteriores fala-nos de paz e de um Outono calmo e tranquilo. O sujeito lírico começa por notar uma flor desconhecida na sua varanda. O nascimento desta flor e das suas folhas "minúsculas e leves" gera um “verde assombramento”, um espanto perante a força contida em tal fragilidade.

A pequena planta vive alheia às misérias humanas (bombas, mísseis) e às fúrias da própria natureza (tornados). Ela ignora o "sal em desavesso que o mar traz", as amarguras ou agitações do mundo, focando-se tão-somente em existir.

No poema, a "visitação" é o aparecimento de uma flor e das suas folhas verdes na varanda, transformando esse espaço num momento de revelação e transcendência. Para a flor, como na verdade para nós, a felicidade resume-se a coisas tão simples como “o céu azul de Outono a fingir Verão”.

Tenho uma flor
de que não sei o nome
 
Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima
 
Mas esses são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves
 
Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz
 
E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água
que lhe dou
 
Deve ser isto
uma espécie da paz:
 
um segredo botânico
de luz

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