Assim à partida, e para quem esteja mais desprevenido,
imaginar alguém que tenha simultaneamente uma alma cómica e também uma poética,
implica uma conjugação de dois factores aparentemente divergentes. Por
consequência disso, alguém cómico e poeta ao mesmo tempo, é coisa que poucos
imaginam.
Com efeito, aos espíritos poéticos atribuem-se-lhes
características distintas, daquelas que normalmente se atribuem aos espíritos
mais dados à comédia. Façamos um exercício mental, imagine-se um qualquer jovem
moço, sensível, condoído e dado à poesia, e logo de seguida, imagine-se um
rapazola muito dado a piadas, anedotas e graçolas.
Feito o exercício imaginativo, muito provavelmente, os
dois mancebos imaginados serão pouco ou nada semelhantes, e efectivamente muito
diferentes um do outro. Todavia, imagine-se uma conjugação de ambos os rapazes
num só, ou seja, alguém dado a alarves jocosidades, a relativamente finas
ironias e a desagradáveis sarcasmos, mas igualmente e concomitantemente, dado a
melancólicos versos, a bucólicos devaneios espirituais e a filosóficas
rimas.
Bem sabemos que é difícil imaginar alguém que num
minuto se saia com uma qualquer burlesca atoarda, e que, pouco tempo depois, se
saia com expressões plenas de delicadeza, sensibilidade e sentimento, contudo,
é desses improváveis personagens, que aqui vos estamos hoje a falar.
Mesmo que neles possam não acreditar, a verdade é que existem por aí, e não serão assim tão poucos quanto isso, seres humanos coincidentemente dados ao humorismo e à poesia.
Falemos de Filipa Leal, uma senhora nascida no Porto
no ano de 1975, que escreveu uma tese académica dedicada ao cómico na poesia
portuguesa. Repare-se, a Filipa andou durante um longo período a estudar e a
investigar poetas cómicos. Ou seja, com tantas coisas que podia fazer na vida, que
podia estudar ou investigar, não se lembrou de nada melhor para fazer, do que
escrever acerca de poetas cómicos portugueses.
Nós não vamos aqui tecer considerações sobre a escolha
temática da senhora, e muito menos as teceremos sobre os eventuais méritos ou
deméritos académicos da sua tese, porém, vamos sim afirmar, que se a Filipa
Leal decidiu dedicar-se a tal assunto, é porque também ela, é uma dessas almas
que oscila entre o cómico o poético. Uma coisa é certa, ela para além de
teses académicas, escreve também poemas.
Cremos ter toda a razão, ao afirmarmos que Filipa Leal
tem uma alma poética e cómica. Para provarmos que assim é, invocamos em favor
do nosso ponto, o título do seu próximo livro, “Amor chega em breve num
Volkswagen”, e invocamos ainda alguns títulos de poemas escritos pela senhora,
como por exemplo, “Camões era amigo da minha mãe” ou “A vida era simpática
quando fazíamos testes de inglês”.
A vida era
simpática quando fazíamos testes
de inglês, e
nos esquecíamos do livro na mota
e acabávamos
por ir para as explicações
fazer exames
e mais exames dos anos anteriores,
e pedir ajuda
para interpretar o “The Great
Gatsby”
e o nó na
garganta portuguesa.
É claro que os títulos de livros e de poemas de Filipa
Leal, não são de nos rirmos à gargalhada, no entanto, deles se desprende uma
espécie de existencialismo jocoso.
Tanto quanto sabemos, não existe nenhum movimento
poético ou filosófico, que se designe por existencialismo jocoso, mas se não
existe, a partir deste momento, passa a existir.
Por assim ser, o existencialismo jocoso adquirirá a
dignidade própria de tudo o que se escreve com letra maiúscula, e também ganhará
o prestígio que dá um hífen, passa então a ser o Existencialismo-Jocoso.
O Existencialismo-Jocoso, conceito poético e
filosófico acabado de ser inventado, caracteriza-se fundamentalmente por graças
levemente amargas, do tipo de quem está vagamente desiludido com a existência.
Quero isto dizer, que se caracteriza não por piadas parvas ou óbvias, mas sim
por jocosidades mais ou menos sofisticadas, acerca da finitude da vida humana e
do tempo que vai passando.
Por exemplo, todos sabemos que envelhecemos e nos
transformamos, aos quarenta anos de idade, e até aos trinta, já não somos quem
éramos aos quinze. Pior do que isso, já não queremos ser os adolescentes de
antes, não desejamos as mesmas coisas, e nem sequer admiramos quem outrora
admirávamos. Nesse contexto, o de uma vaga desilusão com a vida e com a
passagem do tempo, aqui fica um poema Existencial-Jocoso de Filipa Leal:
Os nossos
heróis da adolescência mudam tanto.
Enchem-se de
caracóis e de suplícios.
Morre-lhes o
gato,
prostituem-se,
não chegam a ser advogados (ainda bem).
O pior é que
alguns deixam de ler e de beber.
Aumentam o
ego e a barriga, não sabem estar sozinhos.
Já nem sequer
tentam parecer interessantes.
Vão ao
supermercado comprar ovos e massa
e se passam
na praia ao fim da tarde, não se descalçam,
para não encherem os pés, e os carros, de areia.
Cremos que o poema acima, é perfeitamente explícito
acerca do que é o Existencialismo-Jocoso, esse conceito poético-filosófico que
acabámos de inventar.
Se realmente, e mesmo que necessário, seja um pouco
ridículo ir ao supermercado comprar ovos e massa, e também o seja deixar de ler
e de beber, ainda assim, há algo de melancólico, de outonal e poético em tudo
isso.
A melancolia e a poesia advêm, de num tempo anterior, provavelmente
no de adolescentes, jamais nos passar pela cabeça ir ao supermercado para
comprar ovos e massa, ou deixar de ler e de beber. No entanto, e
mesmo que na vida adulta dediquemos parte significativa do tempo a actividades
meramente úteis, um tanto ou quanto prosaicas e até risíveis, ainda assim, lá
nos recônditos das nossas almas, há um adolescente poético e romântico que
resiste.
Imaginemos um adulto maduro, sentado no sofá ao
entardecer a ler o jornal, ou mais pela hora de jantar, a assistir ao
telejornal. Sim, antigamente, quando éramos bem mais jovens, românticos e
poéticos, julgaríamos que tais formas de passar o tempo eram ridículas e
inclusivamente risíveis, mas agora, já mais velhos, queremos estar informados e
saber as notícias.
Ler e ver notícias, não é de facto uma coisa cómica,
própria de gente cansada, já sem um pingo de juventude ou poesia na alma?
Vejamos um poema de Filipa Leal, a propósito das
notícias:
Eu nunca
gostei muito de notícias.
Sou
jornalista mas nunca gostei de dar notícias,
e gosto cada
vez menos de as receber.
Tenho medo de
notícias.
Tenho medo de
ver o telejornal
e tenho medo
quando o telefone toca
para me darem
notícias boas ou más
porque nunca
sei se serão boas ou más
até que
alguém acabe de me as dar.
E tu, que
quando eu acordo já leste
todos os
jornais do mundo;
tu, que
quando acordas já sabes
sobre mim
coisas como não ser capaz
de atender
telefonemas;
tu aturas
isto tudo (eu, os media, a humanidade)
como se isto
fosse natural.
Tu és a
melhor notícia
que darei na
minha vida.
Para não te
perder, acho que era capaz de ser
telefonista
no The Guardian, ou no El Pais
Não menos risível, é quando gente já adulta lhe dá
para a ginástica, mas não pelo prazer poético de se mexerem como no tempo em
que eram jovens, mas sim por uma qualquer suposta obrigação social e também
porque lhes faz bem à saúde física e mental.
Mas não menos cómico é a quantidade de acessórios
existentes à venda nas lojas da especialidade para tal efeito. Acessórios que
não se destinam tão-somente a gente que queira caminhar, correr e saltar, mas
sim para quem queira praticar “walking”,
“running” ou “jumping”. A esse
propósito vejamos um excerto de um poema de Filipa Leal:
Fui às
Amoreiras comprar umas sapatilhas.
Eles
garantiam-me que “a placa de nylon com infusão de carbono a todo o comprimento
conferia uma sensação propulsora”,
eles
garantiam-me que “a sola intermédia em espuma leve
proporcionava amortecimento extremamente reativo”,
eles
garantiram-me que “a parte superior reforçada com flywire
oferecia velocidade segura”.
Não esperava tanto de umas sapatilhas azuis, feitas no Vietnã,
mas tinha
aprendido a lição: aos 38 anos, já não era com poemas
que
resolveria a minha vida.
Querida mãe, numa sexta-feira, 13, comecei a correr.
Quanto a notícias e
ginástica, estamos conversados, falemos ainda de Paris. Para os mais incautos,
a capital gaulesa é uma espécie de cliché romântico ou poético, um símbolo de
ousadia e de aventura.
O sector turístico
aproveita-se dessa fama da cidade e assim a publicita, tendo essa publicidade
muito eco em gerações já mais velhas, que viajam para Paris em busca da
juventude perdida e da intrepidez de outros tempos. Como seria de prever, o
resultado final da viagem traduz-se numa vaga desilusão e num leve
descontentamento.
Mas claro, que por vezes não
há sequer verbas para se ir para Paris, portanto, sonha-se com Guimarães, que é
mais perto. No entanto, em determinadas ocasiões, nem sequer a Guimarães se
pode ir. Talvez se possa beber uma cerveja, de preferência a uma quinta-feira,
como acontece num poema de Filipa Leal:
É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for
muito caro - sei que isto não está fácil podemos ir a Guimarães assistir a um
concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à quinta-feira.
A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego,
e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.
Vem à quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso
profissional sabes que isto não está fácil talvez nos dê hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.
Vem à quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
--- viajar de autocaravana,
--- dançar na Estrada Nacional,
--- ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da- Índia, as
fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube
como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor
--- Ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.
Terminamos com um último
poema de Filipa Leal, e também este, como todos os restantes que aqui
apresentámos, se insere no conceito do Existencialismo-Jocoso. Com efeito, neste último poema,
ao romantismo de escrever versos, a autora contrapõe uma caldeirada de raia:
No Vale
formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando
cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo
de conta que aprecio
a natureza.
No Vale
formoso, vou aprendendo o caminho
para o
mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.
No Vale
formoso, vou escrevendo versos,
consciente
porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma
caldeirada de raia
do que com o
poema.




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