Bem sabemos que as actuais notícias são confusas, e bem mais o serão, para todos os que não possuem vastos conhecimentos acerca da geografia alemã.
No entanto, é precisamente para isso que este blog existe, ou seja, para deslindar as notícias e também para expandir a sapiência geográfica e não só, de quem atentamente nos lê.
Nas últimas semanas, a Saxónia tem andado nas bocas do mundo, pois segundo se diz, houve um partido de extrema-direita com inclinações nazis, que venceu as eleições regionais nesse estado germânico. Só que não.
Houve realmente um partido de extrema-direita que venceu as eleições, mas sim na Saxónia-Anhalt, que é um estado artificial, criado após a Segunda Guerra Mundial e recriado em 1990, aquando da unificação da Alemanha. Já a verdadeira Saxónia e o ancestral povo saxão existem desde a longínqua época romana.
A Saxónia propriamente dita, tem praticamente o dobro da população da Saxónia-Anhalt, ou seja, para cima de quatro milhões de habitantes. Tem também uma forte identidade histórico-cultural, muito ligada ao antigo Reino da Saxónia e à dinastia Wettin, que governou a região, a partir da cidade de Dresden, durante vários séculos. Tudo isto em contraste com a Saxónia-Anhalt, que é uma criação, por assim dizer, de escritório, o mesmo é dizer político-administrativa.
Ao contrário da forte tendência de crescimento no leste da Alemanha, o já referido partido de extrema-direita, costuma registar os seus resultados mais fracos e abaixo da média regional na cidade de Dresden.
Dresden é um polo cultural, científico e económico de grande relevo na Alemanha, um local onde as gentes tendem a votar de forma liberal ou progressista. Prova disso, é que manifestações e iniciativas de oposição à extrema-direita e de defesa das instituições democráticas são frequentes nas mais emblemáticas praças do centro da cidade Dresden.
Abaixo uma pintura de 1750, de Bernardo Belloto, na qual vemos representada a mais importante praça da capital da Saxónia, a bela Dresden.
Sim, hoje falaremos de Dresden, cidade da qual muito há a dizer. Comecemos por dizer que Dresden foi o epicentro criativo do pintor romântico alemão Caspar David Friedrich, que viveu e trabalhou nessa cidade durante mais de quarenta anos.
Foi a partir daí que Caspar David Freiderich (1774-1840) transformou para sempre a pintura de paisagem, ao traduzir os seus passeios pelos bosques da Saxónia em obras-primas intemporais. Dele se disse ter descoberto "a tragédia da paisagem”, pois construiu uma narrativa pictórica inédita, em que “poetizava” como nunca antes a natureza.
Em certo sentido, Caspar David Friedrich inventou a natureza tal como hoje a vemos e sentimos. Antes dele, a natureza na arte servia maioritariamente como mero pano de fundo para cenas históricas, mitológicas ou religiosas, e assim era vista e sentida. David Friedrich inverteu este conceito, transformou a natureza no tema principal das suas obras e num espelho da alma humana.
Segundo as suas próprias palavras, "o artista devia não só pintar aquilo que vê diante de si, mas também o que vê dentro de si", por consequência disso, a natureza deixou de ser vista e sentida como tão-somente uma espécie de cenário, e transfigurou-se num autêntico reflexo da psique humana.
As suas caminhadas a pé pelas paisagens próximas de Dresden, como por exemplo, às montanhas areniscas do Rio Elba, inspiraram obras icónicas como O Viajante sobre o Mar de Nevoeiro.
Um outro importante artista ligado a Dresden é Ernst Ludwig Kirchner (1880–1938). Foi em Dresden que Kirchner se formou, desenvolveu a sua identidade artística rebelde e fundou o revolucionário e expressionista grupo artístico Die Brücke.
Kirchner partilhava com os membros desse grupo a mesma insatisfação com a arte académica e com a rigidez da sociedade burguesa da época. Kirchner cunhou em madeira o famoso manifesto do grupo em 1906, em que apela à juventude do seu tempo para conquistar a "liberdade de vida e de movimento, e ir contra as forças velhas e instaladas".
Kirchner explorou a pressa e a tensão da vida moderna. Uma das suas obra-primas intitula-se “Rua de Dresden”, actualmente no MoMa de Nova Iorque. Nessa obra o artista retrata a sofisticada Rua Königstrasse cheia de pedestres, com rostos que parecem máscaras. Kirchner utiliza cores berrantes e claustrofóbicas para expressar o isolamento psicológico da gentes imersas nas multidões urbanas.
Kirchner foi um dos principais alvos da perseguição à chamada "arte degenerada" (Entartete Kunst) pelo regime nazi na Alemanha, viu a sua carreira e saúde mental serem completamente destruídas pelos tormentos a que foi sujeito.
Em 1937, o regime nazi lançou uma purga nos museus alemães. Ao todo, seiscentas e trinta e nove obras de Kirchner foram apreendidas e retiradas das coleções públicas alemãs.
Para ridicularizar a arte moderna, os nazis organizaram a infame Exposição de Arte Degenerada, onde constavam vinte e cinco obras de Kirchner ao lado de textos insultuosos, cujo objetivo era chocar o público e demonstrar a suposta "decadência" dos artistas. Kirchner não resistiu à pressão psicológica e acabaria por se suicidar com um tiro. Abaixo uma vista de Dresden de Ernst Ludwig Kirchner.
Há muitas razões para se ir até Dresden, mas uma delas é certamente a sua rica pinacoteca. A Pinacoteca dos Mestres Antigos fica na ala Gottfried Semper do Palácio Zwinger e alberga obras de artistas tão importantes como Dürer, Vermeer, Ticiano, Rafael, El Grego, Rubens, Rembrandt entre outros.
É precisamente em Dresden, na Pinacoteca dos Mestres Antigos, que encontramos umas das telas mais reproduzidas e copiadas de sempre, a “Madona Sistina” de Rafael. Com efeito, desde há séculos, que não há feira, mercado ou loja de posters, que não tenha à venda a “Madona Sistina”, seja a imagem completa, ou só a parte inferior com os anjinhos.
Dito isto, a pintura original encontra-se num único local somente, a saber, em Dresden.
Entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, a Força Aérea Britânica lançou o devastador ataque à cidade de Dresden. O ataque não visava destruir alvos militares, mas sim destruir de vez a moral dos alemães, arrasando uma das mais belas cidades germânicas, aquela a que muitos chamavam “A Florença do Elba”.
Há larga controvérsia histórica se esses bombardeamentos seriam efectivamente necessários, uma vez que a Alemanha estava nesse momento praticamente derrotada, todavia, o certo é que as guerras nunca são limpas e é inútil esperarmos que alguma vez o sejam.
Em consequência dos bombardeamentos ingleses, todo o centro de Dresden foi destruído, inclusivamente o mais emblemático edifício da cidade, a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), um templo barroco do século XVIII.
O escritor norte-americano Kurt Vonnegut foi uma testemunha ocular do bombardeamento de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial, uma experiência traumática que moldou profundamente a sua visão do mundo e inspirou diretamente a sua obra-prima de 1969, "Matadouro 5".
O livro tornou-se um dos maiores manifestos pacifistas da literatura mundial, marcando gerações pelo seu tom ironicamente humorístico, ainda que, profundamente trágico.
Com a reunificação alemã, o centro de Dresden, incluído a Frauenkirche, foi reconstruído e restituído ao seu antigo esplendor. Em 30 de outubro de 2005, deu-se a cerimónia que assinalou a reconstrução, esteve presente a família real inglesa, e também Alan Smith, filho de um dos pilotos da Força Aérea Britânica que participou activamente no bombardeamento que reduziu Dresden a cinzas em 1945.
E pronto, feitas as contas, tudo está bem quando acaba bem.








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