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Um estereótipo da América: o Texas


Por cá, pela nossa amada pátria, são raros os que percebem um pouco que seja, do que é a América. 

Em boa verdade, o estranho seria que muitos percebessem a destemida América, uma vez que, em termos genéricos, a nação lusitana não é propriamente uma terra de gente audaz e intrépida.

Não é que os portugueses não saibam enfrentar corajosamente as dificuldades com que se deparam, contudo, só em incomuns momentos são aventureiros ou pioneiros, inovam e arriscam, o mais das vezes é mais “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, “o seguro morreu de velho” e “gato escaldado da água fria tem medo”.

Por assim ser, é perfeitamente natural que por cá não se compreenda a ousada América, esse lugar onde ser-se afoito, atrevido e arrojado, são características que se cultivam na rapaziada desde a mais tenra idade.


Sim, por cá, pela nossa amada pátria, são muitos os que olham para a América e só conseguem ver clichês e estereótipos. É por isso que depois dizem e repetem lugares comuns, frases feitas e banalidades sobre a América, com a pose sabedora de quem está a dizer grandes verdades.

Pensemos no Texas, que é o mais estereotipado dos estados americanos. Texas é um nome que faz unicamente despontar na mente de muita gente portuguesa, imagens de cowboys, de saloons, de cavalgadas, de pistolas e de duelos ao sol.

Num antigo Western passado no Texas e protagonizado pelo eterno John Wayne e pelo mítico Robert Mitchum, no início, no tema musical que acompanha o genérico, canta-se assim (a tradução é nossa): “Em dias de sol ou em tempos sombrios, na escuridão e ao meio-dia, por montanhas que se estendem do céu à lua, um homem persegue um sonho a que jamais renuncia, vai em busca de El Dorado”.

Só nesse verso, já está a América, essa terra povoada por homens que perseguem o seu sonho, o seu El Dorado. O verso seguinte da canção dá-nos conta de uma outra característica americana, a de ter sempre determinação para seguir em frente e nunca desistir: “O vento torna-se cortante, o céu fica cinzento, o corpo fica cansado, ele não encontra o caminho, e embora perdido na neve, jamais voltará atrás, pois precisa de encontrar o seu El Dorado.”

No refrão da canção, faz-se uma síntese poética e espiritual da América no geral, e do Texas mais em específico: “So ride, boldly ride, to the end of the rainbow Ride, boldly ride, till you find El Dorado”.

Ouçamos a inspiradora canção e, de caminho, vejamos também os magníficos desenhos do genérico da película, onde vemos representadas as belas paisagens texanas e os valentes e intrépidos cowboys:


É pois vulgar que por cá se pense na América, e mais concretamente no Texas, como um local um tanto ou quanto agreste, uma terra de cowboys, saloons, cavalgadas, pistolas e duelos ao sol, todavia, esse território é muito mais culto e sofisticado do que essa imagem estereotipada.

Pensemos em Houston, cidade situada no sudoeste do Texas, bem próxima da costa do Golfo do México. É nessa urbe que se encontra a Menil Collection, um dos mais prestigiados museus da América, que alberga 19.000 obras de arte, desde a época paleolítica até à contemporânea.

O edifício foi desenhado pelo italiano Renzo Piano, sendo considerado uma obra-prima da arquitectura do século XX. Foi concebido de forma a filtrar a forte luz solar do Texas, mas de modo a que as obras de arte sejam suave e naturalmente iluminadas por essa mesma luminosidade.

Tudo foi pensado para se integrar numa atmosfera elegante e minimalista, o interior foca-se na simplicidade, as paredes brancas e as amplas janelas criam uma ligação contínua com os jardins exteriores, proporcionando assim aos visitantes uma experiência de serena contemplação estética e artística.


Mas claro, já sabemos que no Texas, como aliás no resto da América, as gentes são audazes e intrépidas. Assim sendo, a Menil Collection em Houston possui uma ampla galeria exclusivamente dedicada à obra do ousado artista norte-americano Cy Twombly (1928-2011).

Na verdade, é nessa galeria do Texas, que se encontra o maior conjunto do mundo de obras Cy Twombly, sendo que esse espaço acolhe anualmente cerca de sete milhões de visitantes.


Na canção do Western “El Dorado” de que já hoje falámos, diz-se em certo verso o seguinte: “There’s much more to life than the things we can see”, sendo que, o mesmo se poderia dizer, a propósito da arte de Cy Twombly. Em qualquer dos casos, aqui fica um passeio guiado de cinco minutos pela galeria da Menil Collection no Texas, onde estão muitas das principais obras do artista:


Deixemos Houston e passemos agora a Fort Worth, uma cidade que antes de o ser, era um acampamento militar, um forte, como aqueles que costumamos ver nos velhos filmes de cowboys.

Fort Worth não fica muito longe de Dallas, sendo uma localidade tipicamente texana. É aí que se situa o Modern Art Museum of Fort Worth, que alberga nas suas salas obras de artistas como Picasso, Warhol, Pollock, Rothko e muitos outros.

O edifício foi concebido pelo mítico arquitecto japonês, Tadao Ando e destaca-se pelos seus pavilhões de betão, vidro e aço que parecem flutuar sobre um mágico espelho de água.


Passemos à cidade de Amarillo, que fica no noroeste do Texas, junto à célebre Route 66. Como em qualquer boa localidade texana, há em Amarillo ranchos, sendo de um deles que agora vos vamos falar, o Cadillac Ranch.

No Cadillac Ranch, como o próprio nome já deixa adivinhar, não há vacas nem cavalos, nem qualquer outro tipo de gado, o que aí existe são sim automóveis.

São na realidade dez automóveis, a saber: um Cadillac Club Coupe, um Cadillac Series 62 Sedan, um Cadillac Coupe de Ville, um Cadillac Series 62 Sedan, um Cadillac Sedan de 1957, um Cadillac Sedan de 1958, um Cadillac Coupe, um Cadillac Sedan (Flat top), um Cadillac 4 Window Sedan e um Cadillac Sedan de 1963.

Como já se terá intuído, o Cadillac Ranch é uma obra de arte da autoria de Chip Lord e Doug Michels, que antes disso eram arquitectos.


Inicialmente, em 1974, os automóveis tinham a sua cor original, mas com o passar do tempo, os visitantes começaram a grafitar os carros, que assim foram perdendo as suas cores primeiras. Dito isto, os graffitti acabariam por se tornar permanentes, passando a fazer parte integrante da obra.

Aqui chegados, é de crer que quem nos lê, caso tivesse uma ideia estereotipada do Texas (e por extensão da América), já de algum modo a tenha refeito. Em síntese, o Texas não é tão-somente um lugar de cowboys, saloons, cavalgadas, pistolas e duelos ao sol, mas também um sítio propício à alta cultura.

Imagine-se que as regiões interiores de Portugal, como por exemplo o Alentejo, Trás-os-Montes ou as Beiras, são, à devida escala, o equivalente nacional do Texas. Com efeito, o Texas não tem a fama e o glamour de locais da América como Nova Iorque e Los Angeles, tal como Bragança, a Vidigueira ou o Trancoso, não são Lisboa ou o Porto, porém, no longínquo Texas há instituições culturais de nível mundial, e nas localidades interiores de Portugal, o mais que há é romarias e feiras de vinhos, enchidos e petiscos regionais.

Temos de convir, que se compararmos as regiões interiores de Portugal e o longínquo Texas em termos de sofisticação e cultura, o estado norte-americano nos dá uma abada.

Voltemos à cidade texana de Fort Worth, pois esta, para além de possuir o já referido Modern Art Museum, tem também o Kimbell Art Museum. Imagine-se um típico texano, que não é muito dado à arte moderna e contemporânea, não sendo por isso um habitual frequentador do Modern Art Museum de Fort Worth. No entanto, esse mesmo texano, é um apreciador de arte clássica e antiga e, por assim ser, é um habitual frequentador do Kimbell Art Museum.

Com efeito, o Kimbell Art Museum contém na sua coleção obras dos grandes mestres de sempre, como por exemplo, Michelangelo, Caravaggio, Velázquez, El Grego, Giovanni Bellini ou Claude Monet. Além de pinturas e esculturas europeias, a coleção abrange antiguidades egípcias, clássicas e arte da Ásia, África e das Américas. A entrada é gratuita.


Para terminarmos esta viagem pelo Texas, regressamos a Houston para nos dirigirmos à Capela Rothko, um santuário e um marco da arte moderna.

A Capela Rothko tem no seu interior catorze pinturas monumentais criadas especificamente para o local pelo artista expressionista abstracto Mark Rothko. As telas apresentam tons extremamente escuros, pretos, castanhos e ainda matizes de roxo, que convidam o visitante a uma profunda reflexão estética e espiritual.


O ano de 2026 marca o centenário do nascimento do compositor norte-americano Morton Feldman (1926–1987), uma figura essencial da música experimental do século XX. Uma das músicas mais famosas de Morton Feldman foi composta em 1971 e intitula-se Rothko Chapel. É com ela que terminamos este passeio pelo Texas.

Se escutarem com atenção a melodia composta por Morton Feldman, ouvirão os sons de uma América moderna e muito distante de quaisquer estereótipos. Aqui ficam dois minutos, só para abrir o apetite:



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