Em virtude das muitas séries televisivas e dos filmes que vimos, temos uma imagem das zonas periféricas de Nova Iorque, como sendo locais degradados, dominados por gangues e onde reina a criminalidade. É uma imagem estereotipada.
A um português será difícil imaginar que bairros ou localidades à saída de Lisboa ou já bem para lá das portas da cidade, possuam instituições culturais ou museus de prestígio internacional ou até só mesmo nacional.
Com efeito, quem pensa em Chelas, Sacavém, Cacém, Amadora, Arrentela ou em outros lugares dos arredores da capital, jamais lhe ocorrerá a ideia, de que em tais locais possam existir museus e sítios dedicados à alta cultura.
Quem em Portugal pensa em Nova Iorque, normalmente pensa em Manhattan. Sim, é aí, no centro da cidade, que estão os melhores hotéis e restaurantes, as lojas da moda, bem como os cinemas e os teatros, e ainda importantes e imponentes museus de arte, como o Metropolitan, o Guggenheim ou o MoMa, só para citar alguns dos principais.
Sim, Manhattan é o bairro chique de Nova Iorque ao qual todos os turistas querem ir, raros serão os que se interessarão por outros bairros mais periféricos da grande urbe, como por exemplo o Brooklyn, Queens, o Bronx, Bowery ou o Harlem.
Mas se serão raros os turistas que lá irão, esses bairros existem e são milhões os que lá vivem. É por isso mesmo, que em qualquer um desses bairros há museus e alta cultura acessível para todos, isto de modo oposto ao que sucede à saída e nas periferias de Lisboa, em que genericamente, em termos culturais, há pouco ou mesmo nada, e quando o há é de nível meramente local.
Dito isto, vamos então fazer um passeio de alta cultura por Nova Iorque, mas excluindo os sítios mais famosos, ou seja, os que se situam no centro de Manhattan.
Comecemos por um local que para lá se chegar, tem de se atravessar uma ponte, ou, em alternativa, fazer uma longa viagem de metro. O sítio a que nos referimos é Brooklyn.
Brooklyn, como é evidente, não é Manhattan, todavia, goza da fama de ter um certo charme. Enfim, é um bairro com comunidades imigrantes muito antigas, daquelas integradas há gerações e, para além disso, atrai inúmeros residentes com personalidade artística.
A população de Brooklyn é uma mistura de comunidades latinas, afro-americanas e asiáticas. O bairro também abriga a maior comunidade de judeus fora de Israel. Ao contrário dos arranha-céus de Manhattan, a paisagem urbana de Brooklyn é dominada por prédios baixos, por casas de tijolos com escadarias de pedra e por antigos edifícios industriais reconvertidos.
Mas o que aqui nos interessa em Brooklyn, é que nesse bairro, situado bem longe do centro da cidade, há um grande museu, o Brooklyn Museum. A sua coleção permanente tem mais de 140.000 objetos, abrangendo cerca de 6.000 anos de história da arte mundial.
Nas suas salas há múmias do antigo Egipto, um Santuário Budista Tibetano, pinturas de mestres como Edgar Degas, Paul Cézanne ou Camille Pissarro e dezenas de esculturas em bronze de Auguste Rodin.
Sim, há um sítio assim em Brooklyn, onde para se lá chegar é necessário atravessar uma ponte sobre o East River, sendo o tempo viagem de 40 minutos de automóvel ou de metropolitano, contados a partir do centro de Manhattan
Viajemos agora até ao Bronx. A má fama do bairro nova-iorquino do Bronx atingiu o seu pico entre as décadas de 1970 e 1990, período em que o Bronx era um símbolo global da violência urbana. Embora a realidade actual seja diferente e o bairro esteja consideravelmente mais seguro, o estigma relativo ao Bronx permanece firme no imaginário popular.
No Bronx vivem cerca de um milhão e meio de pessoas, mais de metade da população identifica-se como sendo de origem hispânica ou latina, aproximadamente um terço dos residentes são negros ou afro-americanos. O inglês e o espanhol dominam as ruas, mas são faladas mais de setenta e cinco línguas neste bairro.
Dito isto, é nesse sítio que se situa uma conceituada instituição museológica, o The Bronx Museum of the Arts. Fundado em 1971, o museu destaca-se internacionalmente pela atenção que dá à arte contemporânea e à do século XX, e por promover o diálogo intercultural.
Após o Brooklyn e o Bronx, passemos agora ao bairro de Queens, que é considerado o lugar com maior diversidade linguística e cultural do mundo, com moradores oriundos de mais de 150 países, que falam mais de 130 idiomas.
Morar em Queens é consideravelmente mais barato do que em Manhattan, provável razão por lá habitarem sensivelmente dois milhões e meio de pessoas.
Em Queens há um icónico edifício de tijolos vermelhos em estilo românico revivalista, inaugurado em 1892 para ser a primeira escola pública do bairro (Public School 1 ou P.S. 1). O espaço abrigava trinta e cinco salas de aula e cerca de mil alunos. Devido à baixa frequência e à desindustrialização da zona, a escola foi desativada em 1963.
Uns anos depois, o antigo edifício escolar passou a chamar-se P.S.1 Contemporany Art Center e tornou-se um ponto de encontro obrigatório para movimentos artísticos emergentes, acolhendo gente desde o movimento pós-punk à arte povera, até novas frentes de videoarte e de ousadas performances.
No ano 2000, o P.S.1 oficializou uma parceria estratégica com o Museum of Modern Art (MoMa). Esta união combinou o prestígio e os recursos financeiros de uma das maiores instituições de arte do mundo com a agilidade, a audácia e a irreverência própria do bairro de Queens.
Em 2011, o seu nome mudou definitivamente para MoMA PS1, um museu que goza de um prestígio global extraordinário, sendo amplamente reconhecido como uma das instituições de arte contemporânea mais influentes e vanguardistas do mundo. Tudo isto em Queens, praticamente a uma hora do centro de Manhattan.
Vamos agora para Manhattan, mas não para o vibrante e elegante centro da ilha, e sim para Bowery, uma zona que durante décadas era bastante degradada. A paisagem urbana misturava então antigos edifícios industriais e armazéns de ferro fundido, abrigando sobretudo um comércio especializado em artigos para restaurantes e lojas de iluminação. Em síntese, Bowery não era claramente um sítio bonito.
A partir de 2007, Bowery, uma das zonas mais antigas de Manhattan em Nova Iorque, teve uma das transformações urbanas mais radicais da história da cidade. Conhecido durante quase um século como a "Skid Row" (a zona mais degradada, marcada pela pobreza e toxicodependência), o bairro passou por um processo acelerado de mudança que apagou quase por completo o seu passado marginal.
A transformação iniciou-se com a inauguração do edifício do New Museum, que fez do bairro uma zona de arte de vanguarda. Pouco depois da inauguração do museu, dezenas de galerias de arte contemporânea de prestígio internacional mudaram-se para as suas redondezas. Hoje, quem caminha pelo Bowery encontra uma paisagem urbana moderna, próspera e grande vitalidade cultural.
Para finalizarmos esta nossa viagem, vamos ao East Harlem. O bairro possui uma das maiores concentrações de habitação social de Nova Iorque e dos Estados Unidos. Historicamente enfrenta indicadores sócio-económicos complexos, incluindo taxas elevadas de desemprego e questões de saúde pública.
O bairro tem uma forte e histórica presença de comunidades latino-americanas, especialmente porto-riquenhas, dominicanas e mexicanas.
Inaugurado em 1969 numa sala de aula no East Harlem, o El Museo del Barrio mudou-se cinco vezes antes de se instalar na sua localização actual em 1978.
O museu dedica-se à arte e à cultura de Porto Rico, da América Latina e do Caribe, tendo como missão apoiar a arte e os artistas frequentemente ignorados pelos grandes museus. O acervo permanente do museu é composto por mais de 8.500 peças, abrangendo um período de mais de 800 anos, indo desde artefactos pré-colombianos até obras multimédia de artistas contemporâneos.
El Museo del Barrio destaca-se por promover programas públicos educacionais inteiramente bilíngues (inglês e espanhol). É um museu de proporções acolhedoras, com galerias bem iluminadas e com um profundo foco em questões de identidade, justiça social e inclusão de vozes marginalizadas.
El Museo del Bairrio possui um enorme prestígio internacional e uma grande relevância cultural, sendo a instituição pioneira e mais antiga dos Estados Unidos dedicada à arte e cultura porto-riquenha e latino-americana.
E pronto, feitas estas cinco paragens por sítios longe do esplendoroso centro de Nova Iorque, a conclusão óbvia é a de que na América as periferias urbanas não são destituídas de instituições culturais de prestígio internacional e que, assim sendo, a imagem que temos desse locais como degradados, dominados por gangues e onde reina a criminalidade, é uma imagem estereotipada.







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