Wuppertal não é propriamente uma bela cidade, não tem grandiosos monumentos e lindas avenidas, e também não foi palco de relevantes acontecimentos históricos. Feitas as contas, Wuppertal é um sítio relativamente insubstancial, ao qual não muitos ligam.
Wuppertal fica no oeste da Alemanha, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, não muito longe de Colónia ou Düsseldorf, sendo a maior curiosidade dessa cidade, o facto de possuir um transporte público inusitado, que é uma espécie de eléctrico aéreo.
Dito isto, perguntar-se-á quem nos lê, a que propósito estamos nós para aqui a falar de Wuppertal. Se é verdade que em Wuppertal nunca aconteceu nada de especial, refira-se no entanto, que a fórmula química da aspirina foi descoberta num laboratório dessa cidade.
Wuppertal é a cidade natal da aspirina, que nasceu em 10 de Outubro de 1897, quando o jovem químico alemão Felix Hoffmann descobriu um substituto para o ácido salicílico tradicional, pois este causava fortes indisposições estomacais ao seu pai.
Para quem não saiba, o ácido salicílico tradicional foi usado durante inúmeros séculos como tratamento para aliviar as dores e diminuir a febre, todavia, por vezes causava azias e uma extrema irritação no estômago. Para resolver este problema, Felix Hoffmann modificou a molécula. Esta alteração deu origem ao ácido acetilsalicílico, o mesmo é dizer, à aspirina, medicamento que manteve as propriedades curativas do ácido salicílico, mas sendo muito mais suave para o estômago.
Abaixo uma foto de Felix Hoffmann, o homem de Wuppertal sem o qual não teríamos um tão bom remédio para reduzir a febre, quando somos acometidos por gripes e constipações, nem saberíamos também como suavemente aliviar as enxaquecas leves ou moderadas, e ainda as dores musculares, articulares e menstruais.
Porém, não é a propósito do químico Felix Hoffmann, que hoje vos vimos falar de Wuppertal, isso foi só um desvio, falamos-vos sim dessa localidade germânica, por causa de uma recém baptizada rua de Lisboa, uma situada lá para os lados do Lumiar.
Serão poucos os que saberão onde se situa a Rua D da Malha 34 do PUAL (Plano de Urbanização da Alta de Lisboa), sendo que, nesta presente semana, essa rua foi rebaptizada, tendo agora o nome de Rua Pina Bausch.
Pina Bausch (1940–2009) foi uma das mais revolucionárias coreógrafas e bailarinas do século XX, sendo amplamente reconhecida como a principal precursora do chamado Tanztheater.
A ligação entre a bailarina e coreógrafa e a cidade de Wuppertal é uma das parcerias mais emblemáticas da história da dança contemporânea. Foi a partir desta cidade industrial alemã que a artista revolucionou a dança mundial ao criar o conceito de Tanztheater (Teatro-Dança).
Pina Bausch instalou-se em Wuppertal em 1973, das suas 55 peças coreográficas originais, 47 foram criadas e estreadas nessa cidade no Wuppertaler Schauspielhaus (o Teatro Municipal), que era o seu palco predilecto e serviu de berço para autênticas obras-primas como “Café Müller” de 1978, ou “A Sagração da Primavera” de 1975.
Abaixo uma foto de uma apresentação de “Café Muller”.
Agora que já todos perceberam a que propósito falamos hoje de Wuppertal, vamos lá ver o que é o Tanztheater (Teatro-Dança) de Pina Bausch. O Tanztheater é uma cena transdisciplinar, onde o palco deixa de ser unicamente um espaço de dança, pois os bailarinos-actores utilizam também a voz, o canto, textos, gritos e risos para se expressarem.
Os gestos repetitivos do quotidiano, como por exemplo, pentear o cabelo, vestir um casaco ou igualmente gestos de afecto e violência, ganham nas criações de Pina Bausch contornos coreográficos.
Bausch não criava passos rígidos para os bailarinos executarem. Em vez disso, fazia-lhes perguntas íntimas ou existenciais. As respostas dadas através de gestos, improvisações ou palavras, tornavam-se a matéria-prima dos seus espetáculos.
Para Bausch a técnica perfeita é secundária em relação ao sentimento. Como afirmava a própria coreógrafa: "Não me interessa como se movem, mas sim o que os move". O foco da obra de Pina Bausch consiste em retratar através de gestos dançados, as mais intensas experiências humanas, a saber, o medo, o amor, a solidão, a memória e o desejo.
Um palco coberto por milhares de cravos cor-de-rosa, “Someday he'll come along, the man I love, and he'll be big and strong, the man I love”, um bailarino que veste um fato formal e permanece estático, a imobilidade desse homem que nos deixa entrever os seus sentimentos, as mãos e o rosto que nos falam de beleza e de anseios, mas também de receios e desamparos. É ver:
Mas posto tudo isto, que razão haverá para que uma rua do Lumiar seja baptizada com o nome da bailarina e coreógrafa alemã de Wuppertal, a célebre Pina Bausch?
A ligação entre a mítica coreógrafa e a cidade de Lisboa é profunda e histórica, por exemplo, em 1998, Pina Bausch e a sua companhia, o Tanztheather Wuppertal, realizaram uma residência artística em Lisboa. Inspirada pela luz, pelas gentes, pelas colinas e pela melancolia da capital portuguesa, Pina Bausch criou o aclamado espectáculo “Masurca Fogo”.
Ao contrário de outras obras de Bausch mais sombrias, “Masurca Fogo” destaca-se pelo seu tom leve, festivo e humorístico. A peça evoca a vida de praia, a maresia e a particular luminosidade da capital portuguesa.
O espectáculo capta os hábitos, os afectos e o quotidiano dos habitantes de Lisboa através de um olhar poético estrangeiro, sendo “Masurca Fogo” considerada uma das peças mais vibrantes, felizes e sensuais de todo o repertório do Tanztheater Wuppertal.
A atmosfera é alegre e solarenga e a peça incluiu fados interpretados por Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro, e também mornas e ritmos tradicionais de Cabo Verde. Abaixo uma imagem de “Masurca Fogo”.
Em maio de 2008, a cidade de Lisboa organizou "Um Festival Pina Bausch". Foi no palco do Teatro São Luiz que Pina Bausch dançou em público pela última vez interpretando a icónica peça “Café Muller”. Nós tivemos a sorte de a ver das muitas vezes que veio a Lisboa e também nessa derradeira ocasião. A coreógrafa faleceria pouco depois, em Junho de 2009.
O grande realizador português Fernando Lopes (1935-2012) andou em tempos com Pina Bausch por Lisboa e também por Wuppertal. Desses passeios e conversas resultou um filme, “Lissabon Wuppertal Lisboa”.
O filme inicia-se com o olhar de Pina Bausch, com o Tejo e com a voz de Amália a cantar um poema desse tão típico lisboeta que era Alexandre O’Neill: “Se uma gaivota viesse, Trazer-me o céu de Lisboa…”
O filme “Lissabon Wuppertal Lisboa” não tenta ser didáctico e explicar a arte de Pina Bausch, pois a verdade é que nada há para explicar, e sim somente para sentir.
Em 1992, realizou-se na cidade italiana de Turim, um congresso internacional cujo tema era Pina Bausch: Teatro da Experiência, Dança da Vida.
Nesse congresso foram lavradas as respectivas actas e elaborados os necessários relatórios. Actas e relatórios que foram posteriormente compilados e editados num livro a que foi dado o título “Falem-me de Amor”.
Nesse livro consta também uma entrevista a Pina Bausch, na qual ela explica não explicando, que nada lhe interessa ser didáctica ou transmitir uma qualquer mensagem. Atentemos nesta passagem da dita entrevista: “Quando saímos, se está a nevar e tudo se pôs branco, ficamos sós, sentimo-nos sós. Se o sol estiver a brilhar, talvez não. Mas nada garante que aquilo que o outro sente seja equivalente ao que nós próprios sentimos. Quanto à mensagem, não sei...Não há mensagem.”
O realizador alemão Wim Wenders, autor de clássicos intemporais como “Paris-Texas” ou “As Asas do Desejo”, tem também uma forte ligação a Lisboa, prova disso é que a capital portuguesa é cenário dos seus filmes “O Estado das Coisas” de 1982, “Lisbon Story” de 1994 e “Até ao Fim do Mundo” de 1991.
Wim Wenders tem uma forte ligação com Lisboa, mas também a tem com Pina Bausch. Em 2011 realizou um documentário intitulado “Pina”, no qual nos mostra muitas das suas coreografias, no entanto, nessa película, a dança não fica limitada a um palco e antes se espalha pela cidade de Wuppertal, por locais como o eléctrico aéreo, fábricas, pontes, depósitos de escórias, parques e paisagens industriais. Aqui fica o trailer:
Por tudo o que aqui foi dito, foi em boa hora que a Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade, a atribuição do nome da icónica coreógrafa alemã a um arruamento da cidade, celebrando dessa forma a forte ligação de Pina Bausch à capital de Portugal.
Não serão muitos os que sabem fazer a distinção entre dançarina e bailarina, uma vez que os termos são frequentemente tomados como sendo sinónimos. Dançarina será qualquer pessoa que dança, seja por diversão, paixão ou profissão, bailarina é quem possui uma formação técnica e académica, e interpreta passos e gestos que decorrem de uma coreografia.
Nem todos temos que saber fazer a distinção entre dançarina e bailarina, porém, era suposto que os serviços da Câmara Municipal de Lisboa dedicados à toponímia da cidade a soubessem fazer, mas não, não sabiam, meteram água.
No dia da inauguração da Rua Pina Bausch, na placa constava dançarina e coreógrafa, ao invés de bailarina e coreógrafa. Um lapso técnico, segundo as palavras da Câmara Municipal, que se comprometeu a substituir a placa com a maior brevidade possível.
Mesmo após o seu falecimento, as coreografias de Pina Bausch continuam a ser apresentadas pela sua companhia de dança, por muitos lugares do mundo. Para além de Wuppertal, nos próximos meses as suas peças serão vistas em cidades como Roma, Atenas, Milão, Paris, Londres, Madrid e Viena. O calendário pode ser consultado no site abaixo:
Consultando o calendário, verificamos que ao contrário do que sucedia no passado, agora não há nenhum espectáculo programado do Tanztheater Wuppertal em Lisboa.
Em 1989 Pina Bausch e a sua companhia actuaram na Fundação Gulbenkian, em 1994 essa mesma fundação organizou um ciclo retrospectivo à volta da obra da coreógrafa com diversos espectáculos, em 1997 passaram semanas em Lisboa onde estrearam “Masurca Fogo” no Centro Cultural de Belém, em 2005 e 2007 apresentaram algumas das suas obras mais marcantes no Teatro Camões, em 2008 foi organizado um festival no qual muitas das suas obras foram apresentadas no Centro Cultural de Belém e no Teatro São Luiz, no presente, não há nada para ver em Lisboa, a não ser uma rua algures lá para os lados do Lumiar.







Comentários
Enviar um comentário