Primeiro uma declaração: nós não somos negacionistas ambientais, bem pelo contrário.
Dito isto, na passada sexta-feira, os estudantes do antigo Liceu Camões e da Escola António Arroio em Lisboa fecharam os ditos estabelecimentos de ensino, para se manifestarem a favor do fim dos fósseis até 2030, ou seja, até daqui a três anos e uns meses.
Pelas imagens vistas na Tv’s e nos jornais parece que foi muito giro e que os estudantes se divertiram bastante. Dançaram, cantaram, saltaram e gritaram, em síntese, foi um dia em cheio.
É certo que se não se usassem fósseis, a poluição atmosférica urbana baixaria drasticamente, reduzindo de imediato as taxas de asma, de doenças cardiovasculares e de cancros associados ao uso e à queima desses combustíveis.
É igualmente certo, que a longo prazo, e para conter o aquecimento global e travar a escalada de eventos climáticos extremos, a humanidade terá de ir fazendo uma transição para outros tipos de energia, que não a fóssil, mas dito isto, tudo o mais é incerto.
Em boa verdade, os estudantes do Liceu Camões e da Escola António Arroio são uns românticos.
O Romantismo surgiu em plena Revolução Industrial, no final do século XVIII e atingiu o seu auge entre 1800 e 1850.
À medida que as cidades se tornavam cinzentas, poluídas e mecânicas, os românticos passaram a idealizar a natureza como o derradeiro reduto da pureza, da liberdade e da autenticidade. Para os poetas, músicos e pintores românticos, a natureza deixou de ser um mero pano de fundo.
Os românticos "inventaram" a natureza, sem eles, o turismo ecológico, a pintura de paisagem e até as bases do ambientalismo actual não existiriam da forma em que as conhecemos.
Afirmar que os românticos “inventaram” a natureza não significa que as árvores, as montanhas ou os rios não existissem antes deles. Significa sim, que o movimento Romântico transformou radicalmente a nossa percepção cultural, estética e emocional do mundo natural, moldando a forma como nos relacionamos com ele até aos dias de hoje.
Alexander von Humboldt (1769–1859) foi um geógrafo, naturalista e explorador alemão, sendo considerado um dos fundadores da geografia moderna e da ecologia. Para além de ter sido um grande cientista, foi também um romântico. Utilizava um método científico e rigoroso, possuía instrumentos de grande precisão, porém, a sua visão da natureza era profundamente mística, descrevendo-a como um "todo animado pelo sopro da vida”.
Aqui há uns anos foi publicada uma excelente biografia de Alexander von Humboldt, talvez os estudantes do Liceu Camões e da Escola António Arroio a pudessem ler e assim perceber que as suas reivindicações, anseios e ideais climáticos já têm uns quantos séculos.
A título didáctico, vejamos como seria um dia na vida do jovem estudante Joca em 2030, caso nesse ano já não se usassem fósseis. Aqui fica:
O despertador de plástico biodegradável de microalgas do Joca não tocou às 7h, como estava previsto. Meio a dormir, Joca esticou o braço para ver as horas, mas a luz do ecrã do despertador não ligou.
- Bolas, o vento parou durante a noite - resmungou apercebendo-se que a sua PowerBank eléctrica doméstica, alimentada pela mini-eólica do telhado, tinha entrado em hibernação.
Já atrasado e sem electricidade de reserva, o Joca teve de enfrentar o primeiro grande dilema do mundo pós-fóssil, o banho matinal. Sem gás, a água vinha directamente do reservatório solar termodinâmico. O problema era que a água estava à temperatura ideal para criar pinguins. O Joca optou por tomar um banho ligeiro com duas canecas de água aquecida num fogareiro a biogás feito de restos de batata. Lá se safou assim.
Na cozinha, o pequeno-almoço foi uma outra aventura. O café, que era agora um produto de luxo importado em consequência de os navios cargueiros movidos a amoníaco verde demorarem três meses a cruzar o Atlântico, tinha acabado.
- Vamos a isto, a um super-café de cevada e chicória biológica reciclada! - disse a si mesmo o Joca, enquanto tentava engolir a mistela. Ao abrir o frigorífico para tirar o leite de aveia, reparou que a embalagem tinha um furo. O novo bioplástico de amido de milho era óptimo para o ambiente, mas furava-se com muita facilidade.
Hora de ir para escola. O Joca caminhou até à paragem do autocarro. O veículo, movido a hidrogénio era silencioso e limpo, mas havia um pequeno detalhe técnico, devido à crise global de chips e à escassez de lítio para as novas baterias, os autocarros eram infrequentes pois estavam muitas vezes parados por falta de energia. Quando veio, o autocarro vinha cheio.
Lá dentro, o Joca viajou colado ao casaco de um outro passageiro. O casaco era feito de fibra de urtiga e cânhamo. Sustentável sim, mas pica muito, pensou o Joca enquanto tentava não respirar o hálito a kombucha de mais de metade dos restantes passageiros.
Na escola, o pânico instalou-se às 11h00. A esferográfica do professor, uma relíquia guardada num cofre, feita de plástico petroquímico verdadeiro, tinha ficado sem tinta.
- Alguém tem um esferográfica de tinta à base de soja e carvão vegetal? - gritava o professor pelos corredores, em histeria.
Na realidade, a tinta à base de soja e carvão vegetal, ainda assim era mais fiável do que a das canetas de bambu, que deixava o papel reciclado, que absorve tudo, molhado e em muito mau estado.
À hora de almoço, o Joca foi ao supermercado. Comprou uma maçã. O funcionário pesou-a e colou a etiqueta directamente na casca da fruta, com uma cola comestível feita de mel e resina de pinheiro. O sabor da maçã não era lá grande coisa, mas enfim, há que fazer sacrifícios pelo planeta.
Ao fim do dia, o Joca regressou a casa, exausto. O vento tinha voltado e as luzes já piscavam. Decidiu relaxar, calçar os seus ténis favoritos, feitos de cortiça e micélio (raízes de cogumelos) e ir correr no parque. Começou a chover.
Em minutos, os cogumelos dos ténis absorveram a humidade, expandiram e o Joca percebeu que estava a calçar dois cogumelos gigantes e moles que se desfaziam a cada passada. Voltou para casa descalço. Deitou-se na sua cama com lençóis de fibra de eucalipto, olhou para o alto e pensou: “A natureza está salva”.
Abaixo um quadro do pintor romântico alemão, Caspar David Friedrich.
O Romantismo Inventou o "olhar moderno" sobre a natureza, pela primeira vez, montanhas escarpadas, florestas densas e tempestades deixaram de ser vistas como lugares perigosos e selvagens e passaram a ser admiradas pela sua grandiosa beleza.
O desejo romântico de preservar a "natureza intocada" inspirou os primeiros movimentos de conservação ambiental, sendo que, a ecologia actual é herdeira directa desse anseio.
Antes do romantismo, as montanhas, florestas densas e pântanos eram vistos como locais perigosos, feios e sem valor. O Romantismo inverteu essa percepção transformando a natureza intocada num local de elevação espiritual e pureza.
A ecologia actual ao procurar criar santuários naturais, reservas biológicas e ao defender as espécies ameaçadas, deriva desta sacralização do mundo selvagem iniciada pelos românticos.
Os românticos foram os primeiros a manifestar uma profunda melancolia pela destruição das paisagens rurais devido à expansão das fábricas, caminhos-de-ferro e minas de carvão, a ecologia actual partilha desse mesmo melancólico sentimento de perda face à extinção de certas espécies e às alterações climáticas.
Provavelmente, os estudantes-manifestantes do Liceu Camões e da Escola António Arroio nunca terão ouvido expressões como “colonialismo verde” ou “gentrificação verde”.
Comecemos pelo “colonialismo verde” que consiste no seguinte: para que os países ricos, incluindo Portugal, possuam automóveis eléctricos e energia limpa, é necessário uma quantidade massiva de minérios como lítio, cobalto e cobre. A extracção desses recursos ocorre maioritariamente em países da América Latina e de África, e tem como consequência a destruição de ecossistemas locais, o esgotamento de fontes de água e a expulsão de povos indígenas dos seus territórios.
Vejamos agora o que é a “gentrificação verde”. Um bairro citadino recebe investimentos ecológicos: um novo parque, a recuperação de um rio urbano ou a plantação massiva de árvores. A zona torna-se visualmente mais apelativa e saudável. O mercado imobiliário aproveita este "apelo verde" para construir novos edifícios e reabilitar os antigos a preços muito mais elevados.
Os pequenos negócios tradicionais, mercearias ou cafés de bairro, fecham devido ao aumento das rendas e são substituídos por lojas de conveniência orgânicas, estúdios de ioga e cafés lounge orientados para o novo público com maior poder de compra. Incapazes de suportar a subida das rendas, dos impostos imobiliários e do custo de vida em geral, os antigos moradores são forçados a mudar-se para a periferia.
Vários investigadores identificaram a zona de Braço de Prata em Lisboa como um exemplo clássico de gentrificação verde. Marvila é uma freguesia historicamente operária que albergou grandes indústrias e bairros sociais. A reconversão urbana da frente do Tejo de Marvila e a criação do Parque Ribeirinho do Oriente, tiveram como consequência o surgir de um “apelo ecológico”.
A proximidade do novo parque foi amplamente utilizada no marketing de novos empreendimentos de luxo. Estudos indicam que o preço por metro quadrado nesta linha ribeirinha disparou para valores substancialmente superiores aos anteriores.
A população idosa e a classe trabalhadora local, que suportaram os custos ambientais da era industrial, encontram-se agora sob forte pressão de exclusão e substituição por novos residentes de rendimentos elevados, pois são incapazes de aceder à habitação "sustentável" criada no local onde sempre viveram.
Abaixo uma imagem do Prata Riverside Village, em Marvila, junto ao Tejo.
Vejamos agora quais seriam as consequências de acabar com os fósseis até 2030. Logo de imediato dar-se-ia o colapso das cadeias de abastecimento globais, haveria crises energéticas generalizadas e o desemprego aumentaria de uma forma nunca antes vista.
Milhões de empregos directos e indirectos nas indústrias de extracção, refinação, transporte e distribuição seriam eliminados. Os eventuais novos "empregos verdes" exigem competências diferentes, que não se desenvolvem de um dia para o outro.
Cerca de 90% do transporte mundial, rodoviário, marítimo e aéreo, paralisaria. A distribuição de alimentos, medicamentos e mercadorias pararia. A escassez imediata de energia faria os preços de qualquer produto disparar, gerando uma inflação global sem precedentes e crises de fome.
Sem plásticos e sintéticos, que são essenciais para equipamentos médicos como seringas, pacemakers e tubagens, as taxas de mortalidade disparariam. As fontes renováveis actuais, solar e eólica, dependem do clima. Sem o gás ou o carvão para fornecer energia de forma estável, quando não houvesse sol ou vento durante algum tempo, as redes eléctricas sofreriam apagões constantes e computadores e electrodomésticos não funcionariam.
Em resumo, muito embora a transição para energias renováveis seja necessária, a eliminação dos fósseis até 2030 ou nos anos subsequentes é pura e simplesmente inviável.
Abaixo uma foto publicada num jornal, de dois professores actualmente em exercício de funções no antigo Liceu Camões em Lisboa. Pelos vistos, juntaram-se aos protestos dos alunos da passada sexta-feira e decidiram exibir uma faixa com parvoíces.
Mais uma vez a título didáctico, vejamos desta vez como seria um dia na vida de um docente em 2030, caso nesse ano já não se usassem fósseis. Aqui vai:
Estamos no final do ano lectivo de 2030, o quente Verão já se faz sentir. A Professora Amélia ajustou os seus óculos com armação de bio-resina de batata, que tendem a amolecer se ela suar muito, e encarou a sua turma. Dar aulas num mundo sem petróleo era um desafio.
“Bom dia”, disse Amélia, “abram os vossos tablets de e-ink de baixa energia. Se não tiverem carga, usem o quadro.” O quadro era uma ardósia de xisto reaproveitada. O giz tradicional tinha sido substituído por um composto de casca de ovo prensada que chiava tanto que parecia um gato a ser mal tratado.
“Ó Professora”, interrompeu o Nuno, um aluno da fila da frente que vestia uma camisola de fibra de bambu que parecia um saco de batatas gourmet, “é verdade que antigamente as pessoas usavam esferográficas descartáveis que deitavam fora só porque ficavam sem tinta? Tipo... plástico verdadeiro?”
Amélia suspirou, recordando-se da sua juventude.
- Sim, Nuno. Hoje, como sabem, temos de partilhar a única caneta de recarga biológica de tinta de choco.
Dantes, a Amélia projectaria um belo Powerpoint ou um vídeo do YouTube. Agora, com a internet racionada a 50 megabytes por docente para evitar o aquecimento dos servidores locais, teria de ser criativa.
Mas pior do que as aulas, nesta era pós-fóssil, eram as reuniões de final de ano de professores. Mesmo com as janelas abertas, a sala de professores cheirava sempre a uma espécie de infusão de cidreira devido à roupa biológica de alguns docentes começar a fermentar com o calor.
O sol batia nas vidraças, o termómetro marcava 31 graus. O ambiente olfatitvo era uma experiência antropológica, o perfume de lavanda biológica misturava-se com o aroma a vinagre de maçã usado para limpar os quadros, e simultaneamente com o cheiro a transpiração de vinte docentes vestidos com fibras experimentais.
O Director, segurando um megafone de cartão enrolado, tomou a palavra:
- Colegas, devido ao corte de energia das 12h, as notas terão de ser gravadas em tabuinhas de cera de abelha reciclada. Peço-vos que usem uma caligrafia pequena para poupar cera. E, por favor, lembrem-se de não deixar as tabuinhas perto das janelas, pois podem derreter antes das reuniões de conselho de turma.
Nisto, a Professora Amélia desata a chorar. Devido ao calor extremo que fazia na sala, as tabuinhas de cera de abelha onde tinha cravadas as notas tinham começado a derreter. As notas estavam a escorrer pelas pernas da mesa abaixo, fundindo-se numa massa disforme de cera perfumada a mel.
O pânico instalou-se entre os professores ao verificarem que o mesmo sucedia às suas tabuinhas de cera. No meio da histeria geral de professores, o Director ergueu a voz para dizer:
- Calma, colegas! Resiliência!
De repente, o Director olhou para baixo e verificou que uma poça de cera de abelha biológica, tinha escorrido exactamente para a zona onde ele estava, tinha os sapatos colados ao soalho.
Atraídas pelo intenso aroma a cera, um enxame de vespas asiáticas aproximou-se. O que começou por ser um zumbido distante transformou-se, em poucos segundos, numa verdadeira invasão da sala de professores.
- Fechem as janelas! - gritou uma professora, tentando proteger-se com uma pasta de cartão reciclado.
- Não podemos! - respondeu um outro professor. - O trinco de bioplástico de milho não funciona com o calor e as janelas estão bloqueadas.
A confusão era geral. Vinte professores atiraram-se para debaixo das mesas. O Director, tentou chegar até à porta, mas a sala tinha-se transformado num tapete de cera, numa espécie de pista de patinagem biológica. Como era previsível, estatelou-se.
Neste entretanto, a Professora Amélia, que tinha um mata-moscas fabricado com um plástico rígido e resistente, um do tempo do fóssil, que tinha adquirido no mercado negro dos produtos fabricados com petróleo, ergueu-o como uma espada e com coragem e determinação conseguiu eliminar uma a uma as vespas asiáticas.
Todos celebraram a vitória da humanidade sobre a natureza e a extinção das vespas. E pronto, assim termina esta saga da era pós-fóssil e também este texto.







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