Um recente estudo científico revelou que andamos a falar cada vez menos. Pelos vistos, já em 2019, antes ainda da pandemia, andávamos a falar menos quatro mil palavras por dia do que duas décadas antes.
O dito estudo indica-nos que nesse período de tempo, passámos de dezasseis mil palavras diárias para cerca de doze mil, o que perfaz um total de menos cento e vinte mil palavras por ano. O autor do estudo é o psicólogo Mathias Mehl da Universidade do Arizona, em co-autoria com a psicóloga Valeria Pfeifer da Universidade do Missouri.
Claro que todos ficamos contentes e felizes por certas e determinadas pessoas fecharem a matraca, contudo, o que ambos os investigadores nos asseguram, é que esta descoberta não é efectivamente uma boa notícia.
A principal causa apontada para este estado de coisas é o avanço tecnológico que eliminou muitas conversas. Com efeito, basta estarmos num café, numa sala de espera, num jardim, num restaurante ou em qualquer outro lugar, para olharmos à nossa volta e verificarmos que são bastantes mais as gentes a olhar para um ecrã, do que aquelas que conversam entre si.
Para além disso, também muitas conversas casuais desapareceram. O uso constante de telemóveis, headphones e a proliferação de automatismos como caixas de supermercado self-checkout, e-commerce e assistentes de voz, fez desaparecer do quotidiano aquelas pequenas conversas espontâneas, que ainda não há muito tempo preenchiam parte significativa do nosso dia a dia.
Abaixo a pintura “L’art de la conversation” de René Magritte.
Em boa verdade, nós estamos em crer que há muito boa gente que mesmo falando pouco ainda fala demais e bem melhor faria em estar calada, porém, conseguimos perceber as sérias preocupações dos investigadores com as graves consequências neurológicas, emocionais e cognitivas desta situação, em que cada vez se fala menos.
Por exemplo, a falta de diálogo está directamente ligada a sentimentos de solidão, sendo que, as pequenas conversas informais (com o vizinho, o colega de trabalho ou o funcionário do café) funcionavam como momentos de conexão social, e sem eles, o cérebro acumula mais cansaço e os níveis de ansiedade e depressão tendem a aumentar.
Por outro lado, manter uma conversa fluida e espontânea exige muito mais esforço cognitivo do que enviar uma breve mensagem escrita ou um emoji. Por consequência disso, o declínio da fala reduz consideravelmente o uso diário e constante de competências cognitivas como o raciocínio rápido ou a articulação verbal.
Em resumo, feitas as contas, falarmos menos não nos traz nada de bom, excepto em casos muito específicos. No entanto, e neste entretanto, reabriu recentemente o renovado Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa, após ter estado ano e meio encerrado.
Para além de terem sido modernizados os sistemas de climatização, iluminação e segurança, as obras tiveram também como objectivo recuperar o espírito original do edifício inaugurado em 1969, reforçando o diálogo do interior com os jardins circundantes.
Neste momento, quem nos lê e eventualmente já esteja desabituado ao ritmo transversal de uma conversa, há de estar a perguntar-se sobre que raio tem a ver a reabertura do Museu Calouste Gulbenkian com o estudo sobre o declínio das conversas. A resposta certa é só uma, tudo.
O investigador Matthias Mehl refere no seu estudo que os museus são um excelente exemplo prático do fenómeno a que chama "caminhar em direcção ao silêncio". O declínio da palavra falada nestes locais deve-se a transformações profundas na nossa experiência cultural.
Segundo o investigador, dantes, visitar um museu envolvia interagir, fazer perguntas e conversar com a pessoa que nos acompanhava para partilhar sensações e impressões. Hoje, a norma é a utilização de audioguias, aplicações no telemóvel ou headphones individuais, isolando desse modo os visitantes numa bolha privada de consumo de informação.
Em vez de debaterem a beleza ou o significado de uma obra de arte com quem os acompanha, os visitantes passam grande parte do tempo a fotografar as peças ou a ler extensas descrições digitais nos ecrãs, transferindo assim a comunicação para o plano digital, facto que inevitavelmente reduz a probabilidade de existirem verdadeiras conversas.
No filme “Play It Again Sam”, a personagem interpretada por Woody Allen visita um museu acompanhado por uma amiga, que é interpretada por Diane Keaton. Conversam sobre Van Gogh, todavia, Woody repara numa bela rapariga que aprecia uma tela de Jackson Pollock.
Diane incentiva Woody a meter conversa com a moça. Ele aproxima-se dela e pergunta-lhe o que lhe sugere aquela obra de Jackson Pollock, ao que ela responde o seguinte: “A negatividade do universo. O horrível vazio da existência. O nada. O dilema do Homem forçado a viver numa eternidade estéril e sem Deus, como uma pequena chama a tremeluzir num vazio imenso, cercado apenas pelo desperdício, pelo horror e pela degradação, como se preso numa camisa de forças inútil e sombria, num cosmos negro e absurdo”.
Diante desta visão niilista e profundamente pessimista sobre o vazio da existência e a negatividade do universo, Woody pergunta à moça, assim em estilo de convite, o que vai ela fazer no próximo sábado, ao que ela lhe diz que se vai matar. Woody reformula então a questão, e pergunta-lhe se porventura estará disponível na sexta-feira.
O quadro de Pollock diante do qual decorreu esta interessante conversa, é este abaixo, “Guardians of a Secret”.
É no jardim de esculturas do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (o MoMa) que num outro filme, “Manhattan”, há uma outra interessante conversa. Neste caso, os personagens presentes são três, um recém constituído casal, Mary e Yale, e um velho amigo deste último, Isaac.
Mary olha para uma escultura moderna e diz o seguinte: “Para mim, isto é puramente textural. Sabes o que quero dizer? É perfeitamente desprovido de qualquer conteúdo estrutural básico. Para mim, falha totalmente. É... é simplesmente um objecto de plexiglass com um formato interessante, mas nada mais.”
A isto Yale responde: “O Sol LeWitt é sobre-avaliado. Na verdade, ele é um forte candidato à Academia”. Perante tais afirmações Isaac fica perplexo e diz: “O quê? À academia de quê?”. Mary esclarece-o dizendo: “O Yale e eu inventámos a Academia dos Sobre-Avaliados. Destina-se a celebridades artísticas que...que…tu sabes.”
Confrontado com a ignorância e a descontraída arrogância de Mary, Isaac reage com o seu habitual humor, defendendo a importância desses artistas de forma sarcástica, e chamando-a desdenhosamente “uma daquelas intelectuais de Nova Iorque".
Mais à frente na narrativa, Mary e Isaac encontram-se no Museu Guggenheim, e mais uma vez conversam. Como era expectável estão novamente em desacordo. Diz Mary: “As coisas que estão aqui ... são uma autêntica porcaria”. Isaac não se fica e responde em tom sarcástico: “Uma porcaria? Isso é um termo demasiado erudito para mim”.
O debate prossegue e a dado momento Mary diz a Isaac que ele é exageradamente racional: “Tens uma perspetiva puramente analítica. Pensas demasiado. O cérebro é o mais sobre-avaliado de todos os órgãos”.
A isto Isaac reage com o seguinte comentário: “O cérebro é o órgão mais sobre-avaliado de todos? (Olha para ela, incrédulo). O cérebro é o meu segundo órgão favorito.”
Abaixo “Princess X”, uma famosa obra do célebre escultor Constantin Brancusi, que muito provavelmente terá algumas semelhanças com o órgão favorito de Isaac, apesar de ele não ter dito explicitamente qual tal órgão será.
O facto é que tempos mais tarde, e mesmo apesar das suas discordâncias artísticas, Isaac e Mary envolveram-se romanticamente, provavelmente porque ambos gostavam de conversar.
Ora bem, aqui chegados, já todos percebemos como os museus de Nova Iorque são excelentes lugares para se ter conversas, contudo, não menos o são os de cá, os da nossa amada pátria, razão pela qual, voltamos então ao Museu Calouste Gulbenkian.
Algo que há a dizer, é que um museu não é o mesmo que uma galeria de arte ou um centro de exposições. A estes últimos vai-se para ver mostras temporárias e as novidades, a um museu vai-se uma vez, outra, mais uma vez e continuamente ao longo da vida. Um museu é no fundo, um sítio a que se regressa.
Talvez tenhamos ido pela primeira vez ao Museu Calouste Gulbenkian ainda em crianças numa qualquer visita de estudo. Provavelmente, nesse momento gostámos sobretudo do quadro de Édouard Manet, no qual se vê um miúdo de olhar traquina, que tem em sua posse umas quantas cerejas vermelhas e sumarentas.
Olhando para o quadro, quase podemos antever a cena subsequente, em que o rapaz trará as mãos à boca e ficará inevitavelmente lambuzado de vermelho.
No entanto, ao voltarmos ao museu uns bons anos mais tarde, e diante do mesmo exacto quadro, a nossa perspectiva já era outra. Sabíamos que por detrás da imagem alegre do rapaz que espreita com um barrete vermelho e um punhado de cerejas, esconde-se uma historia profundamente trágica.
O jovem retratado chamava-se Alexandre, trabalhava no atelier de Manet a limpar pincéis e ocasionalmente posava para as suas telas. Pouco tempo após posar para este quadro, Alexandre entrou numa depressão severa e acabou por se enforcar no próprio atelier do pintor. O episódio chocou profundamente Manet, que mudou de espaço de trabalho logo em seguida.
Significa isto, que a nossa perspectiva muda, e não apenas pelo decorrer do tempo, mas também com o que vamos aprendendo e sabendo. Só este assunto já daria para extensas e intensas conversas, sendo uma pena se estas nunca chegassem a existir em consequência dos visitantes do Museu Calouste Gulbenkian estarem tão condicionados pelos seus dispositivos tecnológicos, que já poucas palavras saibam dizer.
Para combater o isolamento tecnológico e o declínio da fala descritos por investigadores como Matthias Mehl, muitos museus mudaram radicalmente a sua arquitectura, a sua programação e a forma como acolhem os visitantes.
Por exemplo, há museus que substituíram as visitas guiadas rígidas, onde apenas uma pessoa fala, e os audioguias digitais, por mediadores. A função destes profissionais não é fazer um monólogo didáctico, mas sim iniciar conversas abertas com os visitantes, estimulando-os a partilhar o que pensam e sentem quando estão perante uma determinada obra de arte.
Um outro exemplo, é a introdução de eventos de carácter transdisciplinar como
música ao vivo, performances de dança, oficinas práticas e debates informais, tudo actividades que quebram o formalismo clerical dos museus, fazendo com que as barreiras do silêncio caiam e as conversas surjam de forma natural e espontânea.
Sabe-se que um tema de muitas conversas casuais é o tempo, se faz frio ou calor, se vai estar chuva ou fazer sol. É portanto esse um tópico de conversa, que se pode muito naturalmente ter no Museu Calouste Gulbenkian diante do quadro abaixo do pintor francês Claude Monet, “O Degelo”.
Sabe-se que a equipa de mediação cultural do Museu Calouste Gulbenkian não quer que as pessoas visitem as salas em silêncio, quer, pelo contrário, que o museu seja um espaço de encontro, de questionamento e de debate, o mesmo é dizer, de conversas.
Neste contexto, nasceu o projecto “15-25 Gulbenkian”. Este projeto foi especificamente desenhado para a faixa etária que o estudo de Matthias Mehl identificou como a mais afectada pelo crescente silêncio: os jovens até aos 25 anos.
A Gulbenkian dá-lhes "as chaves do museu", convidando-os a criar a sua própria programação, a debater temas fracturantes da actualidade (crise climática, identidade, tecnologia, conflitos bélicos) e a organizar eventos onde a conversa está sempre presente.
Para aqueles que nos leem, que acompanhados querem visitar o Museu Calouste Gulbenkian para conversar, mas não pretendem participar em nenhuma actividade planeada, aqui deixamos a seguinte sugestão.
Coloquem-se diante do retrato de Hélène Fourment de Peter Paul Rubens, olhem para a riqueza dos tecidos e para a sumptuosidade do estilo barroco. Depois perguntem à pessoa (ou pessoas) que vos acompanha o seguinte: “Achas que a ostentação na arte barroca tinha o mesmo papel que a ostentação ostensiva das redes sociais de hoje em dia?”
Deixamos ainda uma última sugestão de conversa para o final da vossa visita. Façam um balanço da experiência digital versus a real, e ponham a seguinte questão a quem vos acompanha: “Se tivesses de escolher apenas uma imagem desta visita para guardar na memória, sem lhe tirar uma fotografia com o telemóvel, qual seria?”
E pronto é isto, a receita é simples, seja no Museu Calouste Gulbenkian ou noutro lugar, contra a desidratação verbal, arte.








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