A forma correcta de se escrever correctamente é corretamente e a forma correcta de se escrever correcta é correta. Palavras antigas como correctamente ou correcta deixaram de existir e foram substituídas por palavras tolas como corretamente e correta.
O que isto provocou foi o desfazer da ligação etimológica do português ao latim e a outras línguas europeias. Dito isto, nós estamos-nos nas tintas para o acordo ortográfico, pois gostamos de sentir, de escutar, de ler e de colocar nas palavras, em todas elas, os ecos, as memórias e as histórias das suas vidas e ancestrais origens.
Como é evidente, actualmente os professores ensinam nas escolas a ortografia oficial, essa que decorre do acordo. Assim sendo, é bastante provável que daqui a uns anos sejam muito raros os portugueses que saibam escrever bem.
É impossível escrever bem se porventura as palavras escritas não trouxerem consigo histórias, vozes e memórias. Provavelmente, daqui a uns tempos, o mais que se saberá é apenas escrever num português(?) correcto.
De uma coisa podemos estar todos certos, se muitos grandes escritores tivessem seguido os conselhos dos seus professores, o mais que seriam era medianos ou medíocres escribas.
Escrever bem não é somente uma graça de Deus, que ele concede a uns quantos eleitos, é efectivamente e também um processo, porém, quase sempre a escola falha em o ensinar, pois nela existe uma excessiva preocupação com as regras ortográficas e gramaticais, com a estrutura, a coerência e a sequência formal dos textos, e ainda com umas quantas coisas mais do mesmo exacto género.
Muitos serão os professores que dizem aos seus alunos que um texto deve ter sempre uma ordem, ou seja, um início, um desenvolvimento e um desfecho, todavia, talvez valesse também a pena de seguida citar-lhes Jean-Luc Godard: “Uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente por esta ordem.”
Na verdade, se tudo funcionar como é suposto, a escola ensina a mecânica da escrita, no entanto, escrever bem não é algo meramente mecânico, pois frequentemente quem melhor escreve são precisamente aqueles que subvertem totalmente essa mecânica.
Escrever bem na escola é ser obediente. Escrever bem na vida real é ser rebelde. A obediência às regras serve para garantir que o leitor nos entende, a rebeldia serve para garantir que o leitor nos sente.
E depois, ser rebelde na escola é coisa que não compensa, uma vez que na escola não se aprecia grandemente infrações e erros, sejam lá eles de que natureza forem, incluindo claro está, os na escrita.
Quando muito, tolera-se o erro com imensa paciência, como sendo este uma etapa inicial para se chegar ao correcto, agora o erro intencional, infractor e rebelde, é coisa bem pouco apreciada em contextos escolares.
Em resumo, na escola aprende-se a escrever correctamente, porém, escrever bem é coisa maior e diferente, que implica ter um carácter errante.
Faz agora trinta anos, que a poeta polaca Wisława Szymborska (1923-2012) recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Num seu muito bem escrito poema intitulado “Possibilidades”, a poeta diz-nos “Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem”, e depois diz-nos também “Prefiro o ridículo de escrever poemas / ao ridículo de não os escrever.”
O que a poeta nos diz nesses versos, é que a escrita, a verdadeira e não a meramente oficial e utilitária, essa dos burocráticos relatórios ou de textos anódinos, tem sempre em si algo de errante, ou seja, de caótico e ridículo.
Bem podem os professores na escola dizer que aprender a escrever é coisa importante e séria, e claro que o é, contudo, a escrita só atinge um nível sublime, quando com rebeldia se liberta de toda essa seriedade oficial e corteja o erro, o caos, a desordem e o ridículo.
Já agora, aqui fica o poema completo de Wisława Szymborska:
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em fila para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Entre 1953 e 1981, Wisława Szymborska chefiou a secção “Correio Literário” do semanário polaco “Vida Literária”. Szymborska foi durante esse período responsável pela apreciação de poemas, contos e outros textos que os aspirantes a poetas e a escritores lhe enviavam para a redacção.
A editora portuguesa Flâneur publicou agora algumas das respostas e conselhos que Wisława Szymborska enviou aos candidatos a escritores e poetas. Esse é um livro que vale bem a pena ler, para se aprender o que é, e sobretudo o que não é, escrever bem. Dir-se-ia que é um manual às avessas sobre como escrever (ou como não escrever).
Um dia, Szymborska recebeu na redação da revista uns poemas de uma rapariga já crescida, que dizia o seguinte: “O meu noivo diz que sou muito bonita para escrever boa poesia. Que pensa sobre os poemas que lhe envio?”.
Tendo lido os poemas da moça, a elegante resposta de Szymborska foi sintética: “Acreditamos que seja efectivamente uma mulher muito bonita.”
Como já terão percebido, Szymborska tinha uma certa veia humorística, coisa que nem sempre é muito bem vista. As pessoas ditas sérias têm uma certa tendência para não apreciar o riso e o humor, porém, o que essas pessoas ditas sérias não sabem e nem sequer desconfiam, é que o oposto da seriedade não é o humor, mas sim o desleixo disfarçado.
O mal é que não raras vezes, o desleixo anda disfarçado de seriedade, mascarando-se com nobres intenções e profundos e sisudos sentimentos. Na escrita, o desleixo usa fantasias rebuscadas ou vistosas, assim o fazem certas hipotéticas almas poéticas, que ao invés de como Szymborska cortejarem na sua boa escrita o caos, a desordem e o ridículo, cortejam antes a gravidade, a disciplina e a solenidade.
Com efeito, quando uma dessas pretensas almas poéticas é acometida por uma torrente de fervorosos pensamentos que a impelem a sentar-se e a colocar no papel a abrupta enxurrada de nexos e de imagens que lhe vêm à mente, podemos estar certos que o que daí vai sair é um texto, um conto ou um poema extremamente grave, sentimental e circunspecto. Em resumo, uma xaropada, uma coisa desleixada ainda que não o pareça.
Na verdade, toda essa seriedade, mais não é do que uma rebuscada fantasia ou uma vistosa máscara do desleixo. Enfim, Deus nos livre e guarde das pretensas almas poéticas.
A reacção de Szymborska a essas hipotéticas almas poéticas é irrepreensível. Por exemplo, um pretendente a escriba enviou-lhe para a redacção os seus poemas e muito intranquilo questionou-a se porventura estaria “sendo ou não suficientemente poeta”. A resposta de Szymborska foi simples: “Em primeiro lugar dever-se-ia preocupar se tem algo a dizer. Sob esse aspecto estes seus poemas são estéreis.”
Pelos vistos, Szymborska recebia frequentes cartas com ameaças: por favor diga-me se os meus textos têm algum valor, porque se não o tiverem acabou-se, rasgarei tudo, despedir-me-ei dos sonhos de glória, ficarei desesperado, vou duvidar de mim mesmo, terei um colapso, começarei a beber, deixarei de acreditar no sentido da minha própria existência, etc, etc, etc.
Nestes casos, o que quer que Szymborska viesse a responder poderia ser perigoso. Se respondesse que os poemas ou a prosa são maus, poderia desencadear uma tragédia. Se respondesse que são bons, o autor ia convencer-se de vez que escreve bem e em cada ocasião em que estiver inspirado, insistirá em pôr por escrito as baboseiras que lhe vão pela alma.
O que a Szymborska não agradava, era que alguém pelo mero facto de gostar muito de escrever, se pusesse efectivamente a fazê-lo, ostentando pretensões poéticas e literárias. A dado momento faz a seguinte consideração: “E, no entanto, para alguém se tornar um sapateiro decente, não lhe basta ser um entusiasta do pé humano.”
Mas vejamos agora três dos bons e pertinentes conselhos, que Szymborska deu a quem bem escrever queria. Conselhos esses, que em certa medida vão em sentido oposto àqueles oficiais, que na escola dão os professores. Mas que importa isso? Na escola aprende-se a escrever com regras e correcção, lendo Szymborska aprende-se esse bem escrever que roça o caótico e o ridículo.
Primeiro, a autora acreditava que o poeta não deve explicar tudo ao leitor e criticava duramente os poemas tagarelas e didácticos. Para ela, a poesia vive do que fica por dizer.
Segundo, Szymborska combatia firmemente o sentimentalismo e o uso de adjectivos grandiloquentes, como por exemplo, "infinito", "eterno" ou "sagrado".
E terceiro, umas das suas maiores objecções aos pretensos poetas era a fixação que estes possuem por temas como a Dor, a Morte e o Amor com letra maiúscula. Ela defendia que a verdadeira literatura nasce dos objectos banais e da observação do comum quotidiano.
Para finalizarmos esta nossa viagem, teremos um outro poema de Wisława Szymborska, este intitulado “Despedida de uma paisagem”, que foi escrito em 1993, após a morte do escritor Kornel Filipowicz, o grande amor da sua vida.
Fiel aos conselhos que dava no “Correio Literário”, Szymborska evita o luto dramático, os gritos de dor e o desespero grandiloquente. Ao invés disso, fala-nos de forma contida sobre a indiferença da natureza perante a sua perda: “Não reprovo a primavera/ por começar de novo. / Não a culpo pelo facto /de cumprir a cada ano a sua obrigação.”
Uma hipotética alma poética tenderia a escrever que "o mundo perdeu a cor" ou que "o sol já não brilha", Szymborska faz o oposto, reconhece e aceita que no exterior tudo continua belo: “Não tenho rancor / da vista pela vista / da baía resplandecente de sol.”
A memória do amado Kornel Filipowicz não é invocada através de considerações metafísicas, mas sim através de simples elementos comuns da paisagem que outrora partilharam, como as águas de um rio ou a margem de um certo lago.
O poema termina com uma ruptura. O eu lírico decide não regressar ao lugar da sua própria dor. Ao abdicar do "privilégio da presença", Szymborska deixa um espaço em branco, um silêncio, a imensidão de uma ausência. Ela não precisa dizer "estou destroçada", é a própria paisagem, que continua intacta, que de forma subliminar o diz.
Aqui fica o muito bem escrito poema:
Não reprovo a primavera
por começar de novo.
Não a culpo pelo facto
de cumprir a cada ano
a sua obrigação.
Entendo que a minha tristeza
não deterá o verde.
Uma folha de relva, se oscila,
é só ao vento.
Não me causa dor saber
que os amieiros sobre as águas
têm de novo com que sussurrar.
Reconheço que
– como se ainda vivesses –
a margem de certo lago
segue bela como era.
Não tenho rancor
da vista pela vista
da baía resplandecente de sol.
Consigo até imaginar
outros, não nós,
sentados neste instante
no tronco de bétula caído.
Respeito o direito deles
ao sussurro, ao riso
e a um silêncio feliz.
Presumo até
que estejam apaixonados
e que ele a enlace
com um braço vivo.
Algo novo esvoaçante
farfalha na folhagem.
Meu desejo sincero
é que eles o ouçam.
Nenhuma mudança exijo
das ondas costeiras,
ora ligeiras ora lânguidas,
e que não me obedecem.
Nada reclamo
das águas profundas junto ao bosque,
ora esmeralda,
ora safira,
ora negras.
Só uma coisa não aceito.
A minha volta para lá.
Ao privilégio da presença –
renuncio.
Sobrevivi-te
só o bastante
para pensar de longe.






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