Fazem-se actualmente mais fotografias num só dia, do que no século XIX inteiro e em várias décadas do século XX combinadas, e isto já para não referir épocas anteriores.
A verdade é que nunca houve tantas fotografias, calcula-se que sejam tiradas entre 5 a 6 mil milhões de fotografias por dia, o mesmo é dizer, cerca de 60.000 fotos por segundo em todo o mundo.
Somos diariamente confrontados com essa avalanche de imagens fotográficas, umas chegar-nos-ão por razões pessoais, outras por motivos profissionais e as demais terão objectivos publicitários, informativos ou de mero entretenimento.
Muito mais raro é vermos imagens fotográficas por razões estéticas ou artísticas. Sim, embora haja muito quem o faça, ainda assim não é a coisa mais comum deste mundo, olharmos para fotos como sendo estas obras de arte.
Uma obra de arte, ao contrário dos milhões de imagens que se produzem todos os dias, requer tempo para que a contemplemos, ou seja, uma boa fotografia artística não é para ser vista no contexto do scroll infinito. Abaixo uma imagem de 1932 da autoria de Henri Cartier-Bresson.
Henri Cartier-Bresson venceu o Prémio Hasselblad em 1982, sendo que este é considerado o prémio internacional de fotografia mais prestigiado do mundo, é como se fosse o Nobel da fotografia.
Falamos do Prémio Hasselblad porque este pode ser uma espécie de guia, para quem queira olhar para fotografias que são obras de arte e não apenas imagens. Ao percorrermos a lista dos vencedores do dito prémio, encontramos o nome de alguns dos melhores fotógrafos de sempre, sendo essa uma boa forma de sabermos quais são as mais belas fotografias artísticas que existem.
Nós percorremos essa lista e escolhemos algumas das fotos de que mais gostamos. Aquelas que escolhemos, são imagens que vão num sentido oposto aos milhões de outras com que os jornais, as TV’s e as redes sociais nos bombardeiam todos os dias.
Todas essas imagens que nos chegam em catadupa caracterizam-se pelo seu imediatismo e por serem extremamente explícitas, espectaculares, muito emocionais e por desejarem ardentemente capturar a atenção de alguém, nem que seja por uns meros segundos.
No fundo, são imagens que gritam “estou aqui, olhem para mim”. Nós escolhemos fotografias de um outro tipo, das quais se desprende uma espécie de poesia visual, um silêncio meditativo.
Em 1998, o vencedor do Prémio Hasselblad foi o fotógrafo norte-americano William Eggleston, sendo que, a imagem desse autor de que mais gostamos é esta abaixo, “The Red Ceiling”. É uma foto fascinante.
Eggleston defendia um olhar "democrático" onde todos os assuntos, por banais que fossem, tinham o mesmo valor. “The Red Ceiling” é amplamente considerada a sua mais marcante fotografia. A imagem retrata um tecto pintado com um vermelho vibrante e visceral, que contrasta com os fios eléctricos brancos e com uma única lâmpada incandescente nua.
Apesar da sua forte cor, nada em “The Red Ceiling” grita ou é espectacular, vemos tão simplesmente um vulgar tecto, uma mera lâmpada e fios, todavia, nesta imagem há poesia.
Vejamos uma outra imagem. A holandesa Rineke Dijkstra venceu o Prémio Hasselblad em 2017. A artista viajou por Portugal onde desenvolveu um trabalho em locais emblemáticos da cultura tauromáquica, tentando capturar a vulnerabilidade humana após um momento de extremo esforço e perigo.
Em 1994 Rineke Dijkstra passou duas semanas a fotografar forcados amadores de Vila Franca de Xira imediatamente após saírem da arena. O seu objectivo era registar o contraste entre a pose formal e os traços reais da experiência física: o suor, a exaustão, a dor e o sangue.
Os retratos frontais desconstroem a pose arquetípica do herói invulnerável, revelando pelo contrário a fragilidade, o choque e a humanidade crua, após uma experiência limite de quase-morte e de camaradagem.
Os retratos de Rineke Dijkstra dão a ver pessoas, mas de um modo completamente oposto, às poses dos retratos que muitos apresentam nos seus perfis digitais.
Vamos a um outro fotógrafo vencedor do Prémio Hasselblad, Lee Friedlander, venceu-o em 2005. Nós gostamos de Friedlander pela forma como ele utilizava as vitrines das lojas, as janelas e os espelhos para sobrepor o interior e o exterior das ruas de Manhattan.
As suas composições quebravam intencionalmente as regras tradicionais da fotografia e incluíam elementos fragmentados que criavam imagens complexas e dinâmicas.
Na fotografia abaixo, “Revolving Door” de 1963, em vez de isolar os sujeitos, Lee Friedlander usa os caixilhos de metal e as transparências do vidro para criar molduras dentro de molduras. O resultado é uma composição geométrica quase labiríntica, onde o espaço público e o privado se fundem de forma totalmente ambígua, o mesmo é dizer, não explícita.
Nas fotografias de Friedlander estamos muito longe dos milhões de fotografias onde tudo é explícito e pode literalmente ser visto e compreendido em dois segundos.
A francesa Sophie Ristelhueber venceu o Prémio Hasselblad em 2025. Afastando-se do fotojornalismo tradicional, a sua prática foca-se nas marcas, ruínas e cicatrizes deixadas por conflitos armados ou catástrofes naturais na paisagem.
Em vez de documentar a violência imediata, Ristelhueber capta o rescaldo e a memória do que sucedeu. O seu trabalho aproxima-se frequentemente da abstração, transformando superfícies feridas em representações de vestígios, cesuras ou texturas.
Contemplando as suas fotos, sabemos que houve um qualquer acontecimento violento e traumático, porém, não o vemos explícita e pornograficamente exibido.
Um outro vencedor do Prémio Hasselblad foi Joan Fontcuberta, que o venceu em 2013. As suas criações mais célebres assentam em farsas brilhantemente orquestradas que expõem a fragilidade da nossa credulidade.
Em 1997, o artista criou a narrativa de Ivan Istochnikov, um cosmonauta soviético que teria desaparecido misteriosamente no espaço em 1968 e cujos vestígios foram apagados pelo regime comunista. Istochnikov era, na verdade, o próprio Fontcuberta disfarçado, mas a história foi tratada como facto histórico verídico por vários órgãos de comunicação social da época.
Antes, em 1984, Joan Fontcuberta utilizou detritos industriais e urbanos, cordas, plásticos e restos de plantas, para moldar e fotografar pseudo-espécies vegetais com o aspecto rigoroso da fotografia científica-botânica.
Fotografadas em estúdio, a preto e branco, contra um fundo neutro e com uma iluminação suave e cirúrgica, as falsas plantas ganham uma elegância inquestionável. Em boa verdade, se uma imagem de um pedaço de plástico retorcido for exibida num museu com uma etiqueta em latim, o cérebro dos visitantes processa-a imediatamente como uma maravilha da botânica.
Joan Fontcuberta demonstrou assim como a técnica fotográfica consegue conferir beleza, dignidade e vida a objectos decorrentes da poluição e do desperdício humano.
E pronto, com Fontcuberta terminamos esta nossa apresentação de algumas imagens fotográficas que são também e sobretudo, obras de arte. Vale a pena contemplá-las para limparmos o olhar desses milhões de fotografias que diariamente se produzem, mas que genericamente nada têm de poético ou de artístico.
Já agora, e mesmo para acabar, a foto inicial é de Graciela Iturbide, a mexicana vencedora do Prémio Hasselblad em 2008.







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