Hoje vamos contar-vos histórias de pessoas extraordinárias e de fantásticos acontecimentos e inventos. Falaremos aqui de gente e de eventos tão fenomenais, que parecem ser inacreditáveis.
Estranhamente tudo isso foi esquecido ao longo do tempo e actualmente ninguém se recorda desses prodigiosos indivíduos e dessas sensacionais ocorrências, que agora vamos lembrar e evocar.
Se procurarmos o seu nome numa enciclopédia ou na internet, não o iremos encontrar, é como se Jean-Luc Marcel (1902–1968) nunca tivesse sequer existido. É um imenso mistério, a forma como quer a sua obra, quer até o próprio nome deste escritor, não se descobrem em lugar algum.
Jean-Luc Marcel foi um poeta, contista e ensaísta francês. Consideravam-no uma das vozes mais viscerais e independentes do movimento surrealista parisiense. Tinha um temperamento errático e celebrizou-se pela publicação de um livro de contos intitulado "O Manifesto da Carne Insubmissa" (1929), obra em que contava histórias de órgãos do corpo humano, que possuíam desejos independentes da mente do indivíduo a que pertenciam.
Marcel viveu toda a sua existência sozinho num apartamento repleto de conchas marinhas, relógios sem ponteiros e manequins de cera, tendo nele falecido em 1968.
Façamos um resumo de um dos seus mais surreais contos:
“O umbigo estava cansado de o ser, pois era apenas uma cicatriz concêntrica, um quase nada no meio do deserto da barriga. Ele escutava segredos que vinham de mais abaixo. Sabia que, alguns centímetros a sul, existia um abismo húmido e sagrado, um portal desejável: a vagina.
O umbigo não queria ser apenas a memória de um cordão umbilical cortado, queria ser o próprio início, queria a profundidade. Numa noite de eclipse lunar, procurou o seu destino e uma fusão começou. O umbigo alcançou a humidade interior, o calor que gera marés e mitos.
Ao amanhecer, a transformação completara-se. O umbigo já não era um nó de carne tinha-se tornado numa fenda vertical, tão profunda e abismal, como um pensamento a desabrochar na mente de um poeta louco.”
Falemos agora de um outro personagem esquecido, Ivan Istochnikov, um cosmonauta soviético que desapareceu misteriosamente no espaço em 25 de Outubro de 1968, a bordo da nave Soyuz 2, juntamente com a sua cadela Kloka.
Nascido na União Soviética, Ivan Istochnikov teve uma carreira militar exemplar, tornando-se ainda novo coronel e piloto da Força Aérea. Ivan era um pioneiro cósmico, alguém que acreditava ser possível ir-se sempre ainda mais longe. Tinha uma alma aventureira e sua confiança era inabalável.
No entanto, nessa viagem a bordo da nave Soyuz 2 algo falhou. O quê, não se sabe. Para não admitir o fracasso de uma missão em plena corrida espacial contra os Estados Unidos, o governo soviético (o Kremlin) eliminou sistematicamente todos o traços da existência do cosmonauta.
Apagou o seu rastro dos documentos oficiais, retocou fotografias históricas para o remover da imagem e forçou a sua família ao isolamento e ao mais absoluto silêncio sobre tudo o que sucedeu.
Abaixo, à esquerda uma das poucas imagens que restam do cosmonauta Ivan Istochnikov. À direita vemos outras duas imagens, na primeira, na original, ele aparece, na segunda, a retocada, a sua figura foi eliminada.
O escritor Jean-Luc Marcel e o cosmonauta Ivan Istochnikov tiveram o mesmo destino póstumo, ou seja, o total esquecimento. Outro tanto aconteceu ao zoólogo germânico Dr. Peter Ameisenhaufen.
O Dr. Peter Ameisenhaufen nasceu em Munique no ano de 1895. Estudou medicina e ciências naturais e desde cedo demonstrou um interesse profundo pela zoologia evolutiva e por anomalias morfológicas que desafiavam as teses de Charles Darwin.
Ameisenhaufen defendia teorias consideradas "heréticas" pela comunidade científica da sua época. Ele não acreditava numa evolução linear e gradual, mas sim em metamorfoses drásticas, argumentando que a natureza criava formas de vida complexas e bizarras que a ciência tradicional insistia em ignorar ou esconder.
Para provar as suas teorias, passou grande parte das décadas de 30 e 40 do século XX a viajar pelo mundo em expedições secretas e solitárias. Nos seus cadernos de apontamentos, o Dr. Ameisenhaufen documentou viagens a locais remotos e inóspitos, onde alegava ter descoberto espécimes vivos de animais híbridos, como por exemplo, répteis voadores e mamíferos com características de anfíbios.
Em 1955 enquanto realizava pesquisas na Suécia, o Dr. Ameisenhaufen desapareceu subitamente sem deixar vestígios. Todos os seus diários, cadernos, fotografias, relatórios, radiografias e gravações ficaram trancados e esquecidos num arquivo privado na Suécia.
Porém, em 1980 esse arquivo foi descoberto, vindo-se então a saber que dele constavam imagens de animais bizarros como, entre outros, uma serpente com doze patas que paralisava as suas presas com um assobio agudo, uma espécie de macaco com asas e um chifre de unicórnio na testa, e ainda um esquilo com patas de pato e cauda de cobra.
Abaixo uma das imagens descobertas no arquivo esquecido do Dr. Ameisenhaufen.
Apesar do seu arquivo ter sido redescoberto há décadas, o Dr. Peter Ameisenhaufen permanece um desconhecido no mundo científico e não só. Na verdade, o seu destino póstumo não foi diferente daqueles que tiveram o escritor Jean-Luc Marcel e o cosmonauta Ivan Istochnikov, a saber, o completo olvido.
O que é certo, é que a História contada nos manuais e enciclopédias, está condicionada pelos decretos, interesses e vontades das autoridades. A História nunca nos fala daqueles que, por alguma razão, não se enquadram na narrativa oficial.
Alguém como Jean-Luc Marcel, que escrevia imorais contos em que um umbigo se metamorfoseia numa vagina, estava condenado a ser esquecido. De mesmo modo, um cosmonauta aventureiro desaparecido no espaço estava destinado a que a sua história fosse apagada. De forma idêntica, um zoólogo com teorias consideradas heréticas pela ciência oficial iria inevitavelmente cair na mais total obscuridade.
Sim, a História, a Ciência, a sociedade, as universidades, os governos e as autoridades, e a moral e os bons costumes não apreciam aventuras, divergências, originalidades e outras inconveniências, razão pela qual, Jean-Luc Marcel, Ivan Istochnikov e o Dr. Peter Ameisenhaufen foram condenados ao oblívio.
As três personagens históricas que já referimos, são hoje em dia quase totalmente desconhecidas, todavia, a personagem de que vamos em seguida falar ainda o é mais.
Com efeito, o seu atrevimento conceptual, artístico e científico foi mais além de que todos os restantes, tendo por isso, e muito previsivelmente, sido remetido pela História oficial ao mais completo esquecimento.
Corria um vento gelado num dia de Inverno no ano de 1888. O vento soprava forte contra as janelas do laboratório e atelier de Miloš Horáček, situado num beco sombio do bairro de Holešovice em Praga.
Miloš era simultaneamente cientista e artista, e era em ambas as áreas bastante respeitado. A sua vida mudou quando nesse dia recebeu a visita do velho Conde Erich Von Schlick, um aristocrata austro-húngaro com a saúde já debilitada, mas cujo apetite pelas cortesãs dos teatros de Praga se mantinha intacto.
Ao Conde Erich Von Schlick, os médicos diziam-lhe que o coração não aguentaria o esforço, mas ele recusava-se a morrer num mar de tédio, por isso pediu a Miloš que criasse uma cadeira na qual o seu corpo não fizesse esforço, mas onde o prazer fosse absoluto.
Miloš aceitou a encomenda. Passou meses trancado, desenhando esquemas que misturavam ciência e arte. O resultado foi a secretamente baptizada “Cadeira de Praga”.
Diferente de qualquer móvel da época, a invenção de Miloš era uma obra-prima. O artista-cientista criou linhas anatómicas que abraçavam o corpo humano, concebeu um complexo sistema que permitia uma coreografia fluida, sem esforço para duas pessoas em perfeita harmonia espiritual e física.
O Conde Erich Von Schlick ficou satisfeitíssimo e posteriormente a fama da "Cadeira de Praga" espalhou-se rapidamente pela alta sociedade de Viena, Budapeste e Paris. No entanto, numa madrugada de denso nevoeiro, a polícia secreta arrombou a porta do laboratório e atelier de Miloš.
Sob ordens directas do próprio imperador, confiscaram o protótipo da “Cadeira de Praga” e todos os desenhos originais e esquemas preparatórios foram queimados. Segundo as autoridades, tratou-se tão-somente de uma operação de apreensão de material subversivo capaz de corromper a moral pública e a própria dinastia imperial.
Como consequência dessa ação policial, o legado de Miloš Horáček como criador da erótica “Cadeira de Praga” foi obliterado e a História esqueceu-o para todo o sempre.
Aqui chegados, um “twist”, o cosmonauta soviético Ivan Istochnikov e o zoólogo germânico Peter Ameisenhaufen nunca existiram, são personagens fictícios inventados pelo fotógrafo catalão Joan Fontcuberta.
Como nós não quisemos ficar atrás de Fontcuberta, criámos para este texto o escritor francês Jean-Luc Marcel e o artista-cientista checo Miloš Horáček, que também nunca existiram. Fomos nós, os que aqui escrevemos, que os inventámos.
Fontcuberta é um dos mais consagrados fotógrafos da actualidade, a sua obra é marcada por uma profunda reflexão crítica sobre a imagem, utiliza frequentemente a paródia, a ironia e a farsa para questionar a veracidade da fotografia e desconstruir a ideia de que uma imagem serve como prova irrefutável da realidade.
A premissa artística de Fontcuberta é desafiar o público a questionar aquilo que vê e a desconfiar da fotografia enquanto "prova irrefutável do real".
Fontcuberta ataca o mito histórico de que "a câmara não mente". O autor utiliza a metáfora bíblica do beijo de Judas para ilustrar a natureza traiçoeira da imagem. A fotografia apresenta-se com uma promessa de fidelidade à realidade (documento, prova, verdade), mas em segredo, como Judas, consuma uma traição irremediável.
O que Fontcuberta faz é explorar o lado obscuro das imagens fotográficas. Acredita-se que a fotografia é a verdade, mas não. Fontcuberta usa a fotografia para nos mostrar que nada é o que nos mostram. Não há verdade nas imagens, pois nelas literalmente tudo é manipulável.
As imagens que acompanham este texto são todas de Joan Fontcuberta, fotógrafo que anda nestes dias por Lisboa. No Museu da Água podemos actualmente ver a exposição “Wunderkammer”, onde o artista nos apresenta uma série de obras que questionam as fronteiras entre a realidade e a ficção, e colocam em causa a veracidade das imagens fotográficas.
Assim sendo, é ir, pois a exposição no Museu da Água existe mesmo, não fomos nós que a inventámos.







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