Quem porventura creia que a cultura da ostentação, da desgraça e do exagero começou com as chamados redes sociais, fica a saber que já no século XVII nada excitava tanto as gentes como um bom, aparatoso e grandioso drama.
Nesse tempo, quem não estivesse a chorar copiosamente ou a desmaiar de descomedida emoção, não ardesse de angústia ou não ostentasse uma imensa desesperança existencial, estava pura e simplesmente condenado a que ninguém lhe ligasse nenhuma, a que o olhassem com distância, frieza e indiferença.
O século XVII foi pois o auge do grandioso estilo barroco, esse movimento artístico, político e religioso configurado pelo exagero, pela ostentação, por bruscos e dramáticos contrastes e pela busca incessante por chocar, emocionar e impressionar o público.
Na verdade, o estilo Barroco nasceu como um dispositivo comunicacional, ou seja, como uma ferramenta artística da igreja católica para impressionar e reconquistar os fiéis perdidos para o protestantismo, através da sumptuosidade e do drama.
Por exemplo, a pintura barroca caracterizava-se pelos seus tons fortemente contrastantes, por retratar rostos e corpos plenos de intensos sentimentos e, fundamentalmente, pela sua total atmosfera teatral.
Hoje, qualquer utilizador consegue com a câmera fotográfica do seu smartphone, erguer instantemente um palco neo-barroco. Nas imagens digitais, a vida quotidiana como que se transformou num teatro contínuo.
Almoços, passeios, treinos ou momentos de lazer são encenados e coreografados para a audiência digital. Já não basta apenas viver uma experiência, é preciso teatralizá-la e torná-la numa airosa imagem para consumo visual dos demais.
A esse propósito, vejamos as duas imagens seguintes. Primeiro esta pintura abaixo do pintor barroco italiano Guido Reni (1574-1642):
Em seguida vejamos esta imagem digital de autor anónimo, na qual se vê alguém numa carruagem do metro rodeado pelos restantes passageiros.
Comparando as duas imagens acima, é quase impossível não reparar nas suas evidentes semelhanças. Na primeira, São Pedro envolto em contrastantes tons, ergue dramaticamente os olhos para os céus. Na segunda, um passageiro do metro, também enquadrado num contraste de luz e obscuridade, levanta igualmente de forma teatral o olhar para o alto.
Sim, o século XXI encontrou no ecossistema digital um palco ideal para a ressurreição do barroco como forma estética e comportamental. Com efeito, as redes sociais operam segundo uma lógica profundamente barroca, onde tudo é encenação, espectáculo e emoção.
O período barroco e as actuais plataformas digitais, partilham uma lógica idêntica, a saber: é necessário chocar, dramatizar e exagerar para cativar. É essa a razão pela qual, a cultura digital exige títulos hiperbólicos, cores saturadas e narrativas excessivas.
O ser humano digital do século XXI partilha as mesmas aflições do homem barroco, uma busca desesperada por pertença, a contradição constante entre os seus desejos e as suas máscaras sociais, e a necessidade de gritar e ostentar o seu próprio drama para garantir que o mundo o veja.
No século XVII, a queda de figuras poderosas era um tema central de tragédias e pinturas barrocas, servindo como um aviso moral sobre a vaidade humana. No século XXI, o que mais sucesso viral faz é quando os poderosos modernos caem na praça pública digital, sob o olhar atento e implacável de milhões de espectadores.
O Barroco rejeitava a moderação e adorava os extremos, nesse contexto, ou bem que os fortes e poderosos eram retratados em plena glória, na sua mais perfeita apoteose, ou bem que pelo contrário eram representados em total e absoluta decadência, quando completamente derrotados, a sua queda era definitiva e irrevogável.
Abaixo uma das últimas obras de Caravaggio (1571-1610), na qual vemos o antes poderoso Golias, agora vencido. A característica mais marcante desta pintura é que a cabeça decepada de Golias, é o próprio rosto de Caravaggio.
Cansado, decadente e com um olhar sem vida, o pintor encena-se e exibe-se pictoricamente como um homem extenuado pelos seus excessos e consumido pela culpa. Em síntese, estamos perante uma obra de arte inteiramente barroca.
Tal como no período barroco, também actualmente, no século XXI, existe uma apetência extrema por imagens teatralizadas de poderosos, santos ou heróis caídos em desgraça. Olhemos por exemplo, para esta que se segue:
Na arte barroca, o conceito de “Vanitas” relembrava que a beleza, a riqueza e a fama são meras ilusões, coisas passageiras. Eram muitas as obras de arte desse período em que se exibiam naturezas-mortas com frutas podres, velas a apagar-se, crânios ou ampulhetas, para que vendo-as tomássemos consciência de que o nosso tempo é finito e que, em última instância, é verdade o que se diz no Eclesiastes:
“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança entre os que hão de vir depois.”
Nas redes sociais, são também muitas as imagens que seguem a métrica da ostentação e da vaidade, sendo que, a ilusão de invulnerabilidade digital faz com que o poderoso, o santo, o herói ou até a pessoa comum, esqueçam a fragilidade da sua condição.
Quando um poderoso, um santo ou um herói digital, ou inclusivamente um vulgar cidadão, comete um erro ou um deslize, o tribunal da internet não pede apenas que ele se desculpe, exige assistir ao espectáculo da sua ruína.
O linchamento virtual é a moderna coreografia da humilhação, onde a audiência assume o papel de juiz e carrasco. Nas redes sociais, não há espaço para o erro humano ou para a redenção, tal como no Eclesiastes, a sentença é fatal e só uma: tudo é vaidade.
A queda dos poderosos, santos, heróis e pessoas comuns na internet prova que, apesar do método ter mudado, a nossa obsessão pelo drama, pela moralidade punitiva e pela ruína alheia permanece idêntica à do homem do século XVII.
O ecrã do smartphone é apenas o novo teatro barroco onde assistimos fascinados ao fim dos nossos próprios mitos e aos dos outros.
Se há um conceito que une umbilicalmente o Barroco e a era dos algoritmos, esse conceito é o da ostentação. No século XVII, a exibição de riqueza e poder era uma linguagem política e religiosa, as igrejas cobriam-se de talha dourada e a nobreza exibia palácios e trajes sumptuosos para demonstrar a sua proximidade com o divino e que estava no topo da hierarquia social.
No século XXI, toda essa sumptuosidade foi digitalizada. A ostentação está hoje na internet ao alcance de qualquer um, ainda que não o esteja na vida real. Por assim ser, quem não pode exibir poder, riqueza e fama, exibe o seu “lifestyle”, o que comeu ao almoço, o sítio para onde viajou, a festa de aniversário ou então simplesmente um sorriso feliz e satisfeito.
O homem barroco temia o vazio nas paredes, preenchendo-as com excessos decorativos, anjos, colunas retorcidas e ornamentos. Nas redes sociais, o “horror vacui” manifesta-se como o medo de se ser irrelevante ou invisível.
Quem não exibe as novidades, as conquistas ou os consumos, teme ser esquecido. A ostentação torna-se, assim, uma estratégia de sobrevivência na economia da atenção. Ostenta-se para provar que se existe, que se é bem-sucedido e que se está de bem com a vida.
No entanto, não raras vezes tudo isso é somente uma ilusão, que entra em contradição com a realidade quotidiana, alimentando desse modo uma mistura psicológica tipicamente barroca de devoção, desejo e frustração.
Esta tríade psicológica, devoção, desejo e frustração, tanto move o fiel do século XVII diante de um altar dourado, quanto o utilizador do século XXI diante do ecrã de um smartphone. Vejamos esta tríade de forma mais detalhada.
A devoção é o culto à imagem, no passado direccionado a santos, heróis e poderosos, hoje dirigido a novos ídolos e seguindo religiosamente as suas rotinas, rituais e recomendações como se estas fossem dogmas para alcançar a felicidade.
O desejo nunca é um sentimento pacífico ou harmonioso no barroco, é sempre uma força violenta, contraditória e dilacerante. O homem barroco é um ser profundamente cindido, deseja desesperadamente os prazeres da carne, da terra e dos sentidos, mas é assombrado pela culpa cristã, pelo medo do inferno e pela certeza da morte.
O desejo no mundo digital do século XXI, surge quando o espectador olha para a vida idealizada no ecrã e deseja-a para si, o corpo perfeito, a viagem paradisíaca ou um estatuto inabalável. Alcançando pouco ou nada do que deseja, o homem do presente século, tal como o do barroco, torna-se sombrio, revoltado e zangado, ou então culpa-se, acha-se um falhado e entra em depressão.
A maior tragédia do desejo no Barroco é a descoberta de que tudo é perecível. É a filosofia da “Vanitas”, deseja-se ardentemente a beleza, a juventude ou a riqueza, mas, no instante em que eventualmente se as conquistam, elas começam a murchar.
O desejo barroco caminha sempre de mãos dadas com a frustração e a melancolia, pois o homem sabe que a satisfação terrena é uma ilusão, que dura apenas um instante antes de se transformar em pó.
A frustração no mundo digital decorre do inevitável choque com a realidade. Como a vida editada nas redes sociais é uma impossibilidade prática para a maioria das gentes, a proximidade ilusória transforma-se em frustração e melancolia.
E pronto, para terminarmos, uma citação de Padre António Vieira, prosador barroco cuja mensagem ecoa no século XXI: “Vemos que todo este mundo é vaidade, que a vida é um sonho, que tudo passa, que tudo acaba, e que nós havemos de acabar primeiro que tudo, e vivemos como se fôramos imortais, ou não houvera eternidade.”










Comentários
Enviar um comentário