As apostas sobre o regresso de Jesus Cristo à Terra têm vindo a ganhar crescente destaque nas plataformas online. Quem aposta no “Sim”, ou seja, que o Nosso Senhor regressa ainda em 2026, poderá ter lucros superiores a 5700% se tal evento acontecer, quem aposta no “Não”, e caso Jesus efectivamente não volte, terá lucros pequenos, mas provavelmente mais seguros, de cerca de 5,5%.
Esta aposta sobre Cristo movimenta 3,3 milhões de dólares por ano, sendo que, nos últimos dias, a probabilidade atribuída ao regresso de Jesus em 2026 duplicou subitamente, subindo para 4%.
“A Entrada de Cristo em Bruxelas em 1889” é o título de uma monumental pintura do artista belga James Ensor. A obra data de 1888 e à época causou um grande escândalo. A pintura mostra-nos Jesus Cristo a entrar na cidade de Bruxelas montado num burro, mas completamente perdido e ignorado no meio de um desfile de Carnaval caótico, grotesco e ruidoso.
A multidão em redor de Cristo é composta por máscaras disformes, palhaços, esqueletos, políticos corruptos, figuras militares e clérigos caricaturados, sendo um sátira à hipocrisia da sociedade burguesa e aos movimentos políticos do final do século XIX.
No meio de toda a confusão, Cristo quase que não se vê, mas quem olhar com atenção encontra-lo-á, quase ao centro da imagem, com a sua auréola dourada
e montado num burro.
A nós pouco ou nada nos interessa apostar no eventual regresso de Jesus Cristo à Terra, contudo, interessar-nos-ia sim um outro regresso, o do falecido e mítico meteorologista Anthímio de Azevedo.
Anthímio de Azevedo (1926–2014) teve uma longa carreira no Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, actual IPMA, e foi durante largas décadas um dos rostos mais populares da televisão em Portugal. Destacou-se pela sua capacidade de explicar fenómenos climáticos complexos, como frentes frias e altas pressões, numa linguagem simples, acessível e tranquila.
Anthímio de Azevedo avançava pelos estúdios televisivos com o passo firme de quem mal entrou e já sabe qual o valor da humidade relativa do ar. Anthímio não nos falava de histéricos alertas vermelhas e amarelos, falava-nos sim de vulgaríssimas depressões atlânticas, ou seja, de acontecimentos perfeitamente banais que se resolvem com um agasalho de lã e as devidas precauções com as persianas e os telhados.
Repare-se que os meteorologistas de agora usam drones, satélites quânticos e gráficos em 3D, mas depois não sabem prever se a roupa seca no estendal. Passam o tempo a dar nomes de tias de Cascais às tempestades, Margarete, Filipa, Stephanie e coisas do género, ao invés de nos explicarem como e em que direção se desloca o Anti-Ciclone dos Açores.
Que saudades de ouvir as calmas palavras do Anthímio: “Amanhã o vento roda para quadrante norte, a nebulosidade dissipa-se e teremos aquilo a que a ciência chama um dia bonito”.
Ao que se vê, neste início de Novembro a chuva voltou e começou a fazer um poucochinho de frio. Dir-se-ia que é coisa normal para esta época do ano, no entanto, ao lermos as notícias, parece que estamos perante uma catástrofe iminente.
Transcrevemos um parágrafo inteiro de um jornal nacional: “A chuva regressa já amanhã, sexta-feira, e os avisos amarelos do IPMA estão em quase todos os distritos do litoral. Portanto, Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Setúbal. Acima de Setúbal, tudo o que é litoral amarelo. São avisos associados à chuva, no fim de semana em que depois desta sexta-feira, várias frentes atlânticas vão atravessar Portugal. A primeira chega esta sexta, com chuva, muita chuva, sobretudo no Norte e Centro, onde vai ser intensa e também no litoral. No sábado continua esta instabilidade com novas frentes e mais trovoadas e o Sul pode ser aquele que vai ficar mais ao lado. Passar um pouco mais ao lado. Nesta primeira fase. Por que o que preocupa os meteorologistas é o que pode acontecer a partir de domingo.”
É difícil ler o parágrafo acima, e não se ficar com a sensação de que quem o escreveu estava envolvido numa qualquer urgência. Tudo parece escrito à pressa, mas, para além do estilo gramatical algo afobado, o conteúdo é também um tanto ou quanto intimidante.
Para quê tanto alerta? Não seria porventura melhor, uma frase no estilo elegante e tranquilo de Anthímio de Azevedo: “Aconselhamos os senhores espectadores, a que caso saiam à rua, se façam acompanhar de um guarda-chuva.”
Mas transcrevamos um outro excerto jornalístico, dedicado ao tempo que vai fazer e à probabilidade de uma Bruna nos vir atormentar os próximos dias:
“Talvez venhamos a ouvir falar muito desta tempestade nos próximos dias. Para já, há uma distinção importante, a depressão não recebeu oficialmente este nome, o IPMA fez questão deesclarecer isto esta quinta-feira. Bruna é o próximo nome da lista das depressões, a Ovea, de grande impacto, e será esse o nome se o sistema cumprir os critérios necessários, que normalmente partem do vento primeiro e da chuva depois. O que aparece nos modelos é uma vasta região depressionária no Atlântico, com um núcleo que poderá atingir uma pressão ali nos 990 hPa, com vários centros secundários. Portanto, é uma grande depressão. E posso dizer que, por exemplo, o IPMA espanhol, chamemos-lhe assim, o AEMET, já tem um aviso para esta grande intensidadede chuva e ventos e já avisou as pessoas para o que pode vir esta tempestade. E, portanto, entre domingo e terça-feira, esta circulação traz chuva persistente, forte, vento intenso e agitação marítima. Só há uma pequena incerteza, mas que é fundamental, que é o trajeto da depressão. Se o centro ficar mais afastado da costa, os efeitos serão obviamente diferentes do que se a depressão se aproximar da Península Ibérica. Portanto, não podemos anunciar a chegada da tempestade Bruna. Podemos dizer que os modelos apontam pra uma depressão potencialmente muito importante e que poderá vir a chamar-se Bruna, que é o mais certo.”
Em síntese, gastam-se milhões em supercomputadores e drones climatéricos para depois simplesmente se dizer de uma forma muito palavrosa e de um modo algo desconexo, que é capaz de vir aí uma valente carga d’água, e que caso assim suceda, o seu nome será Bruna.
Antigamente, a meteorologia tratava o mau tempo com o respeito geofísico que ele merecia, havia “a depressão de 14 de novembro” ou “o temporal de leste”, e isso era viril, era analógico, era científico, agora a Stephanie dissipa-se e a Bárbara vai para Espanha.
Dado o facto de que provavelmente o Anthímio de Azevedo não vai ressuscitar e regressar à Terra, dir-se-ia que os melhores métodos actuais para prever o tempo são os seguintes: se os pombos voarem baixo, a pressão está a cair, vem aí molha, se a vizinha do terceiro esquerdo pôs os lençóis no varal, vai haver boas abertas. Não falha.
Nos tempos que correm, começa-se logo a ver tempestades onde há apenas uma ligeira aragem e a decretar "estado de calamidade pública" devido a uma neblina matinal. Lançam-se alertas de todas as cores, mas ninguém fala do óbvio.
Nós recordamos-nos de alguns bons, úteis e óbvios conselhos do Anthímio de Azevedo, se houvesse previsão de pluviosidade, aconselhava os cidadãos a levar guarda-chuva, caso fizesse frio, recomendava o uso de um sobretudo, sugeria também, que as pessoas saíssem de casa com um casaco de malha, prevendo as nortadas ou as descidas bruscas de temperatura ao fim do dia.
Na época do Anthímio, tal moda não existia, por isso ele não se pronunciou acerca desse assunto, no entanto, presentemente há muito boa gente que usa sapatos sem meias, deixando assim o tornozelo exposto a eventuais massas de ar polar.
Nós, o que aqui escrevemos, seguindo o legado do Anthímio e fazendo jus à nossa vocação de sermos um serviço público, vimos desaconselhar tais práticas. Com efeito, o tornozelo é o termóstato do corpo humano. Se a humidade relativa do ar entrar pelo pernil, o barómetro interno desregula-se e o cidadão passa o dia a espirrar e de nada lhe vai adiantar consultar gráficos de satélite numa qualquer App.
Mas se o tornozelo é o termóstato do corpo humano, o rabo é o verdadeiro barómetro da exactidão analógica. Qualquer um sabe que a estação meteorológica mais precisa e exacta, é o rabo.
No Inverno, qualquer cidadão que se sente numa esplanada para tomar o seu café, constata imediatamente qual é a temperatura. Não é preciso um satélite Meteosat, o contacto do rabo com a superfície da cadeira indica-nos sem margem para dúvidas que uma frente fria e húmida já entrou pelo litoral.
No Verão, passa-se o mesmo. O veículo do cidadão esteve estacionado ao sol, ele senta-se no estofo e o seu rabo detecta instantaneamente o impacto térmico. Se tal impacto fizer o rabo do cidadão saltar subitamente dez centímetros, é possível afirmar que a temperatura real anda perto dos quarenta graus. É escusado ir ver na App.
Abaixo uma obra de 1745, do pintor francês François Boucher, “l'Odalisque brune”. Na imagem pode ver-se uma moça que certamente aspira ser meteorologista, a medir a temperatura ambiente.
Para terminar, imaginemos que Cristo regressa mesmo à Terra, que o Anthímio de Azevedo ressuscita, e que nos dá a previsão meteorológica para esse dia.
Apostamos que seria mais ou menos assim: “O céu apresentar-se-á inicialmente muito nublado por nuvens altas e resplandecentes, com tendência a dissiparem-se à medida que o dia avança. O vento soprará de feição, moderado a forte, com rajadas fortes nas zonas montanhosas. Para o dia do Juízo Final, preveem-se melhorias significativas em todo o país. O sol vai espreitar para sempre...vai haver excelentes abertas.”







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