Andamos obcecados por sítios extraordinários. Viajamos para ver monumentos, subimos a altas montanhas, percorremos lindas cidades e queremos contemplar os mais vastos desertos, todavia, há uma beleza silenciosa mesmo à nossa volta, em lugares que não têm absolutamente nada de especial.
O que torna estes lugares belos é, paradoxalmente, o facto de não quererem ser especiais. São sítios que não pedem a nossa atenção. Estão apenas ali para a vida do dia a dia acontecer.
Uma passagem pedonal subterrânea é, por definição, um lugar de transição, sem nada de especial. Ninguém vai para lá, apenas se passa por lá. Abaixo temos uma foto de uma dessas passagens, esta fica em Belém em Lisboa, e permite que se passe por debaixo da linha férrea, que separa o espaço junto ao Tejo, da praça ajardinada que está do outro lado.
Há uma estranha quietude neste tipo de túneis pedonais, em que a claridade do dia desce as escadas e entra por eles adentro, no entanto, a penumbra também lá tem o seu lugar. Este contraste entre luz e sombra, como que cria nichos de mistério, num sitio que deveria ser simplesmente funcional.
Há uma grande beleza num terraço sem nada de especial. Sem vasos com plantas exóticas, sem mobiliário de design e sem uma vista de tirar a respiração. Um terraço apenas como um espaço exposto ao céu, um mero rectângulo de chão cinzento delimitado por paredes e um murete.
Um terraço é um lugar intermédio, nem totalmente dentro, nem totalmente fora, vive na fronteira entre o aconchego do lar e a liberdade do horizonte. É num terraço que uma casa respira e abre os seus pulmões de betão para acolher o calor, o frio ou o vento.
Um terraço é um espaço de diálogo entre a solidez do betão ou da pedra, e a leveza da paisagem exterior. É o cenário perfeito para os gestos simples, sem nada de especial, como ler três páginas de um livro, o jornal, ou simplesmente olhar lá para fora enquanto o dia arrefece.
Ao entardecer as linhas do brise-soleil alongam-se formando sombras pelo chão, como se o próprio terraço estivesse a redesenhar-se a si próprio.
No terraço da imagem abaixo, há uma rede, uma espécie de brise-soleil, que actua como uma moldura geométrica, moldando e enquadrando a luz e a vista. Um brise-soleil não serve apenas para proteger, serve também para revelar. Através do brise-soleil, o exterior revela-se de um outro modo: deixa de ser uma imposição da paisagem e passa a ser um vislumbre.
E que dizer de um bairro inteiro, tão sem nada de especial, que foi simplesmente baptizado como sendo o Bairro das Estacas. Seria difícil encontrar um outro nome tão básico e descomplicado como “das Estacas”.
A origem de tal nome deve-se aos pilares (ou pilotis) que sustentam os edifícios. A população começou a chamar a estes pilares “estacas", nomeando assim o bairro.
Caminhar pelo bairro é como entrar numa coreografia de sombra e luz. Por baixo dos edifícios, o piso térreo é como que um convite aberto. Ali as gentes, como o vento, passam livres sem obstáculos ou barreiras.
Olhar para as fachadas deste bairro é ver a geometria a fazer-se poesia. Nas varandas, os brise-soleil alinham-se com precisão, uma geometria de betão que protege a intimidade das casas sem nunca fechar os olhos ao mundo.
Ao amanhecer, os brise-soleils cortam os raios solares mais audazes, para que a claridade entre mansa e recortada. À medida que o sol roda no céu, os brise-soleil transformam o betão numa matéria maleável, criando um jogo de contrastes onde os edifícios parecem mudar de expressão a cada hora que passa.
Não há nas casas deste bairro nada de especial, não têm o peso dos palácios. Despidas de ornamentos, erguem-se com a honestidade das linhas puras, como partituras verticais. A repetição das formas não traz monotonia, cria sim uma cadência musical, que organiza a paisagem e acalma quem passa.
Uma escada, uns degraus, um corrimão negro e um guarda-corpo de ferro com motivos abstractos pintados de amarelo. Em síntese, nada de especial.
O corrimão é onde a mão procura o prumo e a certeza, um traço negro contínuo e silencioso que sabe exactamente para onde se dirige, quer ao subir, quer ao descer. O guarda-corpo num amarelo insolente, recusa a monotonia das paredes de neutros tons. Motivos abstratos cruzam-se, formas bizarras e sem nome nascem do nada, repetem-se e invertem-se a cada lanço de escadas.
Quem atravessa estas escadas torna-se parte de um movimento óptico dinâmico, uma simbiose suspensa entre a segurança, a certeza e a razão do negro corrimão, e o delírio, a agitação e a animação do abstracto amarelo.
A essência de Kiyomizu-dera, em Quioto no Japão, reside numa simplicidade profunda. Fundado no ano 778, este templo budista traduz preceitos como a contenção e a reverência, através da sua arquitectura pura e dos seus rituais elementares.
No templo de Kiyomizu-dera, a água cai em três cascatas distintas, cada uma delas associada a uma benção diferente, uma à saúde, outra à prosperidade e a terceira ao amor. Os visitantes do templo são advertidos que se deve beber apenas de uma única cascata, pois beber de todas as três anula a bênção. Celebra-se assim nesse lugar o valor da moderação.
Para entrar no templo, os visitantes têm primeiro de passar por um longo corredor subterrâneo envolto em total escuridão, guiam-se apenas por um corrimão de madeira. Ao despir o caminhante de todos os estímulos visuais, o espaço como que força imediatamente o visitante a realizar uma viagem espiritual interior.
Sim, talvez o Templo de Kiyomizu-dera seja um lugar especial, mas se o é, não o é por ser espectacular, monumental e grandioso, mas sim exactamente pelo oposto, ou seja, por ser simples. Tão simples como uma mera passagem pedonal subterrânea, um comum terraço de uma casa, um despretensioso bairro ou umas normais escadas.
Há em Kiyomizu-dera um velho banco de madeira antiga. Não tem brilho, é apenas uma linha horizontal. A madeira, moldada pelo sol e pelas chuvas de mil estações, sabe os incontáveis desconhecidos que ali pararam e se sentaram.
O banco é uma estrutura simples, sem artifícios, sustenta-nos por um instante de pausa enquanto o mundo avança. Os visitantes vão e vêm, mas o banco permanece ali, exposto, só, despido de qualquer vaidade.
Olha-se para as suas ranhuras, gravadas pelo inverno e pelo sol, e vê-se nelas as mesmas rugas que o tempo desenha. Quando os monges limpam a geada da sua superfície com a palma da mão, sentem nele a mesma serenidade que procuram na meditação, a saber: a capacidade do banco de ser apenas um lugar sem absolutamente nada de especial.






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