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Quem é que não gosta de ir à bruta?


Antes que alguém se entusiasme, esclareçamos desde já, que do que aqui estamos a falar, é de arquitetura. Mais concretamente, de uma corrente estilística arquitectónica, cuja designação é brutalismo.

Há muitos modos de se definir o brutalismo, mas a forma mais simples de compreendermos aquilo a que nos referimos, é através do exemplo de dois momentos contrastantes da arquitetura escolar nacional. Comecemos por aquilo que é o oposto do brutalismo, e que ficou conhecido como o estilo “Português Suave”.

Houve um tempo, em que em Portugal as escolas eram erguidas de acordo com um esquema cujo objetivo era que o próprio edifício ilustrasse e exaltasse valores tradicionais e patrióticos, nomeadamente, a austeridade, a ruralidade e o tradicionalismo do bom povo português.
Nesse contexto, ficou para a história o chamado Plano dos Centenários, que decorreu entre 1941 e 1969. Tratou-se de um projeto de construção de escolas em larga escala por todo o território nacional.

O dito plano deve o seu nome ao terceiro centenário da Restauração da Independência e ao oitavo centenário da Independência de Portugal, que se comemoraram um em 1940 e o outro em 1943.

As escolas do Plano dos Centenários tinham um estilo típico campestre, usavam materiais tradicionais e locais, e as suas linhas e formas eram as de sempre. De algum modo, transformaram-se na imagem de um certo Portugal antigo e consentâneo com os humildes e ancestrais valores da nação. 

Existem exemplares destas escolas por quase todas as localidades do país, embora muitas delas estejam atualmente desativadas.



Em alto contraste com as escolas do Plano dos Centenários temos a Escola Secundária José Gomes Ferreira em Lisboa, que foi erguida entre 1976 e 1980.

O arquiteto que a desenhou chamava-se Raul Hestnes Ferreira, sendo a sua obra claramente influenciada pelo brutalismo. Na Escola Secundária José Gomes Ferreira todo o edifício é desenhado para realçar a relação entre volumes e formas geométricas que chocam entre si, sendo o principal material usado o betão.

Para além disso, não existe qualquer elemento decorativo tradicional nem revestimento, estando o betão e outros materiais de construção à vista, seja no exterior, seja no interior do edifício.

Em síntese, entre a arquitetura escolar do Planos dos Centenários e o brutalismo da Escola Secundária José Gomes Ferreira existe um evidente contraste, sendo que nós, quem aqui escreve, pretende neste presente texto elogiar o estilo brutalista, ou seja, aquele em que o material está à mostra e tem sempre razão.


No nosso anterior texto, a propósito de outro assunto, referimos um edifício situado nos Estados Unidos da América que é um ícone do brutalismo e que completou recentemente cinquenta anos de funcionamento, o Hirshhorn Museum em Washington. Aqui fica o link para essa publicação:

O Hirshhorn Museum é um marco na divulgação da cultura e da arte contemporânea na América, o seu objetivo e única missão centra-se na educação. A entrada é e sempre foi gratuita, sendo que o número de visitantes desde a sua inauguração está sempre bem acima de mais de meio milhão, havendo inclusivamente períodos em que ultrapassa um milhão.

O Hirshhorn Museum é também um marco arquitectónico. Em Washington abundam os edifícios neo-clássicos, desde a Casa Branca, ao Capitólio, passando pelo Supremo Tribunal e muitos outros mais. 


Por todo o lado, em Washington, há nobres fachadas com altas colunas e edifícios coroados com enormes cúpulas cuja inspiração são o Partenon grego ou o Panteão romano. Contudo, foi precisamente nessa cidade, que há cinquenta anos foi inaugurado o Hirshhorn Museum, um edifício de um evidente brutalismo e cuja poesia deriva não de inspirações greco-romanas, mas sim do beleza do seu cimento, ou seja, do seu material.


Dito isto, é este o momento de retomarmos a questão com que iniciámos este texto, ou seja, quem é que não gosta de ir à bruta? Nós gostamos, e é por isso mesmo que temos umas quantas sugestões de brutalismo para quem nos lê, para começar, em Lisboa, três.

A primeira é o antigo restaurante panorâmico de Monsanto. Enquanto funcionou, tinha algum requinte, todavia, depois fechou e por ali foi ficando abandonado. No entanto, houve quem dele se fosse apropriando, mais especificamente, artistas urbanos, que das suas paredes de cimento nu, fizeram telas, e o seus imensos espaços vazios preencheram com as suas obras.



Mas em Portugal o brutalismo não inspirou apenas edifícios de recreio, foi também a base segundo a qual se ergueram as mais altas funções da nação, como por exemplo, a justiça. Com efeito, o maior e mais vasto Palácio da Justiça nacional foi construído num estilo brutalista. Situa-se em Lisboa, ao alto do Parque Eduardo VII, e os seus arquitetos foram Januário Godinho e João Andresen. 



A última e derradeira sugestão das três que antes anunciámos, são duas. 

Se houver alguém que porventura pense que o brutalismo pode ser aplicado em edifícios cujo objetivo é o gozo e o prazer, como por exemplo, um restaurante panorâmico, ou também em edifícios cuja função é a dura e firme lei (dura lex sed lex), mas que jamais poderá ser utilizado em construções espirituais, desengane-se. 

Posto isto, a nossa última sugestão, que são duas, são precisamente edifícios brutalistas da mais alta espiritualidade. O cimento leva-nos ao Céu. É um material celestial. 

Como já terão adivinhado, a nossa sugestão são dois templos religiosos. O primeiro é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Fica ali para os lados da Avenida da Liberdade, mais concretamente na Rua Camilo Castelo Branco. 




O segundo templo é a Igreja de Nossa Senhora da Conceição nos Olivais. 



Entre as duas, vê-se que quem tem fé acredita no cimento, ou seja, na verdade dos materiais. Como dizia o outro, o material tem sempre razão.

E por hoje é tudo, mas temos muito mais para vos dizer sobre o brutalismo. Mas cá está, fica para amanhã para não ser tudo à bruta. Enfim, enquanto esperam pelo resto, fica uma canção, "O material tem sempre razão". 



Se estiveram com atenção, no vídeo que acompanha a canção, hão de ter reparado que a ação se passa num edifício ali para o Jardim do Campo Grande, que também ele tem o concreto todo à mostra. 


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