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Um trágico bolo de aniversário, uma epopeia de ovos, farinha, açúcar e fermento


Lá longe, em terras próximas da lendária e mítica cidade de Bagdade, existem uns pântanos, sendo que por entre eles circulam rios e cursos de água navegáveis. As gentes simples dessas terras vão de margem em margem em pequenas embarcações movidas a remos, e é assim que por esses sítios fazem as suas vidas.



O que hoje é o Iraque, foi em tempos longínquos o país das mil e uma noites, de sultões, de califas e haréns. Foi aí que existiu a fabulosa Babilónia, que na sua época era a mais importante cidade do mundo.

Bagdade, a actual capital do Iraque, foi em tempos distantes cenário de muitos dos contos de “As Mil e uma Noites”. Pelas suas ruas, bazares e mercados deambularam personagens como Aladino ou Ali Babá e os 40 ladrões. Bagdade era então a capital de um império que se estendia desde a Índia até à Península Ibérica.

Daí se conclui, que o território que agora é Portugal, já teve como capital a lendária cidade de Bagdade.


Diz-se também que era nessa zona do médio-oriente que se situava o jardim do Éden e a árvore do fruto proibido, uma árvore velha e seca, que se ergue num povoado onde confluem os grandes rios Tigre e Eufrates.

É igualmente nessa região que se encontram as ruínas de Ur, que a Bíblia afirma ter sido a primeira cidade do mundo, onde terá nascido Abraão, e onde Noé terá também construído a sua arca.

Esses lugares, que hoje são o Iraque, tinham o nome de Mesopotâmia (do grego “meso”, meio, e “pótamos”, rios), ou seja, a terra que fica entre rios, e mais em concreto, entre os grandes rios Tigre e Eufrates.

Foi nessas paragens que a humanidade aprendeu a cultivar a terra, a domesticar os animais, a construir cidades, e a ditar leis que eram registadas no barro numa escrita cuneiforme, a partir da qual mais tarde foi inventado o alfabeto.


Lá longe, em terras próximas da lendária e mítica cidade de Bagdade, existem uns pântanos, sendo que por entre eles circulam rios e cursos de água navegáveis. Os pântanos são literalmente o berço de “A Epopeia de Gilgamesh”, que é a primeira narrativa escrita de toda a história da humanidade.

A mais antiga obra literária da humanidade, é portanto originária da antiga Mesopotâmia e conta-nos a história de Gilgamesh, Rei de Uruk, que se tornou amigo de um homem selvagem, Enkidu.

Juntos vivem inúmeras aventuras e enfrentam múltiplos desafios, mas após a morte de Enkidu, Gilgamesh embarca numa longa, árdua e angustiante jornada em busca da imortalidade.

“A Epopeia de Gilgamesh” é uma reflexão poética sobre a mortalidade humana, a amizade e os incontáveis desafios e dificuldades que encontramos e atravessamos na viagem que fazemos pela vida.

Abaixo uma placa do século VII a.C., onde se vê Gilgamesh e Enkidu matando o Touro do Céu, que por todo o lado causava destruição e secas. A deusa Ishtar quis vingar-se de Gilgamesh, o Rei de Uruk, por este ter rejeitado os seus avanços amorosos, e convenceu o seu pai, Anu, a enviar o Touro do Céu para que este destruísse Uruk. Gilgamesh e Enkidu lutaram contra o touro e conseguiram matá-lo.

No entanto, após a luta, Enkidu atira uma das ancas do touro desdenhosamente contra o rosto de Ishtar. Os deuses consideram este acto impiedoso e decidem que Enkidu deve morrer. A morte de Enkidu deixa Gilgamesh afundado numa profunda crise existencial, que o leva a embarcar numa longa jornada em busca da imortalidade e do sentido da vida.



Bibi recorda a Lamia uma passagem de “A Epopeia de Gilgamesh”. Pela boca de Bibi, mais palavra menos palavra, ouvimos que no poema épico está escrito que aos seres de coração puro foi prometido que podiam ver a imagem dos que mais amavam reflectida nos rios e cursos de água que circulam pelas proximidades de Bagdade.

Bibi, a avó, e Lamia, a neta, são personagens do filme “O Bolo do Presidente”, película de 2025, do realizador e argumentista iraquiano Hasan Hadi. A história desenrola-se nos anos 90 no Iraque. Dos ares não chega o Touro do Céu para causar morte e destruição, mas antes as bombas lançadas pelos jactos norte-americanos.

Na terra há escassez de água, mas também isso não é consequência de secas causadas pelo Touro do Céu, mas sim o resultado da guerra e da falta de abastecimento. Pelas aldeias, camiões distribuem água às populações, uma oferta do então presidente Saddam Hussein.

À época não foram os deuses que decidiram punir o Iraque e sim as Nações Unidas, que lhe impuseram pesadas sanções económicas. No filme estamos no dia em que as escolas de todo o país seleccionam os alunos que irão contribuir para a festa de aniversário do presidente Saddam Hussein.

Lamia tem nove anos e a avó ensina-lhe como evitar ser escolhida para confecionar o bolo de anos do presidente. Todavia, o seu severo professor nomeia-a para a tarefa. Lamia sabe que se falhar, poderá ser arduamente castigada, porém, tudo escasseia, sejam ovos, farinha, açúcar ou fermento.

Abaixo Lamia, junto a um retrato de Saddam Hussein.



Bibi, a avó, e Lamia, a neta, navegam pelos rios e cursos de água, por esses lugares onde nasceu “A Epopeia de Gilgamesh”, para se deslocarem a Bagdade e tentarem adquirir ovos, farinha, açúcar e fermento, para fazerem o bolo do presidente.

Pelo caminho encontram um outro personagem que ao longo da restante história será o mensageiro das boas e das más notícias. Trata-se de um carteiro que lhes dá boleia até à cidade. A meio do percurso, há um posto militar de controle. O edifício que se ergue atrás dessa passagem é Ur, uma das mais antigas construções do mundo.

Abraão vivia em Ur, e diz-nos a tradição que perversos sacerdotes o queriam sacrificar a ídolos, contudo, o Senhor salvou-o da morte certa. Diz assim a Bíblia: “Tu és ó Senhor Eterno, o Deus que escolheu Abraão, e o tirou de Ur, e mudou o seu nome para Abraão, dando-lhe um novo significado.”

Deus disse a Abraão para deixar Ur com a sua família em direção à "terra que eu te indicar". Nessa terra prometida, Abraão e os seus descendentes formariam uma grande nação, num local "onde corre leite e mel".

É precisamente no sítio de Ur, no qual Abraão foi salvo da morte e em que Deus lhe prometeu uma terra de abundância onde corre leite e mel, que Bibi e Lamia atravessam, na sua imensa odisseia para conseguirem adquirir uns meros três ovos e umas poucas gramas de farinha, açúcar e fermento.

É também nesse poste de controle, perto do ancestral lugar de Ur, que quase no fim do filme vemos passar o caixão com Bibi lá dentro já morta. Abundância e miséria, vida e morte, cruzam-se nessas cenas de “O Bolo do Presidente”.


Lamia ao longo de toda a sua viagem em busca de ovos, farinha, açúcar e fermento, é acompanhada por um galo. Na antiga Mesopotâmia, o galo era identificado com o deus Nusku e representava o poder do sol e da luz. A sua imagem era usada para invocar proteção, sendo o galo um guardião que afastava os demónios e as forças da escuridão.

É exactamente esse o papel que o galo representa na narrativa, ou seja, o de proteger Lamia contra as escuras forças do mal. Mas mais do que isso, na mitologia antiga ao galo são também atribuídas características divinatórias, e no filme, são frequentes as vezes em que o galo canta para avisar Lamia de um perigo, como por exemplo quando um homem a tenta fazer entrar num obscuro cinema, ou quando alerta que estarão para chegar os jactos norte-americanos.


Nos momentos finais da história, Lamia regressa a casa, situada junto aos pântanos, traz consigo a sua avó já morta. Vai num barco e olha para baixo, vê-se como que num espelho, e nós que a vemos no ecrã, recordamos as palavras iniciais de Bibi quando cita “A Epopeia de Gilgamesh”, no momento em que diz que aos seres de coração puro foi prometido que podiam ver a imagem dos que mais amavam reflectida nos rios e cursos de água que circulam pelas proximidades de Bagdade.
Aqui fica o trailer:

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