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A Alma de Portugal - Capítulo I


Por algum desconhecido motivo, este blog é frequentemente mais lido noutros países, do que na nossa amada pátria, ou seja, a portuguesa. As últimas vinte quatro horas (tabela abaixo) são exemplificativas disso mesmo que dizemos, pois nesse período de tempo, existiram apenas catorze compatriotas que nos leram, sendo que, houveram trinta e sete norte-americanos a fazê-lo.

Noutros dias a diferença de números é até bastante maior, facto que nos faz crer, que somos um claro blog de exportação. Assim sendo, o nosso destino bloguístico não se restringe à lusitana nação, pois atravessa fronteiras, oceanos e continentes, no fundo, abarca o mundo.


Tendo nós chegado à conclusão que o nosso destino é o globo, não é por causa disso que esqueceremos a nossa terra e deixaremos de levar o nome de Portugal além mar, até às mais longínquas latitudes.

É com orgulho, brio e raça, que queremos neste blog levar a outros povos as glórias e feitos lusitanos, mas mais do que isso, almejamos acima de tudo, que as gentes distantes conheçam as profundezas da alma portuguesa.

Imbuídos deste espírito, que nos acompanhará por algum tempo, começamos hoje a difundir para o mundo as subtilezas e grandezas da alma nacional. Para iniciarmos esta alta missão didáctica e pedagógica e quiçá até patriótica, vamos hoje escolher umas quantas célebres imagens fotográficas, seja de autores portugueses ou de estrangeiros, que revelam perfeitamente as mais específicas características da índole da psique nacional.

Comecemos pela imagem abaixo da autoria de Gérard Castello Lopes, datada de 1957, que retrata um lugar do Algarve.



Acrescentemos à primeira imagem, uma outra também de Gérard Castello Lopes, do mesmo exacto ano, mas cujo sítio agora fotografado é Lisboa.



Ao olharmos para estes homens, um no Algarve a observar a paisagem, outro a verificar o horário do comboio Lisboa-Sintra, não existem dúvidas de que estamos perante dois típicos portugueses.

Ambos de costas voltadas, de mais ou menos meia idade, e que sabemos não serem homens da cidade. Os dois olham, mas de um não se diria que olha para se informar das horas a que comboios param nas estações e apeadeiros, e do outro não se diria que contempla a paisagem. Há algo nas suas posturas que nos faz crer que simplesmente olham, sem mais. Outra maneira de dizer é que olham mas para dentro.

Há algo na postura destes homens, que nos diz imediatamente que são portugueses. Ligeiramente inclinados, passivos, com as mãos atrás das costas ou pousadas no branco muro, aguardam com toda a paciência deste mundo que o tempo passe e, enquanto esperam, entretêm os olhos vendo sem ver o que por diante se apresenta. É um olhar português que um estrangeiro dificilmente reconheceria.

Mas vamos a uma terceira imagem, uma fotografia da Nazaré, de Eduardo Gageiro, datada de 1962.



Esta fotografia teve como consequência que Eduardo Gageiro fosse preso pela PIDE. Segundo o que o fotógrafo contou numa entrevista, o agente de serviço que lhe deu ordem de prisão disse-lhe o seguinte: “Temos paisagens tão bonitas em Portugal, porque é que não as fotografa, em vez de andar a retratar pessoas humildes?”

A fotografia da Nazaré haveria de correr mundo, sendo publicada e exposta por todo o lado, tendo obtido inúmeros prémios internacionais.

A fotografia fez parte de um livro, em que a acompanhava o seguinte dito: “velhos, velhos do meu país, que sina a vossa a de calcarrear os dias!”

A mulher da Nazaré é o principal tema da imagem, contudo, o que também se destaca é a corda que ela puxa e carrega. Esta corda estendida na diagonal divide a fotografia em duas partes, a parte inferior, na qual vemos os pescadores, e a parte superior, onde vemos o céu e as nuvens.

O negro das vestes da mulher que lhe cobrem o corpo de luto, realça ainda mais o contraste entre o negro céu e o branco das nuvens. Olhando, quase se pode dizer que a mulher caminha por entre as nuvens, enquanto em baixo, na areia, na zona terrena, vemos os restantes personagens da imagem, os pescadores.

Façamos o seguinte exercício, comparemos a fotografia da mulher da Nazaré de 1962, com esta abaixo de Helena Almeida, de 1979.


Ambas são fotos que enunciam o silêncio e a mudez. Um silêncio e uma mudez voluntárias, auto-impostas, ou até mesmo auto-infligidas. Dir-se-ia que quer a mulher da Nazaré, quer a de Helena Almeida, carregam consigo o que não é escutado, o que não é ouvido.

Ainda assim, esses silêncios como que parecem ser silêncios que não se resignam. Há na mulher da Nazaré uma força de dentro que não esmorece, há na mulher de Helena Almeida uma revolta interior que não se apaga.

Forças de dentro que não esmorecem e revoltas interiores que não se apagam, são coisas muito características de se ser português, e foi precisamente por isso, que escolhemos estas duas icónicas imagens para revelar algo da alma nacional.

Mas vejamos agora imagens de Portugal da autoria de fotógrafos estrangeiros.

O grande fotógrafo checo Josef Koudelka esteve em Portugal diversas vezes: a primeira vez que veio foi em 1970, integrado numa peregrinação cigana a Fátima. Foi preso pela PIDE e depois libertado. Regressou inúmeras vezes, a última das quais em 2004.

Sobre essa sua derradeira vinda disse o seguinte: “Passei seis semanas em Portugal. Viajei de Norte a Sul, de Este a Oeste. Segui um caminho que eu próprio tracei. Tentei ver o máximo. Fiquei surpreso com o que Portugal mudou desde os anos setenta, altura em que estive no país a fotografar. Mas eu também mudei.”

Vejamos uma sua imagem de 1975, numa qualquer terra da Estremadura.



Vejamos agora uma outra imagem de Josef Koudelka, também de Portugal, mas esta de 2004.



Josef Koudelka diz-nos que Portugal mudou muito desde a década de setenta para cá, sendo isso inegável, todavia, nós diríamos que há algo de perene na essência da nação, na verdade, teria de existir um povo que tivesse como horizonte o imenso mar, mas que vivesse contido no seu interior, no que lhe vai lá por dentro. Talvez seja essa essência, a que se revela na segunda foto de Josef Koudelka.

Para terminarmos esta nossa primeira viagem em que levamos a alma de Portugal ao mundo, recorramos ao fotógrafo Bruno Barbey, que também por cá passou várias temporadas, e muito particularmente na vila de Óbidos.

As imagens de Bruno Barbey mostram-nos um Portugal a cores e nosso contemporâneo, mas que ao mesmo tempo é também muito antigo.



O Portugal de Bruno Barbey sendo recente, no fundo é o de sempre, o que tem o mar por diante, olhares que vêm de dentro, que revelam uma força muda e silenciosa, como o desta rapariga na imagem abaixo:



Por hoje acabamos, mas prometemos em textos futuros continuarmos a revelar a alma de Portugal ao mundo.

Comentários

  1. Desde muito nova que achei que o povo português não são só pessoas analfabetas, vestidas de negro e com saia até aos tornozelos.
    É absurdo que fizessem e façam o povo português dessa forma inculta.
    O povo português também são os burgueses do comércio, da indústria, das repartições, cartórios, tribunais, escolas.
    Portugal sempre teve pessoas de grande cultura, anónimos, tímidos e, muitos, amedrontados não só pela situação política persecurória, ignorante e invejosa.
    Ainda hoje luto contra essa imagem do povo português calejado pelo trabalho boçal, do Portugal dos anões, das casas paupérrimas de paredes baixas e com as madeiras putrefactas.
    Vejo, no entanto, que ainda há quem goste dessa imagem de Portugal, do meu querido país de poetas, de pintores, de romancistas e de juristas, de embaixadores e de estadistas.

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