No primeiro capítulo desta nossa série de textos dedicados à alma
portuguesa, falámos de algumas das mais icónicas imagens fotográficas da nossa
pátria, e hoje falaremos novamente de imagens, mas desta vez pictóricas.
Quem quiser recordar o texto anterior, pode fazê-lo em:
https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/02/a-alma-de-portugal-capitulo-i.html ,
Façamos então um Top-10 daqueles pintores, que são efectivamente os que
melhor reflectem a alma da nação. Não é coisa simples o que nos propomos fazer,
pois ao contrário do que sucedeu em Itália, em Espanha, em França ou na
Holanda, por cá nunca houve uma grande escola de pintura.
Com efeito, por cá jamais existiu gente da dimensão de um Leonardo da
Vinci, de um Michelangelo, de um Rembrandt, de um Cézanne, de um Picasso ou de
um Van Gogh, contudo, e ainda assim, cremos que o que há, dá bem para um
Top-10.
Para iniciarmos, não há outro pintor por onde começarmos, que não seja Nuno
Gonçalves, o dos “Painéis de São Vicente”, é ele o nosso Top-1. Os painéis retratam
cinquenta e oito personagens em torno de uma dupla figuração de São Vicente.
Os seis painéis incluem figuras como o Infante D. Henrique, membros da família real, pescadores, clérigos e cavaleiros, que em conjunto simbolizam a união da nação portuguesa. A obra terá sido executada entre 1470 e 1480.
Quando olhamos para os rostos dessas cinquenta e oito personagens, não
podemos deixar de constatar que há neles algo muito característico das
fisionomias nacionais. Com efeito, os traços são algo duros e fechados,
podendo-se também dizer que têm qualquer coisa que é uma mistura de rudeza, de
resignação, de seriedade e de sobriedade.
Se compararmos os Painéis de São Vicente com por exemplo obras pictóricas
italianas da mesma época, verificamos imediatamente as diferenças. Enquanto na
pintura italiana os rostos são graciosos e as poses elegantes, fluidas e
desinibidas, na pintura portuguesa, há de modo oposto, uma sensação de peso,
fixidez e gravidade.
Acrescente-se a isso, que nos Painéis de São Vicente existe igualmente uma
mudez, uma sisudez e uma circunspeção nos personagens, que não é costume ver-se
nas pinturas da mesma época dos restantes países europeus.
Veja-se por exemplo estes três rostos que constam dos Painéis de São Vicente:
Comparem-se agora esses três mesmos rostos, com outros de vários quadros da
mesma época de vários pontos da Europa. Não há como não constatar, que os
rostos portugueses são maciços e fechados, com uma gravidade muito própria, isto
por contraste com os rostos abaixo, que são muito mais expansivos, e que se
revelam em diversos esgares e em sugestivos olhares.
São esses mesmos rostos portugueses macilentos, graves e pesados, que
séculos mais tarde encontraremos também na pintura de Paula Rego, a artista
portuguesa que fica em segundo lugar no nosso Top-10. Atentemos na cena mais
abaixo, na qual se retrata umas bailarinas clássicas.
Em cenas pictóricas do mesmo género de outros pontos da Europa, nos rostos
e corpos das dançarinas há como que uma leveza quase etérea, mas tal não é o
que sucede nas obras de Paula Rego.
Os rostos e corpos dos personagens são maciços, mostram um peso e uma
severidade que pouco têm de etéreo, é como se, se encerrassem em si mesmos.
Enquanto por exemplo nas bailarinas retratadas pelo pintor francês Edgar
Degas, os corpos parecem querer voar e os rostos reflectem uma imensa
luminosidade, nas bailarinas de Paula Rego há uma carga que as agarra à terra,
sendo que os seus rostos não reflectem nenhuma luz, mas sim uma espécie de breu
interior.
A esse propósito veja-se a imagem abaixo de Degas, e compare-se com a
imagem acima de Paula Rego. As diferenças são evidentes.
Resumamos a situação, quer nos Painéis de São Vicente, quer na pintura de
Paula Rego, existe um pesadume que é algo de muito característico da alma
portuguesa, razão pela qual ocupam os dois primeiros lugares do nosso Top-10.
Uma outra muito conhecida pintura portuguesa é “Ecce Homo”, obra de 1570,
cujo autor é um mestre desconhecido. O fundo é escuro e nele surge Cristo com uma
auréola, martirizado com uma corda ao pescoço, que desce ao longo do peito nu,
e lhe prende os pulsos.
Um lenço branco cobre-lhe a cabeça, os
olhos, os ombros e os braços, contribuindo assim para acentuar o dramatismo da
cena, que é ainda mais realçada pela coroa de espinhos que trespassa o pano.
Mais uma vez há uma diferença gigantesca com o que se fazia noutros locais
da Europa na mesma época, compare-se o triste Cristo português com o glorioso
Cristo de Michelangelo na Capela Sistina.
Ambos são do século XVI, distam poucos anos, no entanto existe uma
imensidão de dissemelhanças que os separam. O português é a própria imagem do
sofrimento, do tormento e do suplício, o de Michelangelo é pelo contrário a
imagem da grandiosidade, do esplendor e da imortalidade.
Assim sendo, temos “Ecce Homo” e o mestre desconhecido como a terceira
escolha para o nosso Top-10, contudo, esta vem acompanhada da nossa quarta
escolha, que é Santa-Rita Pintor.
Santa-Rita Pintor não foi propriamente o mais feliz dos homens, morreu
cedo, antes mesmo de completar vinte e nove anos de idade, vitimado por
tuberculose pulmonar. Deixou uma ordem expressa para que todos os seus quadros
fossem queimados. Por assim ter sido, dele pouco restou, mas ainda assim, é uma
figura mítica do modernismo português.
Este quadro abaixo, “Cabeça”, de 1910, é
uma das poucas obras que resta de Santa-Rita Pintor.
O que aqui nos importa referir, é que o primeiro modernismo
português, nascido no início do século XX, teve um dos seus momentos fundadores
precisamente diante de “Ecce Homo”, uma pintura do século XVI. Terá sido
perante esse quadro, que os três grandes artistas modernistas portugueses, Almada
Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor, fizeram um pacto de
modernidade.
Contou Almada Negreiros em diversas entrevistas, muitos anos mais tarde
após o ocorrido, que “Amadeo de
Souza-Cardoso, Santa-Rita Pintor e eu, diante a tábua quinhentista Ecce-Homo do
Museu de Arte Antiga, formámos um pacto. Esse pacto foi firmado do seguinte
modo: cada um de nós foi ao barbeiro, e cada um de nós mandou cortar, rapar a
cabeça à navalha de barba e as sobrancelhas também. Ainda não tinha acabado de
crescer o cabelo, Santa-Rita e Amadeo separaram-se violentamente. Morreram
ambos nesse mesmo ano.”
O que a história relatada por Almada nos diz, assim como as prematuras
mortes de Amadeo e Santa-Rita, é que o primeiro modernismo português não teve
um final feliz. Era até estranho que o tivesse tido, pois como se sabe, por
norma, a alma portuguesa é mais dada a fados e a tristes destinos, do que a
júbilos, risos e regozijos.
Na verdade, se olharmos com atenção, podemos descobrir na obra modernista “Cabeça”
de Santa-Rita Pintor, ecos da pintura quinhentista “Ecce Homo”. No fundo, é
como se o sofrimento, o tormento e o suplício do Cristo português atravessassem
os tempos, e ressurgissem em pleno século XX de um modo moderno e abstracto.
Tendo nós então já quatro pintores para o nosso Top-10, Nuno Gonçalves,
Paula Rego, um mestre desconhecido e Santa-Rita Pintor, vamos ao quinto
artista, Columbano Bordalo Pinheiro.
Columbano Bordalo Pinheiro é muito conhecido pelo seu famoso quadro “O
Grupo do Leão”, no qual retrata um conjunto de artistas que se reuniam na
Cervejaria Leão de Ouro em Lisboa, em finais do século XIX.
O dito grupo reunia-se para debater ideias, mas sobretudo para comer e
beber, todavia, apesar de serem convivas de petiscadas, a maior parte dos
elementos não parece estar particularmente alegre. O menos animado é mesmo
Columbano Bordalo Pinheiro, o terceiro a contar da direita, com cartola.
Na verdade Columbano retrata-se a si mesmo como se
estivesse algo distante dos restantes convivas, como se não lhe agradasse muito
participar em festividades. No fundo, Columbano tinha em si a melancolia
portuguesa e como tal era mais metido para dentro, e não tanto alguém que fosse
dado a grandes exuberâncias.
É numa outra obra de Columbano, que podemos ver toda a
tristeza da alma portuguesa, a saber, no retrato de Antero de Quental, o poeta
que desiludido e desesperado com a nação lusitana, se isolou do mundo, acabando
por se suicidar.
Do fundo negro do quadro emerge um rosto
cadavérico, espectral. O retrato é como uma radiografia psicológica dos
últimos anos de vida do retratado, do seu lado nocturno, pessimista e
depressivo.
Antero de Quental, líder de uma geração de
intelectuais, defensor de novas ideias e crítico feroz das instituições e
tradições que sufocavam Portugal, mostra-se aqui vencido e completamente descrente
no futuro, no seu e no da nação.
A sexta escolha para o nosso Top-10 é Mário
Eloy, que nasceu em 1900 em Algés e é um dos mais importantes representantes do
segundo modernismo português.
"Os
monstros que instigam o inconsciente de Eloy povoam os seus desenhos com
ameaças de morte, de sofrimento, de vazio ...”, isto
se diz num estudo sobre o pintor, o que desde já nos indica que também ele não
foi um homem feliz.
Uma das mais conhecidas pinturas de Mário Eloy intitula-se “Bailarico de bairro” e data de 1936. Em princípio, pensa-se num bailarico como uma ocasião festiva, contudo, o que sobressai nessa obra de Eloy é tudo menos alegria. Na realidade, “Bailarico de bairro” é mais uma ilustração da tristeza que desde sempre assola a alma portuguesa.
Menos expressiva, soturna e dramática do que a
pintura de Mário Eloy, é a obra de Carlos Botelho, a nossa sétima escolha para
o Top-10.
A obra de pictórica de Carlos Botelho não é
tão intensa como as de que anteriormente referimos, porém, não deixa também ela
de exalar uma certa languidez, uma espécie de nostalgia resignada, uma saudade
do que não se viveu, nem se espera vir a viver.
As paisagens de Lisboa pintadas por Carlos
Botelho são como aqueles versos de Cesário Verde:
Nas nossas
ruas, ao anoitecer,
Há tal
soturnidade, há tal melancolia,
Que as
sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me
um desejo absurdo de sofrer.
Passemos então à nossa oitava escolha, que é a
internacionalmente mais célebre artista portuguesa, ou seja, Vieira da Silva.
A melancolia é um ambiente recorrente na obra
da pintora Maria Helena Vieira da Silva, que se manifesta não só nos títulos
das suas pinturas, mas também na sua estrutura labiríntica e na paleta de cores
que reflectem o isolamento, a nostálgica memória e a fragilidade própria do
espaço urbano.
Os seus quadros, são muitas vezes descritos
como sendo "arquitecturas
mentais", que criam espaços que parecem ser cidades imaginárias ou
interiores desolados, que evocam claramente uma sensação de solidão. A
perspectiva frequentemente fragmentada ou distorcida, por um lado convida-nos a
entrar, mas simultaneamente faz crescer em quem a vê, devido à sua forma
labiríntica, uma sensação de exclusão.
Em síntese, as pinturas de Vieira da Silva são
também um reflexo da alma portuguesa, isto no sentido em que Portugal é um país
que nos convida a nele entrar, mas que ao mesmo tempo é um sítio em que nos
perdemos, dada a sua configuração mental labiríntica.
Aqui chegados, dir-se-ia que a alma portuguesa
vive imersa numa situação depressiva, desolada e triste, em resumo, numa
espécie de inferno. Não por acaso, a nossa nona escolha é uma das mais
importantes obras pictóricas portuguesas de sempre, uma que precisamente se
intitula “Inferno”.
A dita obra data do século XVI e o seu autor é
um desconhecido mestre português. Ao centro, dentro de um caldeirão com água a
ferver, padecem os condenados pela Inveja, destacando-se um frade por ser a
única figura vestida e sem sinais visíveis de sofrimento.
Em redor do caldeirão, agrupam-se outros
pecados mortais, o Orgulho representado pelas três mulheres atadas pelos pés
que pendem sobre um fogareiro e cujas chamas lhes queimam o cabelo, a Avareza
do homem que é obrigado a engolir moedas de ouro, a Gula pelo pecador a quem um
demónio obriga a beber vinho contido num saco de couro em forma de porco, a Ira
do homem de cabeça rapada que está a ser pingado, a Luxúria de dois grupos
juntos, o do adultério com um casal atado, e o da homossexualidade,
concretizada pelo frade e o jovem acorrentados.
No canto superior esquerdo estão pendurados os
corpos das vaidosas, e no canto superior direito, há corpos sugados pela boca
do inferno.
O Diabo-Mor une, em grande confusão, todo o turbilhão
desta pintura, que é como um labirinto, pois divide o olhar de quem a vê e nela
se perde. Em resumo, estamos perante mais um compêndio dos sofrimentos,
tormentos e penas da alma portuguesa.
A nossa décima e última escolha, a que
completa o Top-10, é o contrário de tudo o que antes dissemos. Trata-se de um
artista cuja obra é alegre, bem-disposta e divertida, ainda que abstracta.
O nome que escolhemos para finalizar a dezena
de artistas que nos mostram a alma portuguesa, é o de Nadir Afonso.
Nadir é um nome de origem persa, tendo o homem
nascido em Chaves, mas sendo um grande viajante que percorreu mundo e cuja obra
retrata abstractamente as mais diversas e diferentes cidades do globo terrestre.
Para finalizar, uma sugestão, quem quiser ir ver a alma portuguesa, terá oportunidade de o fazer na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, numa exposição intitulada “Nadir Afonso, Território de absoluta liberdade”.















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