Na imagem vemos uma escultura do artista português José Cutileiro, que está instalada ao alto do Parque Eduardo VII. Devido à forma fálica do monumento escultórico, o local é um sítio que nos parece ser particularmente inspirador para se assinalar o Dia da Mãe que hoje se celebra.
O que poderia ter sido é uma abstração, que permanece uma perpétua possibilidade,
somente num mundo de especulação. O que poderia ter sido e o que foi, apontam para um mesmo fim, que é sempre o presente. Passos ecoam na memória, pelos caminhos que nunca tomámos, rumo às portas que nunca abrimos…
Acima arriscámos uma tradução para português de uns versos de T.S. Elliot, cuja versão original é a seguinte:
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened…
Neste entretanto, celebra-se hoje o Dia da Mãe, e para quem tenha mães mais finas, só há um lugar aonde as levar, ao Parque Eduardo VII, em Lisboa. Calma, não estamos aqui sugerir a ninguém que seja proxeneta e ponha a respectiva progenitora a render numa qualquer esquina do dito parque, nada disso, o que propomos é o Chic-Nic.
E o que é o Chic-Nic, perguntará quem nos lê. É um super-piquenique para gente supostamente fina que ocupará todo o parque, e no qual se paga 150€ para ter acesso ao recinto, aos dez pratos exclusivos e a uma garrafa de vinho, ou 300€ para ter a experiência completa, sendo que a única diferença é que na segunda opção se oferece o cesto do piquenique.
A Câmara Municipal de Lisboa não só decidiu ceder o espaço público a um evento privado e pago, como ainda o subsidiou com 75.000 Euros.
Nós, os que aqui escrevemos, adorámos saber que a gente fina e os empreendedores privados também gostam de ser subsidiados, pois de facto, já muitas vezes os temos ouvido dizer ferozes palavras contra a subsídio-dependência, pelos vistos, estes, os do Chic-Nic, mudaram agora de ideias.
A área cultural é frequentemente um dos alvos preferidos de quem profere ferozes palavras contra a subsídio-dependência, provavelmente por dar ouvidos a tais vozes, quer a Câmara Municipal de Lisboa, quer os governantes nacionais, são muito pouco dados a investir verbas em cultura.
Por assim ser, “O que poderia ter sido é uma abstração, que permanece uma perpétua possibilidade, somente num mundo de especulação”. Vejamos um exemplo, em 2009, foi noticiado que David Adjaye, um mundialmente prestigiado arquitecto britânico nascido na Tanzânia, concebeu um projeto para um centro cultural multidisciplinar de arte e cultura africana, que se previa ser erguido na Avenida 24 de Julho em Lisboa.
O projecto visava criar uma extraordinária praça pública e um espaço intercultural, que assinalasse e comemorasse a longa história entre Portugal e o continente africano. O projecto do arquitecto custou 65.000 Euros, valor que foi suportado pela Fundação Calouste Gulbenkian, mas posteriormente foi abandonado, uma vez que a Câmara Municipal de Lisboa desistiu de participar.
Abaixo, uma imagem do que “poderia ter sido”, mas que acabou por ser mais um exemplo de “caminhos que nunca tomámos, rumo as portas que nunca abrimos…”
David Adjaye, o arquitecto, concebeu para a capital dos Estados Unidos da América, Washington, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. Inaugurado em 2016, atrai cerca de 10.000 pessoas por dia, sendo o segundo museu mais visitado de Washington, cidade que como se sabe, tem alguns dos melhores do mundo.
No entanto, não foi apenas os Estados Unidos da América que decidiram dar a conhecer e celebrar a sua herança africana, o Brasil decidiu fazer o mesmo. Para tal recorreu a um outro muito prestigiado arquitecto, Francis Kéré, que nasceu no Burkina Faso mas que também tem nacionalidade alemã.
Francis Kéré foi o primeiro arquitecto de origem africana a vencer o Pritzker, uma espécie de prémio Nobel da arquitectura. Para o Brasil, e mais especificamente para o Rio de Janeiro, projectou um ambicioso centro cultural com uma enorme biblioteca, a Biblioteca dos Saberes.
Localizado no Terreirão do Samba, perto da Pequena África, o projecto celebra a rica herança africana e indígena do Brasil. Abaixo, Francis Kéré aquando da apresentação do seu projecto, que será inaugurado em 2029.
“O que poderia ter sido é uma abstração, que permanece uma perpétua possibilidade…”, sendo esse também o caso do Museu Judaico de Lisboa, projectado por Daniel Libeskind.
Daniel Libeskind nasceu na Polónia mas há muito que se naturalizou norte-americano. É seu o projecto do One World Trade Center em Nova Iorque, que foi erguido onde antes dos atentandos do 11 de Setembro de 2001 se erguiam as Torres Gémeas.
É também de Daniel Libeskind, o desenho do Museu Judaico de Berlim, um edifício em forma de zigue-zague, que representa uma Estrela de David deformada. Espaços vazios de cimento atravessam o museu, simbolizando a ausência deixada pelo Holocausto.
É um espaço escuro e frio de vinte e quatro metros de altura, iluminado apenas por uma pequena fresta de luz no topo. O jardim é constituído por quarenta e nove colunas de concreto inclinadas, que provocam uma sensação de desorientação nos visitantes.
Abaixo o interior do Museu Judaico de Berlim com mais de dez mil rostos de ferro no chão.
Os problemas de licenciamento do Museu Judaico de Lisboa arrastam-se nos gabinetes da Câmara Municipal há mais de uma década. Em 2016 esteve previsto ser construído no Largo de São Miguel em Alfama, mas a autarquia queria construir habitações nesse local. Não é difícil de adivinhar, que passados mais de dez anos, nem uma única habitação foi erguida.
Depois o local escolhido foi a zona de Belém, mas vá-se lá perceber porquê, nada parece avançar. Em qualquer dos casos, se alguma vez chegar a ser erguido, o museu irá dar a ver a decisiva importância da comunidade judaica para a formação histórica da cidade de Lisboa e da identidade cultural de Portugal.
Sem a comunidade judaica não teria havido “Os Descobrimentos Portugueses” nem muitas outras coisas mais que tanto orgulham a nação, ainda assim, a Inquisição não se cansou de perseguir judeus, e a realeza não hesitou em muitos expulsar e outros converter à força.
Aqui fica o que poderá vir a ser o Museu Judaico de Lisboa, em Belém, mesmo junto ao Tejo.
A expulsão e a conversão forçada dos judeus em Portugal, decretadas por D. Manuel I em 1496 e consolidadas no início do século XVI, são amplamente consideradas pelos historiadores como um acontecimento que causou danos profundos e duradouros ao desenvolvimento económico, cultural e científico do país.
A comunidade judaica era composta por uma elite culta e instruída, todavia, com a expulsão, conversão forçada e subsequentes perseguições ao longo de séculos, ascendeu uma outra “elite”. Esta outra suposta “elite”, de instruída e culta pouco tinha, mas peneiras tinha muitas.
Essa outra “elite” perdura até aos dias de hoje, e por coincidência, ainda a semana passada dela falámos neste blog: https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/04/a-contra-revolucao-faz-se-de-queques-e.html
A manifestação mais visível dessa outra “elite” nas décadas mais recentes são os designados “queques” ou “betos”. Um “queque” ou “beto” só quer aparentar possuir bom gosto, sofisticação e cultura, todavia, não tem nada disso, e é precisamente por tal razão, que no Dia da Mãe irão levar as suas progenitoras a merendar ao Parque Eduardo VII, ao Chic-Nic.
Portugal e a sua capital não têm um museu que celebre a sua herança cultural africana, e também não têm um que comemore o seu legado judaico, porém, tem herdeiros subsidiados para festejar o Dia da Mãe num Chic-Nic.
Uma coisa muito característica dos “queques” e “betos” é a forma como usam a língua portuguesa. Fiéis ao culto que fazem das aparências, de modo a parecerem ser uma elite culta, sofisticada e instruída, usam maneirismos como por exemplo tratar pessoas mais velhas ou amigos dos pais por “tios” ou “tias”.
Não nos vamos alargar sobre este tema, mas sendo Dia da Mãe, não podemos deixar de assinalar que um “queque” ou “beto” quando se dirige à sua progenitora, o faz sempre antecedendo um artigo definido, por exemplo, não dizem “Mãe estás gira”, mas sim “A mãe está gira”.
São tiques linguísticos e, por falar nisso, um outro museu que Lisboa não tem, é um dedicado à Língua Portuguesa. Mas se não o tem a capital de Portugal, tem-no São Paulo no Brasil.
O Museu da Língua Portuguesa é um dos mais inovadores e visitados do Brasil. Celebra o português como uma língua viva e em constante transformação, usa a tecnologia, experiências interactivas e sensoriais para contar sua história e diversidade.
A exposição permanente ocupa vários andares, destacando-se as salas dedicadas à "Língua Viva" e às Viagens da Língua" através de mapas animados, vídeos e jogos. Existe também uma espécie de "planetário de palavras" com projecções que homenageiam os clássicos da literatura e da poesia.
E pronto, assim finalizamos este nosso texto muito Chic-Nic.










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