Como antes anunciámos, iniciaremos hoje uma série de textos que se prolongarão até ao final de Agosto, nos quais nos dedicaremos a verões desastrosos. Não nos centraremos em acontecimentos reais, mas sim em ficções, lendas, contos e histórias, o mesmo é dizer, o nosso o objecto de trabalho são as narrativas e os relatos literários.
Para quem quiser saber mais pormenores sobre esta missão estival a que nos propomos, aqui fica a introdução que ontem escrevemos: https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/07/as-mais-desastrosas-historias-de-verao.html
Um funeral não é por norma um momento agradável, pior ainda o será quando acontece em pleno Verão. O romance “Crematório” do escritor espanhol Rafael Chirbes (1949-2015) inicia-se com a morte e o velório de Matías Bertomeu, alguém que em jovem tinha sido um idealista social e político, mas que mais tarde na vida decidiu antes dedicar-se à agricultura biológica. É cómico.
O enredo arranca portanto com o falecimento de Matías Bertomeu no hospital de Misent, uma cidade fictícia da costa espanhola, o homem deixou-se consumir pelo tabaco e pelo álcool e findou-se aos sessenta e cinco anos de idade.
O irmão de Matías é o empresário e magnata da construção civil Rubén Bertomeu, uma figura que simboliza a ganância desmedida, a corrupção urbanística e a decadência moral associadas à bolha imobiliária que em poucas décadas transformou completamente toda a costa espanhola, sobretudo a chamada Costa Blanca, que se situa junto ao Mar Mediterrâneo.
Só para termos uma ideia do que na realidade sucedeu, vejamos primeiro uma foto de Benidorm há umas quantas décadas:
Vejamos agora uma foto da mesma localidade, tirada praticamente do mesmo sítio, na actualidade:
É um tanto ou quanto risível, que haja quem dispenda bom dinheiro para ir passar uma semana ou até uma quinzena, rodeado de cimento. Mas mais do que isso, quem decide passar férias em tais cimentados sítios, estará simultaneamente cercado de multidões de veraneantes ululantes, ser-lhe-á servido nos restaurantes como petisco “very typical” uma paelha congelada e pré-cozinhada, e por todo o lado encontrará quem teimosamente insista em lhe propor as mais divertidas e alegres actividades, como por exemplo, “sunset parties”, “after hours parties”, “beach parties”, "boat parties” e mais o raio que os parta.
O principal objectivo de quem decide passar uma semana ou uma quinzena no meio do cimento, a ingerir coisas “very typical” e a ir quase obrigado a “parties”, é estar perto do mar e deixar-se ficar na praia de barriga para o ar a apanhar sol. Todavia, o facto é que dezenas de milhares têm exactamente o mesmo propósito e por consequência disso, acabam por ficar em pleno areal todos atarracados, uns por cima dos outros.
Transcrevamos uma passagem do romance “Crematório” de Rafael Chirbes, no qual o personagem Rubén Bertomeu observa a paisagem e reflecte sobre a especulação imobiliária e a transformação drástica da costa litoral ao longo da sua vida:
“Entre los edificios que se levantan a mi derecha puedo ver las palmeras, el azul del mar, e incluso una delgada línea amarillenta, la playa del Nido. La frecuenté de niño, de adolescente, pero ahora no se me ocurriría poner los pies en ese sitio de aguas dudosamente limpias y siempre atestado de bañistas.”
Não deixa de ser irónico, que seja precisamente Rubén Bertomeu, o empresário e magnata da construção civil e irmão do antes idealista e depois agricultor biológico Matías Bertomeu, a quem ocorra reflectir sobre o desastroso estado a que chegou a praia da sua infância e adolescência.
Abaixo uma pintura do artista valenciano Joaquín Sorolla (1863-1923):
Em seguida, abaixo, uma outra imagem, esta do grande fotógrafo britânico Martin Parr (1952-2025):
Tal como o pintor Joaquín Sorolla, outrora havia quem idealizasse o mar e as praias nuas, a imensidão luminosa dos puros areais e as ondas brancas, mas isso era dantes, agora os ideais estivais parecem ser sobretudo de pechisbeque.
Mais uma vez, é pela voz de Rubén Bertomeu, o inescrupuloso construtor civil, que o escritor Rafael Chirbes apresenta um retrato cru da era da bolha imobiliária no litoral mediterrâneo espanhol.
Chirbes fala-nos nesse excerto de imagens publicitárias que vendem uma utopia ecológica habitacional ("casas surgiendo del verde, levantándose en el verde"), que na realidade, se traduzem em toneladas de cimento.
As frases em inglês ("Enjoy all the Mediterranean") e em francês ("Entre tout le soleil et le bleu") mostram-nos como essas habitações foram concebidas especificamente para atrair compradores estrangeiros, vendendo-lhes sol e mar como produtos exclusivos:
“Fotomontajes, vistas retocadas, trucadas, sirven como señuelo para atraer a más y más compradores, imágenes virtuales de casas surgiendo del verde, levantándose en el verde, creciendo en el verde ante el telón azul claro del cielo, y el azul un poco más oscuro del mar. Enjoy all the Mediterranean. Entre tout le soleil et le bleu. Bertomeu Top Hills: pon el Mediterráneo a tus pies y disfruta del regalo del sol”.
Matías Bertomeu, o personagem que falece logo no início do livro e que é uma espécie de contraponto do seu irmão o promotor imobiliário Rubén Bertomeu, era um idealista, no entanto acabou por retornar cansado à sua terra natal e canalizar todos os seus ideais para a agricultura biológica.
Na verdade, Matías tinha desistido de lutar, mas como não queria sentir-se um desiludido, lá arranjou um pequeno negócio com que se entreter para alimentar a ilusão de que continuava o seu combate por um mundo melhor.
Também a filha de Rubén Bertomeu, de seu nome Silvia, vive em constante conflito ético com a riqueza gerada pela corrupção e a especulação imobiliária, assim sendo, adopta uma postura crítica e distante relativamente aos negócios do seu pai. Porém, as suas reservas éticas não a impedem de beneficiar do dinheiro e do poder do seu progenitor para levar uma vida bastante confortável e sossegada.
Matías Bertomeu refugiou-se na agricultura biológica, Silvia refugia-se na arte e na cultura para se colocar a si própria num pedestal de superioridade intelectual e moral. Silvia critica abertamente os negócios corruptos e a especulação imobiliária do pai, Rubén, no entanto, beneficia directamente da fortuna dele. A sua galeria de arte, os seus estudos e o seu nível de vida sofisticado são financiados pelo dinheiro que ela diz desprezar.
Em síntese, a Silvia, a arte e a cultura servem-lhe de escudo para não encarar o facto de que a sua estabilidade financeira depende da destruição urbanística da costa espanhola.
Em dado momento, Silvia, que para além de ter uma galeria de arte também trabalha como restauradora de interiores, reflectindo, coloca em contraste a sua postura e a do seu pai. Enquanto ele quer sempre mais dinheiro, poder e espaço, ela contenta-se com muito menos, basta-lhe ter prestígio no seu nicho de conhecidos:
“El éxito, para mi padre: ser más que los demás, ocupar más metros de suelo, subir más arriba, poner mejores materiales; que tus publicidades se vean más en los periódicos: como restauradora, la verdad es que el prestigio se queda limitado a un estrecho círculo de profesionales.”
Em conclusão, quer a culta e intelectual Silvia, quer o agricultor biológico Matías, são cúmplices passivos da corrupção urbanística resultante da ganância desmedida de Rubén Bertomeu, respectivamente seu pai e irmão. Silvia e Matías são ambos coniventes com o desastre perpetuado ao longo do tempo pelo litoral mediterrâneo espanhol.
Abaixo um quadro do espanhol Pablo Picasso, com mulheres correndo por uma praia onde não se avistam desastres urbanísticos.
Albert Speer (1905-1981) foi o arquiteto-chefe e Ministro do Armamento e Produção de Guerra da Alemanha Nazi. Projectou estruturas massivas para demonstrar o poder totalitário do regime, como por exemplo, o estádio para os comícios de Hitler em Nuremberga.
Um dia, quando visitou o grande anfiteatro de Verona em Itália, Speer teve uma iluminação, percebeu que nesse extenso recinto os indivíduos o deixavam de ser e se transformavam numa massa única.
No seu romance “Crematório”, Rafael Chirbes equipara os estádios totalitários com as colmeias de apartamentos idênticos na costa mediterrânea. A homogeneidade arquitectónica gera homogeneidade mental. Chirbes denomina o habitante típico das casas todas iguais como “o eterno veraneante”, um ser fantasmagórico e vazio, que em nada se distingue dos seus semelhantes e apenas aspira ao lazer estéril:
“Cuando visitó el anfiteatro de Verona, Speer se dio cuenta de que, si en ese lugar se aglomerasen personas con opiniones diferentes, quedarían unificadas en una sola opinión, y que precisamente ese era su propósito del estadio, conseguir que desapareciera el individuo. Convertirlo en masa. Lo mismo puede decirse de toda esa arquitectura de casas iguales de la costa. Han creado un personaje colectivo, que no sé si llamarlo el jubilado, o el eterno veraneante, un ser fantasmal, único y vacío, intrascendente, que no aspira a nada”.
Vamos caminhando para o fim deste nosso primeiro texto desta nossa série intitulada “As mais desastrosas histórias de Verão”, mas não queremos terminar sem antes falarmos de um outro desastre, que diariamente sucede nas praias da costa mediterrânea espanhola e não só.
Assim como a paisagem e a praia foram transformadas num produto de consumo, o mesmo está a acontecer com o corpo humano. Em poucos sítios isso é mais visível do que nas localidades massificadas e turistificadas situadas junto ao mar. Com efeito, é só olhar em redor, e algures no areal haverá certamente alguém a correr, a fazer flexões ou abdominais, e a jogar à bola com os pés, com as mãos ou com raquetes.
Mas não era suposto as gentes irem para a praia para se repousarem? Mas que mania é esta de se andarem sempre a estafar, a correr e a saltar? Mas qual será a graça de se pôr ao sol a suar? Terão as pessoas assim tanta necessidade de perder barriga e apresentarem um esbelto perfil helénico?
Para Chirbes, essa obsessão pela cultura física e pela remodelação do próprio corpo guarda um paralelo com a destruição e a remodelação agressiva da paisagem litoral. O corpo trabalhado e modelado deixa de ser um veículo de experiências vividas, passando ao invés a ser um objecto de consumo e de status, tal e qual como o é uma casa de férias num qualquer aldeamento turístico nas proximidades do mar.
Transcrevamos uma última passagem de “Crematório”: “Habia impregnado a la gente esta idea moderna de civilización, de cultura física, de cultivo corporal de los últimos tiempos: la idea de que tu cuerpo es responsabilidad tuya, materia prima, la materia que debes trabajar: formar, esculpir, moldear, como se hace con la plastilina que les dan los maestros a los niño.”
E pronto, com esta citação, terminamos este primeiro texto da série “As mais desastrosas histórias de Verão”, em breve há mais.









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