Lá
para a zona leste de Lisboa, logo ali a seguir a Santa Apolónia, há lugares antigos
da cidade que poucos conhecem ou sabem sequer que existem.
Entre
esses, destaca-se o edifício da Estação Elevatória dos Barbadinhos, hoje em dia
Museu da Água.
A
primeira coisa que certamente causará uma certa estranheza, é o facto da
estação elevatória se chamar “dos Barbadinhos”, nome idêntico ao de uma íngreme
calçada ali próxima, que desce lá do alto da Graça até praticamente à beira
Tejo.
O
nome barbadinhos tem a ver com uns frades italianos que por ali assentaram
arraiais no século XVIII e com o convento que por esses lugares existia, no
qual estiveram recolhidos esses monges de longas barbas, que o povo lisboeta de
então apelidou de barbadinhos.
Por
consequência de tudo isso, tal designação apegou-se a esses sítios até aos dias
de hoje.
A
Estação Elevatória dos Barbadinhos foi durante o século XIX e o início do XX, o
local onde se efectuava a distribuição domiciliária de água a Lisboa. À época,
toda a maquinaria que aí existia era eficaz e moderna, todavia, quando para ela
olhamos agora, parece-nos vinda de algum antigo livro de ficção científica
escrito por Júlio Verne.
Da
Estação Elevatória dos Barbadinhos tem-se uma óptima vista do rio, que se
estende imensamente pela sua frente. Em dias de sol, a luz espelha-se no Tejo e
tudo em volta ilumina.
É
nesse ambiente algo contraditório do Museu da Água, simultaneamente um símbolo
de modernidade e futuro mas também de passado, em que se encontra no presente
uma exposição do fotógrafo catalão Joan Fontcuberta.
A
exposição está integrada no festival de fotografia Imago, que acontece por
estes dias em vários locais de Lisboa. Já aqui antes, neste blog, falámos de
Joan Fontcuberta e das suas narrativas fotográficas, nas quais o
artista testa a nossa credulidade diante das imagens.
Em
boa verdade, as suas narrativas fotográficas são ficções, contudo, o modo como
nos são apresentadas levam-nos a crer que não estamos perante ilusões, mas sim
perante factos e realidades concretas.
Abaixo,
uma imagem de Joan Fontcuberta na qual vemos algo que nos parece factual, mas
que é uma narrativa fotográfica encenada e criada pelo artista.
É
excelente que as fotos de Joan Fontcuberta estejam expostas no Museu da Água,
pois tal como essas imagens, também esse lugar parecer ser real e ao mesmo tempo
ter algo de ficcional.
O
Festival Imago estende-se por diversos locais da cidade, sendo que, a palavra
imago vem do latim e tem diferentes significados, dependendo da área em que é
usada.
Na
biologia, imago é o último estágio da metamorfose de um insecto. Na psicanálise
é uma imagem idealizada ou uma lembrança inconsciente que se forma enquanto se
é criança, e que continua a influenciar as suas relações e escolhas na vida
adulta. Na teologia (Imago Dei) é uma expressão que significa “Imagem de Deus”,
usada para descrever a crença de que os seres humanos são reflexos do Criador.
De
entre os múltiplos locais por onde se estende o Festival Imago, nós escolhemos
três, assim sendo, para além do já referido Museu da Água, temos outros dois.
Saídos
dos lugares dos Barbadinhos, atravessamos algumas ruas e chegamos ao Campo de
Santa Clara onde desde há muito se realiza a Feira da Ladra. Depois seguimos em
direcção às Portas do Sol, onde lá de cima se mira novamente o rio. Em seguida
descemos por sítios como a Rua das Pedras Negras, para finalmente arribarmos à
Rua da Madalena.
Em todo esse caminho, acompanham-nos imagens idealizadas e lembranças inconscientes de uma Lisboa de outrora, uma que ainda não se tinha metamorfoseado numa urbe turística.
Percorrida
essa antiga Lisboa, é precisamente na Rua da Madalena que encontraremos a
Galeria de Santa Maria Maior, onde visitaremos a segunda exposição de
fotografia do Festival Imago.
Em
boa verdade, na Galeria de Santa Maria Maior há várias mostras, mas a nós
interessa-nos particularmente uma, a do fotógrafo português Paulo Simão.
Com
as suas imagens, Simão cria uma espécie de monumentos anti-evocativos. As suas
fotos mostram-nos obras de arte públicas das quais foram retiradas as estátuas
das figuras homenageadas.
Serão
necessários novos monumentos e outras formas de celebrar os “heróis” de uma
nação ou de uma comunidade? O que fazer com os monumentos existentes no espaço
público, que evocam e celebram acontecimentos ou figuras históricas anacrónicas
que colidem com a nossa visão contemporânea e humanista da sociedade? Como
lidam enfim as democracias com o seu passado colonial e imperial?
Todas
estas são questões, que as fotografias de Paulo Simão colocam a quem as
contemplam, quanto a respostas, isso competirá a cada sociedade e comunidade
encontrar as suas.
Descendo
a Rua da Madalena em direcção à Praça da Figueira, continuamos pela Rua das
Portas de Santo Antão e depois pela Avenida acima. A dado passo encontraremos a
Leica Store Lisboa. É aí que está a nossa terceira exposição, “New Lisbon” de
Gonçalo Fonseca.
“New
Lisbon” obteve diversos prémios internacionais, como o Leica Oskar Barnack
Award (2020), Estação Imagem – Vida Quotidiana (2020) e Yunghi Grant (2020),
tendo sido ainda finalista do Pictures of the Year International (2021). A
mostra já foi exposta em quatro continentes.
“New
Lisbon” fala-nos do impacto que a incerteza habitacional tem na vida das pessoas
mais vulneráveis da cidade. O fotógrafo faz uma crónica exaustiva do falhanço
de décadas de políticas habitacionais na capital.
O
investimento de capitais estrangeiros e a indústria do alojamento local
contribuíram decisivamente para uma crise habitacional na capital, sendo que,
em 2019, quando Gonçalo Fonseca iniciou este seu trabalho, já Lisboa era a
cidade na Europa e a quinta no mundo onde os seus habitantes mais dificuldades
tinham em pagar uma casa.
Entre outras gentes, Gonçalo Fonseca documenta a vida dos idosos que são vítimas da pressão imobiliária e da consequente ameaça de despejo.
Findado este percurso desde a velha à nova Lisboa, por aqui ficamos, vamos dormir.






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