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Outra vez o Irão, ou melhor, a Pérsia


E novamente o Irão, que outra vez se revolta e agita, e com razão. O Irão, esse sitio em que ainda há pouco, e durante milénios, foi a bela, sensual e poética Pérsia. Terra na qual, o mais clássico dos seus poetas, Hafiz (1310-1390), celebrava na sua escrita a natureza, o amor, as mulheres e o vinho.

Hafiz de Xiraz, poeta persa do século XIV que viveu na cidade de Xiraz, no sudoeste do actual Irão, é uma voz lírica e mística que ouvimos ainda. Mais de sete séculos se passaram, mas a sua poesia continua a fazer sentido.

“Vem, oh vem", diz o poeta à mulher amada, "neste momento eu procuro no vinho a minha ruína”, e logo em seguida acrescenta, “Quem sabe se nessa ruína não se encontrará um tesouro divino?"

“Que o vinho te reconforte o coração, pois o mundo é um deserto, e, no fim de tudo, o teu pó misturar-se-á com a argila do oleiro." Para o poeta o vinho é um bálsamo para as dores de alma de velhos e novos, "Se o arrulho da rola emudece, que importa? Escuta a música suave que sobe da ânfora”. Na poesia de Hafiz, para se ser feliz bastava "vinho de dois anos e uma bem-amada de catorze de idade…”



É certo que ficarão no mesmo exacto sítio, todavia, o actual Irão e a antiga Pérsia são coisas muito distintas. O presente regime dos Aiatolás é cruel, pio, rígido e casto, nele reina a hipocrisia, e o país está cheio de castrantes regras religiosas, sendo que os governantes têm um desprezo enorme pelas liberdades colectivas e pelas de cada um.

Na Pérsia antiga, Hafiz, o poeta, seria bem mais livre e feliz, do que o são os iranianos de hoje em dia. Muito do que ele então dizia, é agora considerado uma heresia e, caso estivesse vivo, os seus ditos valer-lhe-iam a prisão, quando não coisa pior: “Não me censures o haver trocado a mesquita pela taberna: o sermão era longo, e o tempo fugia."

Em boa verdade, Hafiz, o poeta, usou o vinho como uma metáfora para o amor divino e para a embriaguez espiritual, simbolizando desse modo a união mística de Deus com os prazeres terrenos. Era nas tabernas persas que ele encontrava os espaços sagrados apropriados para o despertar da alma, para o celestial e sobrenatural.


Mas se era nas tabernas, que o lírico e místico poeta encontrava o divino, não o era menos na natureza e no amor das mulheres. Vejamos nesse contexto, este seu bonito poema:

“Pela magia dos teus olhos, ó feliz rapariga, pela maravilha da penugem de tuas faces;
Pelo hálito de tua boca de rubis, pela tua cor e pelo teu aroma, ó bela Primavera que me enlevas;
Pela poeira do caminho que trilhas, pela terra que, sob os teus pés, faz ciúme à água clara;
Por esse andar que lembra o voo da perdiz dos montes, por esses olhos mais doces do que os olhos da gazela;
Por tua graça e pelo teu hálito em que há o perfume das madrugadas, pelo feitiço dos teus cabelos cheirosos como o vento da tarde;
Por esses olhos de ônix que tanto deslumbram os meus olhos, por essas pérolas do escrínio de tua palavra;
Pela flor de tuas faces, ó Roseira de inteligência, por esse divino jardim, lar dos meus sonhos: Hafiz, o poeta, jura, se para ele volves o olhar, que, para satisfazer-te, sacrificará não só todos os seus bens, mas ainda a própria vida.”


A sensualidade e a busca espiritual da poesia de Hafiz, atravessa toda a literatura e cultura persa e chega inteira até ao século XX. É dessa época, o poema de que em seguida falaremos, “Endereço” de Sohrab Sepehri (1928-1980).

“Endereço” não se refere a um local físico, mas sim a uma viagem poética, ou seja, a uma busca pela verdade e pelo amor através de elementos da natureza como uma árvore, um jardim e uma fonte. No poema há um passante, que aponta para esses elementos naturais, e guia assim um cavaleiro na jornada que o conduzirá à casa do amigo.

A casa do amigo, o destino final do cavaleiro, representa um estado de iluminação espiritual, que resulta do encontro com aquele(a) por quem se tem um sincero afecto. A pureza desse afecto, é simbolizada por uma criança que apanha um pássaro de um ninho de luz. 

A palavra persa para “Endereço” é “Address" e tem um duplo sentido, pois o termo significa a morada do local onde se habita, mas significa simultaneamente e literalmente “Onde fica a casa do amigo?"

Aqui fica o poema “Endereço” de Sohrab Sepehri:

“Onde fica a casa do amigo?”, perguntou um cavaleiro ao amanhecer.
O céu fez uma pausa.
Um passante afastou um feixe de luz que trazia nos lábios,
ofereceu-o à escuridão das areias,
e apontando um branco álamo respondeu:
“Antes da árvore
há uma alameda mais verde que os sonhos de Deus
e lá o amor é de um azul igual ao das asas da sinceridade.
Segue até o fim desse caminho, que vai para lá da adolescência
e vira em direcção à flor da solidão.
A dois passos da flor
perto da fonte dos mitos eternos da Terra
um medo lúcido te envolverá.
Na intimidade que flui nesse espaço, ouvirás um ruído
e verás uma criança
que sobe a um alto plátano para apanhar um jovem pássaro no ninho da luz.
Pergunta-lhe então:
Onde fica a casa do amigo.”

Abaixo uma imagem do filme “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”, que foi realizado pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami em 1987. A história desenrola-se numa zona rural e acompanha um rapaz chamado Ahmed que, por engano, levou para casa o caderno do seu colega de escola Mohamed.

Temendo que o amigo seja severamente castigado se não entregar os seus deveres todos feitos no dia seguinte, Ahmed foge de casa para tentar encontrar a morada do colega Mohamed, que se situa numa aldeia vizinha.

As aventuras e desventuras de Ahmed pela aldeia enquanto procura pela casa de Mohamed, são também elas uma busca espiritual na qual o rapaz contacta com a maldade, com o desdém, com o medo e com a solidão, mas em que também aprende o que é a persistência, a lealdade, a sinceridade e a amizade.


Abbas Kiarostami nasceu em Teerão em 1940 e morreu em Paris em 2016. Entre o nascimento e a morte foi pintor, poeta, fotógrafo e cineasta. Em 1987 lançou o filme que lhe trouxe um grande reconhecimento internacional, Onde Fica a Casa do Meu Amigo?. Iniciou assim uma fase da sua vida extremamente bem-sucedida. Realizou depois Close-Up, em 1990, O Gosto da Cereja, em 1997, que lhe valeu a prestigiada Palma de Ouro no Festival de Cannes, e O Vento Levar-nos-á, de 1999, talvez a sua obra maior, com a qual conquistou o Leão de Prata no Festival de Veneza.

“O Vento Levar-nos-á” é um dos mais poéticos filmes do realizador iraniano, sendo uma reflexão sobre os valores da vida e da morte, mas igualmente acerca do que é o cinema e do que é o tempo.

A história é simples, Bezhad, um engenheiro civil que se faz passar por jornalista, infiltra-se numa longínqua aldeia para documentar os rituais de luto que antecedem a morte de uma anciã. Mas como a efectiva morte da dita tarda em acontecer, Bezhad vai permanecendo na aldeia, ligando-se cada vez mais ao seu ritmo quotidiano e ao seu modo de vida.

Aqui fica o trailer de “O vento levar-nos-á”, em que podemos ouvir um camponês a recitar um trecho de um poema ao engenheiro civil:

Prefere o presente às belas promessas
Até um tambor soa melodioso
quando ouvido de longe
Prefere o presente…




O título do filme de Abbas Kiarostami, foi retirado de um poema da iraniana Forough Farrokhzad (1934-1967). A poeta morreu com apenas 32 anos anos de idade, sendo que posteriormente, a sua poesia foi proibida no seu país pelo regime dos Aiatolás.

O vento levar-nos-á

Na minha noite, infelizmente tão curta,
o vento está prestes a encontrar-se com as folhas das árvores
Na minha noite, tão breve, e plena de uma angústia devastadora

Ouve
Ouves o sussurro das trevas?
Olho com estranheza esta felicidade,
estou viciada no meu desespero
Ouve
Ouves o sussurro das trevas?

Ali, na noite, algo acontece
A lua está vermelha e ansiosa
e sobre o telhado
que a qualquer momento pode ruir
as nuvens, qual bando de carpideiras,
aguardam o nascimento da chuva

Um segundo,
depois nada
Atrás desta janela a noite treme
e a terra abranda a sua rotação
Atrás desta janela
qualquer coisa desconhecida inquieta-se comigo e contigo

Tu, verde dos pés à cabeça,
pousa as tuas mãos, quais memórias escaldantes,
nas minhas mãos amorosas
e entrega os teus lábios
repletos do calor da vida
ao toque dos meus lábios amorosos

O vento levar-nos-á
o vento levar-nos-á

Abaixo uma foto da poeta Forough Farrokhzad, que morreu jovem.


Um dos poetas favoritos de Abbas Kiarostami era Omar Khayyam, que viveu na Pérsia entre 1048 e 1131, portanto já há muito tempo. Num seu simples dito, resume-se toda a sua filosofia de vida: “Um pouco de pão, um pouco de água fresca, a sombra de uma árvore, e o teu olhar, nenhum sultão é mais feliz do que eu, e nenhum mendigo mais triste”.

Omar Khayyam tinha plena consciência de que somos pó e a ele retornaremos, e que por consequência disso, é em encher a taça, beber o vinho, amar e aproveitar, pois que a vida é breve e o futuro incerto.

Bebe vinho! Receberás
Com ele a vida eterna. Vinho!
Único filtro que te pode
Restituir a mocidade.

Mocidade! A estação divina
Das rosas e dos vinhos e dos
Amigos sinceros! Desfruta
Esse instante fugaz que é a vida.

Eis a única verdade:
Somos os peões no xadrez
Que Deus joga. Ele desloca-nos
Para diante, para trás,

Detém-nos, de novo, impele-nos,
Lança-nos um contra outro...
Depois um a um nos mete
Todos na caixa do Nada.

Abaixo uma pintura que representa Omar Khayyam.


Vejamos uma declaração do cineasta Abbas Kiarostami, sobre o poeta que viveu na Pérsia há quase um milénio: “Gosto da simplicidade da poesia de Omar Khayyam, e também da sua inteligência, sensualidade, precisão e concisão. Ele lembra-nos constantemente da morte e da nossa necessidade de vivermos com ela. Para ele, a vida consiste em ter em mente que o ar que inspiramos deve sempre ser expirado. Os seus poemas colocam-nos sem cerimónia diante da morte, mas nem por isso são pessimistas, incitam-nos a tomar consciência da nossa condição, para louvarmos ainda mais a vida. Por isso Khayyam gosta tanto de elogiar o vinho, o prazer e a embriaguez que dele advém. Segundo ele, a vida passa tão depressa, que não devemos perder nenhuma oportunidade para termos um instante de prazer, é essa a finalidade da nossa presença na Terra.”

Como antes dissemos, Abbas Kiarostami nasceu em Teerão em 1940 e morreu em Paris em 2016. Entre o nascimento e a morte foi pintor, poeta, fotógrafo e cineasta. 
Não vamos mais falar dos seus filmes, mas sim dos seus poemas e fotos.

Como poeta, Abbas Kiarostami expressa-se com a brevidade e a leveza típica dum haiku japonês. A sua poesia é simples apenas na aparência, foca-se no pormenor, concentra-se no momento, apresenta pensamentos passageiros, reflexões, angústias profundas e alegrias súbitas. Em suma, está profundamente enraizada na cultura e literatura persa.

Vejamos uns quantos exemplos dos seus, ilustrados pelas suas fotos.

Na tua ausência
converso
contigo,
na tua presença
converso
comigo.


A minha sombra acompanha-me
agora à minha frente
agora ao meu lado
agora atrás de mim.
Que alívio
estes dias cobertos de nuvens!


Este meu dia
perdi-o
como todos os outros dias
metade pensando sobre ontem
metade pensando sobre amanhã


Cem árvores frondosas
foram quebradas pelo vento
mas o vento
levou só duas folhas
de uma pequena árvore



Para além do bem e do mal
o céu
é azul


Aproximo o meu ouvido
do sussurro do vento
do estrondo do trovão
da melodia das ondas.


E pronto, por aqui terminamos este nosso regresso à bela, sensual e poética Pérsia, hoje Irão, lugar sempre muito presente neste blog:


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