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O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso... (prolongamento)


Começámos aqui há uns tempos a dissertar sobre as grandes emoções, fazendo para isso vastas reflexões artísticas e literárias sobre o pontapé na bola. Hoje vamos para um prolongamento dessas anteriores dissertações.

Para quem é muito letrado e erudito, o futebol pode parecer um assunto corriqueiro e menor, porém, hão de ver que não. O jogo da bola tem tanta profundidade dramática como uma tragédia de Shakespeare, tem tanto mistério e suspense como uma película de Alfred Hitchcock, e é tão emocionante e intenso como “A Odisseia”, o épico poema de Homero.

Antes de continuarmos para prolongamento, aqui ficam os nossos dois anteriores textos. Este é o primeiro https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/06/o-futebol-nao-e-uma-questao-de-vida-ou.html, e este é o segundo https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/06/o-futebol-nao-e-uma-questao-de-vida-ou_02105897334.html

O autor da frase “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso” foi Bill Shankly, o lendário treinador do Liverpool, durante as décadas de 60 e 70. Disse-a numa entrevista televisiva e desde aí as suas palavras têm sido imensamente citadas, o que se percebe, pois que o dito tem a sua graça.

Todavia, para além da graça, tem também uma certa verdade, pois o futebol não raras vezes foi efectivamente uma questão para além da vida e da morte. É sobre isso que nós nos vamos debruçar neste presente texto.


“Vitória ou morte" foi a célebre e intimidadora frase que o ditador fascista Benito Mussolini terá enviado aos jogadores da seleção italiana antes das partidas decisivas do Campeonato do Mundo de 1934. Este lema ("vincere o morire") resume perfeitamente a enorme pressão política e a violência que marcaram a conquista do primeiro título mundial de Itália.

A Itália de Mussolini foi encarregue de organizar o Mundial de 1934, para o ditador a competição era uma vitrine para mostrar a grandeza da Itália fascista. Enormes estádios foram erguidos, símbolos do regime espalharam-se pelas cidades-sede e o futebol passou a ocupar um papel central na narrativa nacionalista italiana.

A “Squadra Azzurra” avançou até à final depois de eliminar os Estados Unidos, a Espanha e a Áustria. Na final, disputada em Roma diante de Mussolini no Estádio Nacional do Partido Nacional Fascista, os italianos venceram a Checoslováquia por 2-1 no prolongamento. Antes do início da partida, o ditador enviou novamente aos jogadores uma ameaçadora mensagem que ficaria para a história: “vincere o morire”.

Ao treinador da equipa italiana disse-lhe que o responsabilizava pessoalmente pelo resultado, algo que terá motivado no balneário comentários esperançosos dos jogadores, pois que em caso de derrota talvez só mandassem fuzilar o líder da equipa e não a eles.

Quem marcou o golo que deu a vitória a Itália foi Angelo Schiavio e na baliza da Checoslováquia estava o mítico guarda-redes František Plánička (na imagem abaixo) a quem então chamavam “O Gato de Praga”, devido aos seus enormes e velozes reflexos.


František Plánička ficou para a eternidade, como o homem que perdeu uma final mundial para salvar as vidas dos seus adversários.

Jogava-se o prolongamento, o atacante italiano Angelo Schiavio chutou a bola, foi um disparo lento que Plânička poderia ter facilmente defendido. No entanto, inexplicavelmente, o esférico acabou no fundo das redes. O olhar do guarda-redes para Schiavio denotava cumplicidade, percebeu-se que František Plánička decidiu perder o jogo mais importante da sua carreira para salvar a vida dos seus rivais.

A partida terminou 2-1 e a 'Azzurra' celebrou o seu primeiro título mundial perante o olhar alegre de Mussolini, mas Schiavio, o autor do golo da vitória não participou nas celebrações.

František faleceu em 1996 aos 92 anos, os familiares do falecido encontraram entre os seus pertences uma mensagem antiga que dizia: "Obrigado, salvaste as nossas vidas. Carinhosamente, Angelo Schiavio.”

Abaixo uma das muitas esculturas que Mussolini mandou erguer em honra dos grandes futebolistas italianos, perto do estádio onde foi disputada a final de 1934.


Mas vamos a uma outra história de vida e de morte no futebol, uma também passada nessas décadas iniciais do século XX. Matthias Sindelar foi um dos grandes futebolistas da história da Europa, tendo sido oficialmente eleito o maior desportista austríaco do século XX.

Chamavam-no “Der Papierene" (O Homem de Papel), isto devido à sua esguia fisionomia e extrema agilidade. Era a principal figura da lendária seleção da Áustria dessa época, a “Wunderteam”, ou seja, a Equipa-Maravilha.

Matthias Sindelar destacava-se pelo seu controlo de bola, pelos dribles imprevisíveis e pela elegância técnica, sendo também conhecido como “O Mozart do Futebol".

Em Março de 1938, a Alemanha Nazi invadiu e anexou a Áustria, evento que ficou para a história como o “Anschluss”. Nesse contexto, a seleção austríaca foi dissolvida para que os seus jogadores fossem integrados na equipa da Alemanha Nazi.

Um mês depois, em Viena, o regime nazi organizou o jogo da reconciliação, que servia como propaganda política para celebrar a anexação da Áustria pelo Terceiro Reich. Esse era suposto ser também o jogo de despedida da seleção austríaca, cujos jogadores seriam posteriormente integrados na seleção alemã.

“O Homem de Papel", apesar de ser austríaco, foi “convidado” a jogar pela seleção alemã, o que ele recusou terminantemente, pois queria alinhar pela sua Áustria. As autoridades nazis exigiram que a Alemanha vencesse o desafio, ou então, e em alternativa, que o resultado final fosse um diplomático empate.

Contudo, Sindelar jogou de forma espetacular e a Áustria venceu por 2-0. Como se tal não bastasse, após marcar um golo, em vez de fazer a saudação às tribunas onde estavam oficiais de alta patente, festejou efusivamente e virou-se para a zona do estádio onde estavam os apoiantes judeus e austríacos, numa explicita afronta ao regime nazi.

Breve tempo depois, Sindelar foi encontrado morto em Viena ao lado da sua amante, também ela morta. É altamente provável que tenham sido envenenados com gás pela Gestapo, que há muito os perseguia. O funeral de Sindelar em Viena reuniu mais 20.000 pessoas, tornando-se numa manifestação pública silenciosa contra o regime nazi.


O poeta austríaco Friedrich Torberg dedicou um poema a Matthias Sindelar, “Auf den Tod eines Fußballers” (A propósito da morte de um futebolista). Apesar do nosso fraco domínio da língua germânica, vamos arriscar uma tradução:

Jogava futebol como nenhum outro,
tinha graça, leveza e um dom.
Dançava em campo, fintava o desgosto,
o "Homem de Papel" não vacilava.

Mas veio um dia um tempo sombrio,
pesadas botas marcharam no solo.
A pátria amada tremeu de frio,
e o verde relvado tingiu-se de anexação.

Exigiram-lhe usar cores de outra bandeira,
pediram que o génio saudasse o opressor.
Mas ele, que jogava de alma inteira,
recusou o convite com convicto rigor.

No último jogo de celebração forçada,
marcou o seu golo e dançou sem temer.
Frente à tribuna da gente fardada,
mostrou a Viena que não o iam vencer.

Depois veio o silêncio, a noite trancada,
um quarto fechado, o gás a correr.
Diz o relato da história oficial
que foi um acidente o que o fez falecer.

Mas quem conhecia o seu drible perfeito,
sabe que o craque não se quis curvar.
Para não jogar sob o jugo alheio,
preferiu o jogo da vida encerrar.

Morreu o atleta, salvou-se a memória,
daquele que os golos não quis partilhar.
Ficou o seu nome gravado na história,
o homem livre que ninguém pôde subjugar.

Abaixo a imagem em que Sindelar celebra um golo e baila diante da bancada onde estavam presentes as altas patentes nazis, foi a sua derradeira dança.


Mas passemos agora, neste nosso percurso futebolístico entre a vida e a morte, para um outro continente, o sul-americano, e mais especificamente para o Brasil. Estávamos na década de 50 do século XX, a Europa estava arrasada após a guerra, e o Brasil era visto como sendo o país do futuro.

O grande escritor judeu-austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou um livro precisamente com esse título, “Brasil, País do Futuro”. Zweig que tinha fugido para o Brasil para escapar ao nazismo e à guerra, via esse país como sendo o oposto da autodestruição europeia provocada por Hitler.

A expressão "país do futuro" referia-se tanto às vastas riquezas naturais quanto à grandeza espiritual e acolhedora do povo brasileiro. O autor celebrou a mestiçagem e a convivência pacífica entre diferentes raças e religiões. Para ele, o Brasil oferecia uma resposta humanista e pacífica à intolerância global.

Em meados do século XX, o Brasil sentia-se extremamente optimista, de tal modo que decidiu erguer do chão a arquitectonicamente mais moderna de todas as capitais, Brasília.


Foi também nesse contexto, que o Brasil organizou o Mundial de 1950, tendo sido construído no Rio o maior dos estádios do planeta, o Maracanã. Tudo por junto, a única coisa que podia acontecer era o Brasil ser campeão do mundo de futebol, coisa que a acontecer, sucederia pela primeira vez.

O Brasil chegou facilmente à final e na manhã de domingo do dia 16 de julho de 1950, as ruas do Rio de Janeiro estavam em transe. Havia celebrações antecipadas e carnavais por todo o lado, a vitória estava mais que assegurada, só faltava o jogo iniciar-se.

O jogo começou e como todos esperavam o Brasil marcou. Na segunda parte, o Uruguai, que era o adversário e equipava de azul-celeste, empata. Um mero pormenor, um simples contratempo, contudo, perto do fim, o Uruguai marca o segundo. O estádio emudece, e jamais se ouviu em toda a história do futebol um silêncio tão profundo como o daquele dia de domingo.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano descreveu esse momento, essa derrota tremenda que ficou para história como o Maracanazo:

“Eram duzentas mil almas que gritavam em uníssono.
Um clamor que parecia não ter fim.
Mas o destino vestiu-se de celeste
E, no sopro de um golo, o rugido virou morte.
O Maracanã parou de respirar.
Um silêncio ensurdecedor, tão pesado quanto o chumbo,
Cobriu o templo, sepultando o sonho verde e amarelo."


Naquela tarde o Maracanã transformou-se instantaneamente no lugar mais silencioso do planeta. O clima de extremo optimismo, foi sucedido por uma decepção com aura de tragédia grega.

Houve um verdadeiro luto nacional e uma autêntica comoção pública, tendo a imprensa local noticiado um surto de suicídios nesse dia, como causa directa do resultado do jogo.

O serviço médico do Maracanã atendeu dezenas de pessoas devido a crises de histeria, desmaios e convulsões. No estádio foram registadas oficialmente duas mortes por paragem cardíaca, provocadas pelo choque da derrota. Para além disso, um espectador ter-se-á atirado da arquibancada do estádio após o apito final do desafio.

O uruguaios estavam eufóricos, porém, o capitão da equipa vencedora, Varela, era a antítese dessa euforia. Sentindo pena da multidão derrotada e da tragédia em que o Brasil havia caído, Varela passou a noite seguinte ao jogo, sentado nos bares do Rio de Janeiro bebendo e conversando anonimamente com os brasileiros desolados.

O capitão Obdulio Varela andou de bar em bar, abraçado aos vencidos que choravam. Estavam todos a chorar e ninguém o reconheceu. Ele sentia-se culpado. Sentia que aquela dor lhe pertencia.

Varela, conhecido como “El Negro Jefe”, caracterizava-se pelo seu estilo tranquilo. A sua postura calma e segura mesmo perante dificuldades e adversidades contagiava os seus companheiros, que tendo-o como chefe, sentiam que estava tudo controlado e que as coisas só podiam correr bem.

Varela passou muito tempo a beber e a consolar os adeptos e jogadores brasileiros nos bares do Rio, dizendo sentir "uma lástima bárbara" pelos vencidos.


E pronto, por hoje chega, é o final deste prolongamento atravessado por questões de vida ou de morte e mais além. Quiçá no próximo texto,  sigamos para penáltis…

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