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Pagar a conta da luz com cimento em redor, é agora um momento poético e quiçá uma maravilha de Portugal


O título deste texto é enigmático, todavia, o mistério que dele se desprende, só se desvendará mesmo no final. Até lá chegarmos, passaremos por Roma, Buenos Aires, Osaka, Leça da Palmeira e Lisboa, sendo esta última a cidade onde tudo se deslindará.

Quando ouvimos dizer de uma qualquer cidade, que ela é como uma floresta de cimento, isso nunca é dito em tom de elogio, antes pelo contrário, o timbre usado é sempre o de desdém.

Sim, há quem imagine as cidades ideais como uma espécie de espaço ajardinado, com bonitas casinhas lá pelo meio, dessas construídas com materiais tradicionais e que possuem beirais, quintais e lindas telhas da ancestral cerâmica.

Há quem gostasse que as cidades fossem todas feitas de casas portuguesas, com certeza com pão e vinho sobre a mesa, quatro paredes caiadas e um São José de azulejos. Dito isto, nós por aqui preferimos cimento.


Comummente usam-se os termos cimento e concreto como se fossem sinónimos, contudo, são coisas um pouco diferentes. O cimento é um pó produzido sobretudo a partir do calcário, o concreto é mistura de cimento, água, brita, pedra e areia.

A diferença entre cimento e concreto é uma importante especificação técnica, todavia, nós neste texto vamos usar tão-somente o termo cimento, mesmo quando eventualmente nos possamos estar a referir ao concreto. Considerem essa opção falha de rigor, como sendo uma liberdade poética anti-técnica.

Vamos agora a um facto talvez surpreendente, para quem eventualmente estivesse em crer que o uso do cimento é coisa relativamente recente: a cúpula do Panteão em Roma, construída 220 a.C., é feita de cimento.

Cada círculo que a compõe contém um agregado diferente e cada vez mais leve, sendo que, os arquitectos romanos conseguiram criar uma impressionante estrutura de 43 metros de largura, perfurada no topo por uma abertura de oito metros de largura que ilumina o seu interior, o óculo, apenas com cimento.

Só com esta informação de carácter histórico-cultural, arrumamos logo com todos aqueles que dizem preferir os materiais de construção antigos, que são supostamente mais lindos, e neles não incluem o cimento.

Em síntese, há cimento numa das obras-primas arquitectónicas da antiguidade, por consequência disso, ancestralidade e beleza são portanto características que certamente não faltarão ao cimento.


Embora o cimento seja muito antigo, a verdadeira revolução começou com uma invenção de 1824. Foi então que um britânico chamado Joseph Aspdin patenteou o chamado cimento Portland, um aglomerante de origem mineral que conferia ao concreto plasticidade e, ao mesmo tempo, enorme resistência. Até hoje, o cimento Portland é o mais usado em todo mundo.

Foi esse novo tipo de cimento que tornou possível a construção de enormes fábricas, de pontes e viadutos e, mais tarde, de arranha-céus e de esculturais edifícios em estilo brutalista.

No estilo brutalista, o cimento é o grande protagonista. As superfícies cimentadas dos edifícios são mantidas à vista, sem serem cobertas com nenhum material, tinta ou adorno.

Abaixo uma imagem do cemitério de Buenos Aires na Argentina, projectado em 1949 pela arquitecta brutalista Ítala Fulvia Villa.


A austeridade e a expressividade muito próprias do cimento, são óptimas para criar uma certa atmosfera de recolhimento numa necrópole, mas são igualmente boas para erguer igrejas e lhes dar uma autêntica aura de espiritualidade.

O maior exemplo do uso do cimento como um material, que deixado à vista, se revela como sendo quase um sinal divino, é a chamada Igreja da Luz, um edifício projectado por Tadao Ando em 1969 para a cidade de Osaka, no Japão.


Acima uma imagem do interior da igreja, abaixo duas perspectivas do exterior.


Porém, a arquitectura brutalista, também pode ser um perfeito cenário para coisas mais mundanas e divertidas, como por exemplo, ir a banhos. A Piscina das Marés em Leça da Palmeira (Matosinhos), é uma obra-prima da arquitectura brutalista desenhada pelo arquitecto Siza Vieira.

Inaugurada em 1966 está classificada como sendo Monumento Nacional e destaca-se pela fusão harmoniosa com as rochas da costa e pelo modo como o cimento à vista e o Oceano Atlântico dialogam entre si.

Não era fácil que tal diálogo ocorresse, atentemos nas palavras de Siza Vieira a esse propósito: “Todos os anos, nas marés vivas, o mar leva o que não é essencial. Naquele sítio, um maciço rochoso interrompe as três linhas paralelas: encontro do mar e do céu, da praia e do mar, longo muro de suporte da via marginal. Alguém pensou em proteger uma depressão desse maciço, utilizando-a como piscina de marés. Mas o Atlântico não é o Mediterrâneo, nem é simples construir uma piscina onde poucas se fazem…”

No entanto, e apesar das óbvias dificuldades, Siza conseguiu que cimento e mar conversassem e continuem esse diálogo por mais de cinco décadas após a piscina ter sido construída.


Aqui chegados, já passámos por Roma, Buenos Aires, Osaka e Leça da Palmeira. Ao chegarmos a Lisboa, temos também belos edifícios de cimento, como a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, o Palácio da Justiça ou o abandonado Restaurante Panorâmico de Monsanto.

Acerca de todos esses e de outros já aqui falámos em ocasiões anteriores e por isso não nos vamos repetir, mas se eventualmente alguém quiser rever a matéria dada, aqui ficam os links para os textos “Este país não é para brutalistas, mas pode vir a ser!” e “Vai mais uma à bruta e com o material à mostra?”:



O que agora queremos falar é do novo local brutalista da capital de Portugal, trata-se da nova sede da Edp, que não fica muito longe do Cais de Sodré. O projecto é de Alejandro Aravena.

Alejandro Aravena nasceu no Chile em 1967. Foi galardoado com o Leão de Prata na Bienal de Veneza de 2008 e em 2016 recebeu a mais importante distinção arquitectónica mundial, o Prémio Pritzker.

Talvez por essa razão, ou não, a Edp escolheu o arquitecto chileno para projectar a sua nova sede. O que vemos são duas imponentes torres com cimento à vista, mas temos também uma praça central aberta aos transeuntes, onde se ergue uma rampa que se assemelha a um paralelepípedo.

Subindo pelo interior desse sólido, avista-se a cidade e o rio. Acerca disso, Alejandro Aravena diz-nos o seguinte: “Criámos uma ligeira elevação, é como se nesta dobra houvesse uma pequena colina. De forma muito subtil, sobe-se e desce-se, como as colinas à volta.”


Os mais inteligentes de todos os que nos leem, já terão adivinhado parte do enigma presente no nosso título, “Pagar a conta da luz com cimento em redor, pode ser um momento poético e até uma maravilha”.

Com efeito, ir-se até à sede da Edp pagar a conta da luz, pode efectivamente ser um belo momento poético, isto devido à arquitectura de Alejandro Aravena e ao modo como ele soube realçar a beleza do cimento.

O edifício que Alejandro Aravena desenhou para Lisboa, não podia ter sido desenhado para outro sítio qualquer e na verdade traduz a ligação do arquitecto com essa cidade: “A minha relação com Lisboa começou muito antes do projecto, como estudante de arquitectura em 1991. Vim de um país com pouca arquitectura e Portugal, em geral, é uma referência para estudantes de arquitectura. Há uma massa crítica de arquitectos que é difícil encontrar em qualquer outro lado, excepto talvez no Japão e na Suíça. As áreas edificadas são o nosso professor. Em Portugal, isso vem de dois lugares diferentes: chega-nos arquitectura de alta qualidade da história e da herança, mas também da contemporaneidade. Vir a Lisboa é como vir visitar os nossos professores.”

Digamos que a relação de Alejandro Aravena com Lisboa também é poética, sendo que isso é perfeitamente visível para quem tiver suficiente sensibilidade para sentir o modo como o cimento se relaciona com a cidade, com a sua luz e com quem a habita e nela se passeia.


Posto isto, e com já muito caminho percorrido, vamos desvendar o significado da parte final do nosso título inicial, a saber, “…e até uma maravilha de Portugal”.

O mistério é simples, a estação de televisão TVI tem actualmente um concurso em curso que se chama “As Novas Sete Maravilhas de Portugal”, sendo que, percorrendo a lista dos candidatos a serem eleitos, descobrimos entre esses a nova sede da Edp (Campus Sede EDP - Lisboa - Nº Votação 761207058).

Teria ou não a sua poesia e graça, que um edifício com cimento à vista, fosse escolhido como sendo uma das novas sete maravilhas de Portugal? Nós dizemos que sim.

Há adversários fortes, como por exemplo, a Torre dos Clérigos no Porto, a Sé de Coimbra, o Castelo de São Jorge em Lisboa e o Aeroporto Cristiano Ronaldo no Funchal, ainda assim, temos esperança que o cimento vença.
Aqui fica o site, para quiser votar:


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