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Agora é que é: 2024 vai ser a loucura total (Parte 4)


Esta noite, como habitualmente, há festa no Terreiro do Paço e por outros locais do país e do mundo, com vista a se celebrar a chegada do novo ano. Nós não vamos, está decidido. 

Antes, no passado, estivemos em grandes ajuntamentos em passagens de ano, mas isso era dantes, no tempo em que se fazia a festa, se comiam doze passas, se cometiam umas quantas loucuras e depois cada um ia às suas. Tudo acabava em paz, o dia um era de ressaca e para o ano havia mais. Só que agora, parece que as coisas já não são bem assim.

O Professor de Yale, Nicholas A. Christakis, previu que em 2024 vamos iniciar uns novos “loucos anos 20”, tal e qual como os de há um século, tendo sido disso, de que falámos nas três últimas publicações deste blogue. Aqui ficam:




Acima dissemos que a festa agora parece já não ser bem como era dantes, dissemo-lo porque são tantas as proibições, que dá a ideia que não vamos para uma festa, mas sim para um local onde há um perigo real e uma grande probabilidade de nos fazerem mal.

Para a festa do Terreiro do Paço, é proibido levar garrafas e copos de vidro, chapéus-de-chuva, capacetes, buzinas de ar comprimido, apontadores laser, megafones, paus para tirar selfies, bancos e cadeiras, armas de fogo ou brancas, explosivos, droga e seringas. Há também umas quantas ruas em que é proibido circular à vontade, ou seja, quem quiser ir para cima vai por um lado do passeio, quem quiser ir para baixo vai pelo outro.

É certo que na organização deste tipo de eventos todo o cuidado é pouco, e que mais vale prevenir do que remediar, mas dito isto, esta festa de passagem de ano do Terreiro do Paço parece ser pouca propícia a que se cometa a menor loucura. Pelos vistos, só se vai poder festejar com muita cautela e moderação.

Com efeito, tudo parece estar pensado para se entrar em 2024 com método e rigor, para que a diversão seja contida e regrada e para que todos se comportem de um modo impecável ou até mesmo exemplar.

O Professor Nicholas A. Christakis, nas suas previsões, diz-nos que em 2024 vão crescer os comportamentos disruptivos, vai haver uma grande efervescência cultural, festas desenfreadas por todo o lado, que o hedonismo substituirá o conservadorismo e que se espera uma overdose de sexo por todo o mundo, contudo, se formos a olhar para a passagem de ano que está ser preparada no Terreiro do Paço, a sensação com que ficamos é precisamente a oposta. 

Imaginem que recebem um envelope, lá dentro está um convite para uma festa, animam-se com tal perspetiva. Todavia, depois leem o convite e constatam que os anfitriões colocaram uma série de condições, proíbem isto, aquilo e aqueloutro. Perde-se um bocado a vontade de ir, não é verdade?


Nos anos 20 de hoje, como nos de há um século, são muitos os que querem proibir, é um fetiche que certas pessoas têm. As razões para se proibir são sempre nobres e boas. Os proibicionistas ou bem que querem salvar o planeta, ou bem que querem cuidar da nossa saúde e segurança, ou bem que querem restabelecer a moral e os bons costumes ou bem que querem qualquer outra coisa igualmente piedosa e bem-intencionada. O certo é que querem sempre o nosso bem.

Nos Estados Unidos da América, durante a década de 20 do século passado, foi implementada a Lei Seca. Passou então a ser proibido produzir, comercializar, transportar ou consumir qualquer tipo de bebida alcoólica. A lei entrou em vigor em 1920 e assim permaneceu por 13 anos, 11 meses e 24 dias. 

O argumento para se aplicar a Lei Seca, foi o de que o álcool prejudicava a saúde física e psicológica de quem o bebia e conduzia à pobreza e à violência. Razões pelas quais, urgia salvar as populações dos seus nefastos efeitos. Na base da Lei Seca esteve portanto uma santa e devota intenção, como é aliás sempre costume estar entre os que querem proibir.

Abaixo uma foto da época, de uma manifestação daqueles que não queriam ser salvos pelas caridosas almas que lhes queriam bem e por isso os proibiram de beber.


Se dermos uma volta pelo mundo do século XXI, descobrimos também por todo o lado proibições. Por exemplo, no Irão, para proteger as gentes da terrível influência cultural do Ocidente, é proibido cortar-se o cabelo conforme se queira. Os cortes foram decididos pelo governo e há uma lista com os que estão oficialmente aprovados. 

Em Inglaterra, os beijos são expressamente proibidos nas estações de comboio. A preocupação do legislador foi a de que nas despedidas os beijos se possam prolongar, provocando assim atrasos nos comboios.

A constituição de Israel decreta que aos sábados, dia do Shabbat, não é permitido enfiar o dedo no nariz. Esta lei é válida para todos os que seguem a fé judaica, mas os demais cidadãos estão isentos.

No município de Laranjon em Espanha foi decretado que era proibido morrer. Esta lei foi oficializada em 1999, após o Presidente da Câmara interditar as pessoas de morrerem na cidade, pois já não havia mais espaço vago no cemitério local.

No estado do Texas há uma lei que proíbe as pessoas de cometer qualquer crime sem notificar a vítima com antecedência. A lei foi criada com o objetivo de reduzir a violência, no entanto, estamos cá desconfiados que é bem capaz de ter pouca adesão por parte dos criminosos. 

Estes são apenas cinco, de muitos outros exemplos possíveis, de como o afã de proibir está disseminado por todo o lado. Aqui chegados, começamos a ter sérias dúvidas, de que como previu o Professor Nicholas A. Christakis, os loucos anos 20 do século XXI se vão iniciar já em 2024.

Será que um tão eminente estudioso como o Professor Nicholas A. Christakis, se terá equivocado e não irão haver anos 20 loucos nenhuns no século XXI? 

Para investigarmos esta questão, nada melhor do que regressarmos aos loucos anos 20 do século XX e vermos os efeitos que teve a Lei Seca nos Estados Unidos. 

Será que os americanos ficaram mais pios? Ter-se-ão tornado abstémios? Passaram a agir com método e rigor e a divertir-se de um modo contido e regrado? O seu comportamento foi a partir daí impecável ou até mesmo exemplar? 

A resposta a todas estas interrogações é um rotundo não. O comércio e o consumo ilegal de bebidas alcoólicas tornaram-se corriqueiros e os governos foram fazendo vista grossa. Traficantes e comerciantes, como Al Capone em Chicago, montaram enormes esquemas de distribuição e venda de bebidas e lucraram imensamente com a Lei Seca. Em síntese, proibir não serviu absolutamente para nada.

Involuntariamente, a Lei Seca acabou até por contribuir para que os loucos anos 20 na América fossem ainda mais loucos e ficassem também conhecidos como “The Jazz Age”.

Com efeito, dada a proibição de beber, por todo lado surgiram chamados “speakeasies”. Um “speakeasy” era um bar clandestino onde se dançava e bebia. Dançava-se ao som do Jazz, bebia-se tudo o que houvesse. 

Só em Nova Iorque, nos loucos anos 20, chegaram a haver mais de cem mil! Como eram ilegais, deles só se falava baixinho, daí o “speakeasy”. Abaixo a rapaziada aguardando tranquilamente que a noite chegasse, à porta de um desses secretos estabelecimentos.


A conclusão a retirar desta história, é que quando se quer andar na loucura, tanto faz que nos proíbam como não, dê lá por onde der, a festa faz-se. Tanto se faz que no Irão as mulheres cortam os seus cabelos:




Tanto se faz que em Inglaterra, agora como sempre, as gentes beijam-se nas estações de comboio:


Tanto se faz que em Israel aos sábados os judeus enfiam os dedos pelo nariz:


Tanto se faz que em Laranjon continua-se a morrer:


E, tanto se faz, que no Texas persiste-se em cometer crimes sem previamente se avisar a vítima:


Ora bem, tudo isto por junto, faz-nos crer que feitas as contas talvez o Nicholas A. Christakis tenha afinal razão e os loucos anos 20 vão começar mesmo mais logo em 2024.

Ainda assim, se porventura não começarem logo à meia-noite no Terreiro de Paço, hão de começar noutro sítio ou dia qualquer, não há pressa, 2024 tem muito para dar…

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