O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso... (penáltis e apito afinal.
Terminamos hoje uma série de quatro textos dedicados às grandes emoções causadas pelo pontapé no esférico. Emoções essas que nos levaram a vastas reflexões artísticas e literárias e quiçá inclusivamente filosóficas. Para acabarmos vamos falar de Portugal, coisa que ainda não fizemos, mas antes disso, aqui ficam os links para os textos anteriores:
Não existem na história do futebol português jogos cujo significado tenha extravasado largamente para fora do relvado. Não há momento algum em Portugal, que possa ser comparável ao do Maracanazo em 1950, quando o Brasil perdeu a final do Mundial em pleno Rio, e a nação entrou instantaneamente numa enorme depressão, cujos efeitos se fizeram sentir na economia, na sociedade e na política.
Vários livros e documentários analisaram ao longo dos anos o terrível impacto sociológico da derrota em 1950 e do modo como o Brasil reagiu. A tragédia futebolística tornou-se um marco cultural, abordado por escritores, historiadores e cronistas como sendo um evento mítico da história colectiva do país.
Também não há na história do futebol português, um triunfo imenso cujo significado vá muito para lá do futebol. Nada há em Portugal de comparável àquela vitória da Alemanha no Mundial de 1954, que foi disputado na Suíça.
Esse êxito futebolístico foi a primeira alegria colectiva do povo alemão no pós-guerra, ajudando a restaurar a dignidade nacional com a popular frase “wir sind wieder wer” (nós somos alguém novamente).
A vitória da Alemanha sobre a Hungria (3-2) nessa final do Mundial de 1954, ficou para história como o Milagre de Berna, representando um princípio de redenção moral e psicológica de um país arrasado pelos horrores do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial.
O título conquistado na Suíça mostrou ao mundo que a Alemanha estava novamente integrada na comunidade internacional. O sucesso futebolístico serviu como alavanca diplomática e abriu caminho para que as indústrias alemãs exportassem os seus produtos por todo o mundo.
O triunfo funcionou como catalisador social e para o chamado Milagre Económico Alemão (Wirtschaftswunder), em síntese, depois do milagre futebolístico, deu-se o milagre económico, e os alemães passaram a ser vistos como um povo rigoroso, trabalhador, cumpridor e eficaz.
Ainda não havia transmissões televisivas naquela época, mas através da rádio, não houve cidade ou vila alemã pela qual não ecoassem as palavras do repórter Herbert Zimmermann a gritar “Aus, aus, aus! Aus! Das Spiel ist aus! Deutschland ist Weltmeister! (Acabou, acabou, acabou! O jogo acabou! Alemanha é campeã do mundo!)”.
Aqui fica esse momento:
Em resumo, na história do futebol português não há momentos com um significado transcendental que vá para lá das quatro linhas. O povo alegra-se com as vitórias, aborrece-se com as derrotas e encolhe os ombros com os empates, mas feitas as contas é isso.
Imagine-se por exemplo que no Verão de 1974, pouco depois do 25 de Abril, a seleção vencia o Mundial desse ano. Aí sim, o triunfo seria muito mais do que futebolístico, pois a conquista no relvado estaria para sempre associada à conquista da liberdade.
Um outro exemplo, imagine-se que a derrota com a Grécia na final do Europeu de 2004 jogada em Lisboa, se tinha dado em 2011, ano da entrada da Troika em Portugal. Claro que nesse caso, a derrota futebolística teria óbvias ligações à crise social, económica e política.
No entanto, não foi nada disso que sucedeu e portanto não há um momento do futebol português em cuja alegria ou tristeza pelo resultado, esteja intimamente associado ao destino da nação. Todavia, o que existe sim, são personalidades do mundo do pontapé na bola, que de algum modo são um paradigma de Portugal, sendo uma delas Jorge Jesus.
Para compreendermos como Jorge Jesus é na verdade um paradigma de Portugal, nada melhor que nos centrarmos na sua passagem pelo Rio de Janeiro, cidade onde orientou o mais popular clube do Brasil, a saber, o Flamengo.
Não por acaso, foi no país-irmão, que Jesus mais afirmações fez sobre o que é ser-se português. O Rio de Janeiro é uma Lisboa à solta, disse alguém um dia, e de facto, Jesus sentiu-se livre no Rio: “No Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor."
“Eu sei que vou-te amar”, é a frase que dá título a uma célebre melodia composta por Tom Jobim, com letra de Vinicius de Moraes. A famosa frase fez também parte dos cânticos da torcida do Flamengo dedicados ao treinador português Jorge Jesus. Esse foi um tempo marcado por uma paixão imensa, intensa e correspondida entre o técnico lusitano e o clube carioca.
Em Portugal nunca me cantaram, disse Jorge Jesus numa entrevista: “Estive no Benfica, ganhei tudo o que havia para ganhar e nunca tive um jogo sequer, em que os adeptos cantassem para mim. Nenhum!"
É evidente que as vitórias e os títulos ajudam, mas a verdade é que Jesus seria amado no Brasil, mesmo que pouco ou nada vencesse. A razão pela qual seria amado do outro lado do Atlântico, é exactamente a mesma por que por cá nunca ninguém o amou, mesmo tendo o homem vencido uma série de campeonatos seguidos.
Em Portugal desdenha-se quase sempre de tudo e de todos, e raramente se perdoa a alguém o conseguir fazer coisas novas e com sucesso. Jorge Jesus foi um treinador inovador, trouxe novas tácticas e métodos para o pontapé na bola, consequentemente, logo a intelectualidade reinante na nação começou a desdenhar dos seus discursos, do seu modo de falar e das suas construções gramaticais.
Foi de tal forma, que a biografia oficial do homem tem o título “Não sou Eça de Queiroz - o mundo de Jorge Jesus”
O Brasil amou Jorge Jesus porque ele representava parte da essência do Brasil, um país multicultural, construído de base por um tipo particular de gente vinda de Portugal, ou seja, portugueses rudes, plebeus e do interior.
Foram esses portugueses pouco educados e pobres que ergueram a grandeza do Brasil e não os nobres. Gilberto Freire (1900-1987), que foi o maior sociólogo do Brasil e cujo prestígio se difundiu pelo mundo inteiro, escreveu na sua obra “Novo mundo nos trópicos” o seguinte:
“Resta-me ainda alguma coisa a dizer quanto ao que deve o Brasil aos homens do campo, rústicos ou analfabetos, de Portugal. Desde os primeiros dias do século XVI foram eles o elemento básico para o desenvolvimento, na América Portuguesa, de uma nova e vigorosa cultura, não meramente subeuropeia ou colonial, porém, brasileira. E estes rústicos – poderíamos salientar – e não os nobres, os burgueses, os finamente educados, é que, através, de séculos, vêm sendo a flor ou a nata da colonização portuguesa no Brasil”.
Como é evidente, Gilberto Freire não escreveu sobre Jorge Jesus, no entanto, bem que o poderia ter feito, uma vez que este seu excerto explica perfeitamente porque é o técnico português amado no Brasil.
Apesar de em Portugal, Jesus afirmar não ser Eça de Queiroz, no Rio as frases saiam-lhe inspiradas e soltas, como numa ocasião em que questionado sobre o tema numa entrevista, disse assim: “As mulheres são o produto mais bem feito por Deus nosso senhor no Mundo".
E agora o grupo coral do Flamengo a cantar, “Eu sei que vou-te amar”:
Deixemos Jesus e o Brasil e falemos de um outro treinador português, José Mourinho. O técnico conquistou muitos e importantes títulos ao longo da sua carreira, porém, nunca foi propriamente amado, apesar dos triunfos conquistados.
Em todos os clubes por onde passou, houve sempre um certo mal-estar, nunca era consensual e havia muito quem, mesmo sendo vitorioso, o quisesse ver pelas costas. Neste nosso texto, Mourinho representa um outro paradigma do que é ser-se português.
Se Jorge Jesus representa o português ancestral, rude e plebeu, Mourinho representa o Portugal democrático, o país moderno e plenamente integrado na União Europeia.
Sendo um facto que jamais alguém gostou muito de Mourinho, quando chegou a Roma adoraram-no. Foram dois anos e meio intensos, em que praticamente não ganhou nada, mas onde nasceu uma ligação visceral e um amor louco entre Mourinho e Roma.
Citemos a este propósito, o periódico Corriere dello Sport: “Ma, visto che qui si parla d'amore, non si può non raccontare quanto amore ci sia - ancora - intorno a José Mourinho (uma vez que aqui se fala de amor, não se pode calar o quanto amor há -ainda- por José Mourinho)”
Mas o que explicava esse amor entre Roma e Mourinho? A primeira coisa é que Mourinho e Roma, não prometeram um ao outro nada que não pudessem cumprir. Nem Mourinho, como o fez noutros sítios, jurou que ia vencer taças e campeonatos, nem Roma lhe afiançou que iria adquirir grandes jogadores, de modo a ter enormes ambições.
Mas depois, há muito mais do que isso, “Mourinho è entrato nelle teste, nei cuori, nelle allucinazioni, nei sacri deliri di un’intera tifoseria (Mourinho entrou nas cabeças, nos corações, nas alucinações, nos sagrados delírios de todos os adeptos)".
Tanta adoração deriva do técnico português ser um homem “pieno di perfide astuzie e inaudite dolcezze (repleto de pérfidas astúcias e de uma inaudita doçura)".
Roma é uma capital europeia, contudo as suas gentes são bem diferentes dos eficazes alemães, dos frios eslavos e dos rigorosos e correctos nórdicos. Roma viu em Mourinho alguém que sendo tão eficaz como um alemão, conseguindo ser tão frio como um eslavo e tão rigoroso como um nórdico, ainda assim era travesso, astuto e doce como um latino.
Quando Mourinho partiu, sem ter ganho praticamente nada, um título de jornal dizia assim: “Mourinho e l'amore folle con Roma (che dopo l'esonero si sente orfana)”. No dia da separação, houve abundantes lágrimas pela cidade eterna.
O que Mourinho trouxe a Roma foi a certeza, de que por muito integrada que estivesse a Itália na União Europeia, os romanos não eram frios, correctos e eficazes como os povos do norte do continente, eram também malandros, travessos, espontâneos e doces.
“No futebol nasces bandido, não te tornas num”, foi um comentário que Mourinho fez em Itália, sendo que esse dito, revela o carácter lusitano do técnico. Também nós os portugueses não somos apenas frios e eficazes, se precisarmos de nos desenrascar, de contornar regras ou de recorrer traquinices, não hesitamos e até temos orgulho nisso.
O que Mourinho fez em Roma foi devolver-lhes o orgulho por serem como são, deu-lhes algo melhor que resultados, mostrou-lhes que não são como os industriosos nórdicos e que não há mal nenhum nisso.
Mourinho não morava longe do Vaticano, um lugar onde malícias, intrigas e “mind games” sempre estiveram bem. Nos seus longos corredores, pelos cantos e nas suas salas mais obscuras, há séculos que se trama o destino de papas, de príncipes e da cristandade, tal e qual como Mourinho trama estratégias nos balneários, deixa recados a jornalistas e provoca com as suas conversas aos seus adversários.
Por tudo isso, o cronista italiano escreveu na despedida de Mourinho de Roma: “Non è distante dal Vaticano, senza voler essere blasfemi lui, di Roma, è stato anche un po' Papa in questi due anni e mezzo (Não é distante do Vaticano, sem querer ser blasfemo, ele foi um pouco o Papa neste dois anos e meio)”.
Durante a sua passagem pela Roma, a melodia do clássico “Ti Amo” de Umberto Tozzi, foi adaptada pelos adeptos e entoada durante os jogos, e é com essa canção que terminamos este nosso conjunto de quatros textos dedicados ao futebol intitulado “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”.
A versão de “Ti Amo” é a da série televisiva “Casa de Papel”, onde a determinado momento alguém pergunta “O que pesa mais? O amor ou a morte”. A resposta vem logo em seguida: “O que pesa mais é a vida”.






Comentários
Enviar um comentário