Com os preços do
petróleo e de tudo o resto a subir, em consequência do conflito entre os
Estados Unidos e o Irão, esse país do Médio Oriente passou a estar nas bocas do
mundo. Agora sim, toda a gente lhe liga, só que se calhar, não pelas boas
razões.
É só ver os
noticiários nacionais, para se perceber que não há qualquer preocupação pelo
destino do Irão, há sim enfado pelo preço da gasolina e do gasóleo ter
aumentado, e por o chamado cabaz de compras ser mais dispendioso.
Nós não queremos ser
chatos, no entanto, há muito que por este blog vimos dizendo, que se deveria
dar mais atenção a essa nação, que antes era a Pérsia, pois é um dos sítios
mais decisivos para o futuro do mundo, e não somente por causa do petróleo, mas
sobretudo por causa das suas gentes, do seu modo de viver e da sua cultura, que
são tudo coisas fascinantes e mereciam mais consideração do Ocidente.
A nós chateia-nos que
só se ligue ao Médio Oriente, e ao Irão em específico, quando os ocidentais
ficam aflitos por causa do petróleo, nesse contexto, e uma vez mais, falaremos
de outras coisas, que não de gasolina e gasóleo.
Apesar do Irão ter uma
história milenar, o facto é que a modernidade e a liberdade, são anseios desde
sempre muito presentes no seio dessa nação. Tais anseios foram sendo esmagados
por sucessivos regimes, porém, não feneceram.
É isso o que de mais
precioso o Irão pode oferecer ao Ocidente, não o petróleo, mas sim a lição que
por mais terríveis e cruéis que sejam os regimes, ainda assim, o desejo de
liberdade e modernidade não morre.
Com efeito, nós há
muito que vimos dizendo que seria decisivo conhecermos bem o que se passa lá
para os lados de Teerão, o que pensam as suas gentes, ao que aspiram e quais
são as suas profundas e ancestrais raízes culturais.
Como acima dissemos, a
modernidade e a liberdade são anseios desde sempre presentes no seio dessa
nação, e foi precisamente acerca desse assunto, que aqui frequentemente
escrevemos.
A mero título de
exemplo, deixamos-vos quatro textos sobre o Irão que publicámos antes sequer de
se falar em guerra, e que permanecem hoje em dia perfeitamente actuais, talvez
até mais do que à data da sua publicação.
Em 8 de Outubro de 2022 publicámos neste blog um texto intitulado “A lição de Teerão”:
https://ifperfilxxi.blogspot.com/2022/10/a-licao-de-teerao.html
Em 1 de Fevereiro de 2023 publicámos neste blog um outro texto intitulado “O que esperar dos mais novos? Que façam zig-zag”:
https://ifperfilxxi.blogspot.com/2023/02/o-que-esperar-dos-mais-novos-que-facam.html
Em 25 de Maio de 2025 publicámos um terceiro texto intitulado “Cool e culto Irão”:
https://ifperfilxxi.blogspot.com/2025/05/cool-e-culto-irao.html
E finalmente em 17 de Janeiro de 2026 publicámos ainda um texto intitulado “Outra vez o Irão, ou melhor, a Pérsia”:
https://ifperfilxxi.blogspot.com/2026/01/outra-vez-o-irao-ou-melhor-persia.html
Dito isto, hoje escreveremos novamente acerca do Irão, e agora a propósito da incrível história do Museu de Arte Contemporânea de Teerão.
Se pensássemos num sítio em que haja
uma colecção de arte moderna e contemporânea, que possua todos os grandes
clássicos como Pollock, Picasso, Francis Bacon, Andy Warhol, Mark Rothko, Renoir,
Van Gogh ou Dali, pensaríamos certamente que fica num sítio como Londres, Nova
Iorque ou Paris. Mas não, no caso, é Teerão.
Olhemos para
a imagem abaixo da BBC News, em que uma cidadã iraniana, aprecia detalhadamente
uma obra de Jackson Pollock.
A cidadã acima, é certamente uma
privilegiada, pois a excelente colecção de arte moderna e contemporânea de
Teerão há décadas que está escondida numa cave, e só uns poucos, mas mesmo
muito poucos, a ela têm acesso.
De facto, é estranhamente improvável e belo, que haja uma excelente colecção de arte moderna e contemporânea lá para os lados de Teerão.
Sendo assim, a questão que se impõe,
é como é que foram parar a Teerão, inúmeras obras de artistas modernos e
contemporâneos, dessas que até no liberal Ocidente despertam incompreensões e
reservas.
Contudo, antes de respondermos a essa
magna questão, vamos primeiro centrarmo-nos, no estilo arquitectónico do Museu
de Arte Contemporânea de Teerão, que é brutalista.
A linguagem arquitectónica brutalista,
também não seria a mais evidente que esperaríamos encontrar na conservadora e
religiosa cidade dos Aiatólas, porém, foi mesmo nesse estilo moderno, ousado e
original, que se ergueu o Museu de Arte Contemporânea de Teerão.
O Museu de Arte Contemporânea de Teerão, foi projectado
por Kamran Diba em 1977, e equilibra com maestria os ideais da arquitectura
moderna com as tradições da cultura persa. O edifício incorpora assim as
aspirações de contemporaneidade do Irão e a sua identidade histórica.
O exterior é composto por clarabóias curvas e
esculturais que reinterpretam as tradicionais torres de vento das cidades
desérticas iranianas para captar luz natural indirecta.
Compare-se a imagem abaixo, de uma ancestral cidade no
meio do deserto…
… com esta outra que se segue, do Museu de Arte Contemporânea de Teerão. Há ou não evidentes semelhanças?
O desenho do museu incorpora também um pátio central,
um conceito próprio da arquitectura do Médio Oriente, e jardins de esculturas
ao ar livre, que é uma reinterpretação moderna dos clássicos jardins persas.
Abaixo na imagem, um conjunto de mulheres admira uma escultura de Alberto Giacometti (1901-1966) que foi cubista, surrealista e expressionista.
“Este museu não é apenas um espaço para ver arte; é um lugar onde a
tradição encontra a modernidade, onde o passado e o futuro coexistem”, disse
Kamran Diba, o arquitecto que o desenhou.
Voltemos agora à questão anteriormente levantada, ou seja, como é que obras de arte tão modernas e preciosas foram parar a Teerão.
A resposta é simples, em meados da década de
setenta, beneficiando dos altos preços a que era comercializado o petróleo, a
esposa do Xá da Pérsia, a imperatriz Farah, mandou construir o museu e para ele
adquiriu uma excelente e multimilionária colecção.
Mas apenas dois anos após a sua
inauguração, em 1979, os clérigos xiitas depuseram o Xá da Pérsia e guardaram
as obras de arte na cave do museu. Pinturas e esculturas cubistas,
surrealistas, impressionistas e até mesmo da Pop Art, permaneceram desde então
invisíveis de modo a evitar ofender os valores religiosos e puritanos dos Aiatólas.
Na verdade, foi por muito pouco
que todas essas obras não foram pura e simplesmente queimadas, sendo que em
todas estas décadas, só muito raramente algumas delas são expostas, e ainda
assim com muito cuidado e não acessíveis a toda a população iraniana.
Uma mulher iraniana observa a
pintura “Sienna, Orange Black on Dark
Brown", do artista norte-americano Mark Rothko (1903-1970), durante a
inauguração de uma das raras exposições do Museu de Arte Contemporânea de Teerão.
E pronto, aqui chegados terminamos este passeio pelo Médio Oriente, mais concretamente por Teerão, e mais especificamente, pelo seu Museu de Arte Contemporânea.
Mesmo para finalizar, abaixo, uma imagem de duas artistas actuais da cena avant-garde do Irão, que posam junto a uma das suas modernas obras de arte.











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